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| » » » 09.08.06 |
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| O triunfo do impossível |
09.08.06 |
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| Heidfeld, o terceiro colocado na Hungria |
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A preparação psicológica começou no instante em que a FIA confirmou meu credenciamento para o Grande Prêmio da Hungria. Claro que o prazer de trabalhar junto da ação supera qualquer contratempo, mas Hungaroring sempre foi sinônimo de temperaturas elevadíssimas e corridas insuportáveis. Ao chegar na quinta-feira no circuito, constatei que eu não era o único a se surpreender com o clima ameno e úmido, quase outonal, que se apresentava. As interrogações nos rostos de pilotos e engenheiros eram evidentes.
Era um fim-de-semana estranho, o que ficou óbvio pela besteira que Fernando Alonso fez nos treinos livres de sexta-feira. Aplicar um brake-test em Robert Doornbos foi uma resposta estúpida e desnecessária a um possível prejuízo que o espanhol teria tido na passagem anterior. Uma metade da sala de imprensa achou a punição desmedida, um mero instrumento para dar mais emoção na disputa pelo título. Pura paranóia. Por um entrevero similar, Juan Pablo Montoya foi jogado para o último lugar no grid do GP de Mônaco de 2005. Alonso teve é sorte.
Claro que, para nós brasileiros, o dia foi ofuscado pela notícia do surreal acidente com Cristiano da Matta. No final da tarde, a família patropi da Fórmula 1 - pilotos, engenheiros, jornalistas, membros de equipe - se reuniu no motorhome da Toyota, junto com Jarno Trulli e outras pessoas da equipe, para fazer uma oração pela sua melhora. Foi de arrepiar.
Estive em algumas corridas que Cristiano fez no Brasil e me lembrei de dois episódios que mostram muito sobre seu caráter. O primeiro ocorreu em na sexta-feira 13 de maio de 1999, primeiro dia de atividades na etapa brasileira da Fórmula Mundial. Caiu um toró de proporções bíblicas e, pouco depois da hora do almoço, os comissários anunciaram que os treinos do dia estavam cancelados. Não demorou muito para que pilotos e chefes-de-equipe sumissem rumo a seus hotéis. Quando eu deixava a pista, por volta das 19 horas, passei em frente aos boxes da Arciero-Wels - a Minardi da categoria - e lá estava o mineirinho junto a seus mecânicos e engenheiros, estudando dados e fazendo projeções para o dia seguinte. Um tremendo de um batalhador.
O episódio seguinte ocorreu no Grande Prêmio do Brasil de 2003, sua terceira corrida na categoria. Perguntei-lhe sobre o que achara do desempenho do carro no primeiro treino livre. "Uma merda", respondeu, sem rodeios. Seu estilo direto acabou-lhe custando caro no ano seguinte, quando entrou em confronto com Mike Gascoyne e acabou mandado embora após o GP da Alemanha. Meses depois, a equipe contratou Jarno Trulli, que constatou ser procedente a análise do brasileiro. Aí, foi a vez de Gascoyne empacotar suas coisas...
Voltando à Hungria, a mesma Toyota ofereceu um jantar na sexta á noite para os jornalistas brasileiros e espanhóis. O alemão Dieter Gass, engenheiro-chefe do time, me confessou que previa um vencedor surpreendente no domingo. "Os pneus trazidos aqui eram para um clima quente, mas a previsão é de chuvas e temperaturas médias. Ainda que a pista esteja seca no domingo, o asfalto vai estar com pouquíssima aderência e a prova será meio que uma loteria. Espero que a sorte sorria para o nosso lado". Análise perfeita, só errou a última parte...
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| Button comemora sua primeira vitória |
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No sábado, Alonso compensou a bobagem do dia anterior com uma bela arapuca em cima do rival alemão. No treino livre da manhã, a bandeira vermelha foi exibida após uma quebra no motor de Jenson Button. Ao ver um carro vermelho no retrovisor, o espanhol passou a andar em ritmo de tartaruga. Robert Kubica percebeu e fez o mesmo. Schumacher, afoito, mordeu a isca e passou os dois pouco antes de entrar nos boxes. Como resultado, recebeu a mesma punição de dois segundos do espanhol.
Como a linha entre genialidade e loucura é tênue, foram justamente os dois tolos do fim-de-semana que brilharam na prova. Para começar, a largada de Michael Schumacher foi sobre-humana, uma demonstração de absoluto controle e domínio sob condições assustadoras. Depois, o alemão sucumbiu ao mau desempenho dos intermediários Bridgestone naquelas condições - mas fez um papel bem mais bonito que seu companheiro de equipe Felipe Massa.
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| Schumacher perseguido por Alonso |
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Mas quem arrasou mesmo foi Alonso. A ultrapassagem sobre Schumacher foi antológica, mesmo levando em conta a diferença no desempenho dos pneus de ambos. E a maneira com que ele deixou para trás os pilotos de Michelin preenche laudas sobre sua classe. Pena que seu esforço foi em vão por culpa de um erro da equipe: uma porca não foi presa direito, algo inimaginável na F-1 moderna.
No final, fica a lição de todos os erros: os dos postulantes
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| O McLaren de Kimi volta para a casa |
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ao título, o da Renault, o da Ferrari que montou pneus errados no carro de Felipe Massa no meio da corrida, o de Kimi Räikkönen que se atrapalhou sozinho na hora de ultrapassar Liuzzi, os de Massa e Barrichello na escolha dos pneus. Erros que, em sua maioria, só foram possíveis por um clima inesperado e perverso, com a natureza triunfando sobre os Gigabytes de dados dos engenheiros e a pilotagem robótica dos pilotos atuais.
Pois é esta a Fórmula 1 que queremos, nas quais as bem-pagas estrelas do espetáculo sejam obrigadas a improvisar e que seus erros não sejam encobertos por auxílios eletrônicos. Nas quais os engenheiros cheguem a uma pista e tenham de lidar com as condições apresentadas, sem dispor de zilhões de simulações feita em computadores, nas quais as frias máquinas ditam o andamento de cada carro antes mesmo deles entrarem na pista. Enfim, de uma corrida mais humana.
Pois é aí que entra o triunfo do impossível. Domingo de manhã, quando cheguei na sala de imprensa de Hungaroring, até brinquei com o colega Fabio Seixas, da Folha de S. Paulo. "Se um GP da Hungria com chuva era impossível, é hoje que o Button ganha uma corrida", palpitei. Pois, na corrida dos humanos, venceu mesmo o inglês e seus engenheiros da equipe Honda, que souberam ler como ninguém as condições complicadas e não cometeram nenhum erro. Saindo de 14º no grid, foi uma bela maneira de encerrar o incômodo tabu. E, sendo o cara legal que é, Jenson Button merecia.
Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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