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| » » » 31.05.06 |
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| O pianista silencioso |
31.05.06 |
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Os dois mecânicos da Benetton, postados naquele ponto da pista com pistolas medidoras de velocidade, mal puderam acreditar no que viram: na aproximação da curva Verrerie, feita em sexta marcha e sem aliviar a aceleração, a asa traseira da Brabham BT55 quebrou. Ao passar por uma ondulação, a máquina simplesmente decolou como se fosse um caça da RAF. Depois de voar sobre os guard-rails, o carro bateu em um barranco e parou de ponta-cabeça. Foi o que relataram as duas únicas testemunhas do acidente que matou Elio de Angelis, há 20 anos atrás.
O primeiro a chegar à cena foi Alan Jones, que viu quando o motor BMW começou a pegar fogo. Depois vieram Alain Prost e Nigel Mansell, iniciando uma tentativa frustrada de virar o carro. Demorou alguns minutos até chegar o primeiro fiscal de pista com um extintor de incêndio – vestindo shorts e camiseta! Na confusão, o infeliz acabou jogando a maior parte do pó químico dentro do cockpit, e não no motor.
De Angelis foi finalmente retirado do carro cerca de dez minutos após o impacto, mas teve de esperar outros 45 até a chegada de um helicóptero que o transportasse do circuito de Paul Ricard a um hospital em Marselha. No dia seguinte, pereceu com graves lesões no cérebro. O Brabham se mostrou resistente na hora da batida e as contusões externas foram poucas, mas o órgão interno não resistiu à desaceleração brusca.
Era apenas um teste coletivo e o incidente ilustrou o descaso com que eles eram tratados em termos de segurança. Foi preciso que De Angelis morresse para a FIA acordar e introduzir medidas para os testes, como a exigência de um helicóptero no local, de um centro médico equipado, de diversos fiscais preparados e espalhados ao longo do circuito.
O acidente pôs fim a uma carreira que poderia ter durado muito tempo. Com apenas duas vitórias em 108 GPs disputados, o piloto italiano pode não ter sido um dos mais velozes pilotos de sua época. Mas era sem dúvida um dos mais regulares. Provavelmente, De Angelis ficaria na F-1 até o início dos anos 90 e, com um estilo de pilotagem limpo e suave, teria sucesso garantido em provas de longa duração.
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| Comemorando sua vitória no GP da Áustria de 1982 |
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Nascido em uma abastada família romana, Elio de Angelis foi criado para se tornar um pianista clássico. Mas a velocidade presente em seu sangue foi mais forte: seu pai, Giulio, havia sido campeão de motonáutica por várias vezes. “Eu não tenho nenhuma outra paixão que não seja disputar corridas”, admitiu certa vez. O aprendizado foi no kart e, depois, na Fórmula 3 (com direito a uma vitória polêmica em Mônaco) e na F-2.
Quando ingressou na equipe Shadow, em 1979, Elio de Angelis era tido apenas como um menino rico, um filhinho de papai. Mas sua constância com os complexos e exigentes carros-asa chamou a atenção de Colin Chapman, que o chamou para a Lotus em 1980. Um segundo lugar, logo na segunda corrida, em Interlagos, criou um elo enorme entre piloto e equipe. O feito o levou ao livro dos recordes como o mais jovem piloto a subir ao pódio na Fórmula 1, marca que só seria batida em 1997 por Ralf Schumacher e que pertence atualmente a Fernando Alonso.
De Angelis foi o responsável pela última “atirada de boné ao ar” de Colin Chapman ao vencer o GP da Áustria de 1982, com meros cinco décimos de vantagem sobre Keke Rosberg. O fundador da equipe morreria em circunstâncias misteriosas pouco tempo depois. Foi ele também quem desenvolveu com sucesso o conjunto Lotus-Renault: após um ano duro em 83, ele terminou o Mundial seguinte em terceiro lugar, atrás apenas de Niki Lauda e Alain Prost, os pilotos da então quase imbatível McLaren. Tudo indicava um futuro excelente para o italiano. Aí veio Ayrton Senna.
O piloto brasileiro chegou à equipe com moral após sua boa temporada de estréia na Toleman e mostrou de cara ser mais veloz que o companheiro. O problema é que o campeonato de 1985 premiava mais a regularidade, pois os carros corriam praticamente no limite do combustível. O estilo de pilotagem bruto de Senna o deixou sem gasolina em San Marino e quebras mecânicas no Rio e em Mônaco não contribuíram muito para suas pretensões no campeonato.
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| Em 1984, seu melhor ano na Fórmula 1 |
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Enquanto isso, De Angelis somou pontos nas quatro primeiras etapas, incluindo uma vitória herdada em Ímola após a desclassificação de Alain Prost (seu carro estava abaixo do peso no final da prova – o combustível...). O italiano saiu de Monte Carlo como líder do campeonato, com mais do dobro de pontos de Senna, para participar de testes coletivos em Paul Ricard, Foi ali que percebeu que seu novo companheiro de equipe havia conquistado a equipe para si nos bastidores.
“Fui deixado de lado pela Lotus. Houve críticas à minha pilotagem, por eu ser bem mais cauteloso que Senna. Mas o fato é que eu liderava o Mundial, à frente de Prost e Alboreto. O problema foi que, quando cheguei no circuito, só me deixaram dar três voltas. Imagine, no dia em que eu era o líder do campeonato, me deixaram num canto como um novato qualquer”, desabafou o piloto no fim daquele ano.
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| Desentendimentos e mágoas na relação com Senna |
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Introvertido e de moral rígida, De Angelis sentiu-se apunhalado pelas costas e, decidido a deixar a equipe, aceitou a situação de ser segundo piloto mesmo estando em primeiro no campeonato. Seus resultados, claro, minguaram. Após o encerramento da temporada, o piloto deu graças a Deus que o ano chegara ao fim e finalmente falou o que pensava, culpando mais a direção da Lotus do que Senna pela situação.
“Peter Warr tem um estilo completamente diferente de Colin Chapman. Ele é um administrador capaz, mas às vezes inventa demais. Não seria difícil para a Lotus dividir o trabalho de forma igual para os dois pilotos e não sei porque não o fizeram, mas é uma situação que pode um dia se tornar perigosa para a equipe. Com Senna, não tive nenhum problema até a África do Sul”, disse o italiano, se referindo a uma fechada criminosa que sofreu na penúltima prova do ano. “Fiquei tão puto que quase quebrei a cara dele depois, nos boxes. Acho que o que aconteceu mostra bem o seu caráter. Ele é uma pessoa estranha, com uma atitude estranha em relação a mim”.
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| Sofrendo com a imprevisibilidade do Brabham BT55 |
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Em 1986, o piloto assumiu o lugar de Nelson Piquet, de quem também não gostava, na Brabham. O BT55 era um dos maiores fracassos da história da F-1. Excessivamente baixo, tinha a melhor velocidade final na maioria dos circuitos, mas era quase impossível de se pilotar nas curvas. Mostrando espírito de equipe, De Angelis conversou longamente com o projetista Gordon Murray em Ímola, com um discurso otimista e depositando total confiança na capacidade do engenheiro em acertar os defeitos do projeto. “O treino foi uma merda, mas pelo menos aumentamos a moral do Gordon”, falou depois para um repórter.
Em Mônaco, largou em último lugar e abandonou com problemas no turbo. Foi sua última corrida. A equipe tinha escalado Riccardo Patrese para os testes em Paul Ricard na semana seguinte, mas De Angelis pediu para substituí-lo no primeiro dia. A triste ironia é que, certa vez, o piloto disse que não entendia o porquê destes testes coletivos, afirmando que o tempo de treinos nos fins de semana de corridas já era suficiente. Involuntariamente, contribuiu para que os testes também se tornassem mais seguros. E vitais.
A volta dos Mutantes, a melhor notícia do ano até agora, ocorreu em Londres, mas ecoou em Monte Carlo. Enquanto Schumacher cantava “Eu vou sabotar/ você vai se azarar/ o que eu não ganhou eu leso/ ninguém vai me gozar não jamais”, os comissários de prova fizeram o papel de “El Justiciero” e quem se “Top Top” foi o alemão. Na corrida, Fernando Alonso mostrava que é mesmo “very nice prá xuxu”, ficando como única explicação para o que Schumacher fez os versos de Arnaldo Baptista e Rita Lee: “Eu juro que é melhor/ não ser um normal/ se eu posso pensar que Deus sou eu!”
Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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