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Falta humildade, falta terapia 02.04.06
Barrichello pouco à vontade em sua nova casa.
"Barrichello tinha uma atitude excessivamente crítica com o carro e talvez consigo mesmo".

A afirmação de Luca Montezemolo, presidente da Ferrari e da Fiat, explica muito bem a claudicante situação de Rubens Barrichello na equipe Honda e até mesmo em toda sua trajetória na Fórmula 1. Ao mesmo tempo em que não é problema enumerar exibições memoráveis dentro da pista (para ficar em três: Donington-93, Mônaco-97 e Silverstone-03), acumulam-se uma série de decepções como a de agora. Decepções que sempre se baseiam em frases exageradamente otimistas, proferidas sempre fora de hora.

Em outubro do ano passado, na tradicional coletiva que a Shell realiza com os pilotos da Ferrari na semana anterior ao GP do Brasil, perguntei ao brasileiro se Button não teria uma vantagem inicial na Honda pelo fato de estar há três temporadas na equipe, dois deles usando os pneus Bridgestone. Sua resposta veio impregnada de arrogância. "Depois de 200 corridas, se eu demorar mais do que cinco voltas para me adaptar com um pneu diferente, é porque tem alguma coisa errada".

Ferrari parece presa no meio do grid.
Confesso que fiquei espantado, especialmente tendo em mente os problemas que Juan Pablo Montoya tivera em seu primeiro semestre na McLaren, quando tomou um vareio do colega Kimi Räikkönen antes de se tornar competitivo. Não via nenhum demérito em Barrichello se permitir um tempo de adaptação, mas resolvi lhe dar crédito. Afinal, ali estava um piloto que estreou na Ferrari dando um tremendo calor em Michael Schumacher no GP da Austrália de 2000.

Na apresentação do RA106, o piloto prometeu mundos e fundos a quem quisesse ouvir. "Nosso objetivo a cada corrida é vencer. E quem vence corridas, pode se tornar campeão. Vim para Honda para descobrir se posso ser campeão e tem um pressentimento que os próximos anos trarão muito sucesso". Palavras ao vento. A temporada começou, a performance não veio e começaram as desculpas. "O volante tem botões demais. Os pneus são muito diferentes. Não me acostumei ainda com o freio".

Está certo que um piloto com sua experiência realmente deveria se adaptar rapidamente a uma situação adversa, mas dou um desconto a Rubens: a introdução do motor V8 gerou algumas mudanças no estilo de pilotagem. Ter de se adaptar a estas mudanças em um equipamento desconhecido o coloca em desvantagem em relação a quem permaneceu na mesma equipe. Até aí, normal.

O que irrita são as falsas expectativas que ele cria para si mesmo, a atitude excessivamente crítica citada por Montezemolo. Que existe há muito tempo. Dez anos atrás, na cobertura do GP do Brasil, perguntei a Rubens porque a mudança de comportamento em relação ao ano anterior (para lembrar: em 95, Barrichello apareceu em Interlagos com um capacete homenageando Ayrton Senna e sua atuação foi um desastre. Em 96, mais calmo, largou na primeira fila com uma Jordan e andou bem boa parte da prova).

"Descobri que meu maior inimigo não era o motor que quebrava, mas eu mesmo. Na pré-temporada, trabalhei muito para que minha paz de espírito reinasse novamente. Antes, o motor quebrava e eu saía chutando tudo. Hoje, busco a paz interior em meio aos problemas".

Pelo jeito, uma década depois, ainda não a encontrou. Faltou terapia?





Alonso jantando Button, com extrema classe.
A Ferrari, que começou o ano toda pimpona, ocupando a primeira fila do grid de largada no Bahrein, vai correr com uma nova versão do 248 F1 em Ímola: nova evolução do motor, novo pacote aerodinâmico, suspensão revisada. Esta acelerada no processo de desenvolvimento do carro, somada aos erros de seus pilotos em Melbourne (o de Massa na classificação e do Schumacher na corrida, ambos típicos de "overdriving", da frustração de um piloto que quer tirar mais do equipamento do que ele pode dar), mostra que o pacote da equipe é bem menos promissor do que se anunciava. Certamente, o ponto mais fraco é o pneu Bridgestone, mas o desempenho relativamente consistente da Toyota de Ralf e da Williams de Webber na Austrália indicam que as fraquezas da borracha japonesa diminuíram para o ano passado. Ainda falta muito, porém, para pensar que uma destas três equipes possa brigar pelo título. Vai ser só Alonso versus Räikkönen, parte 2? Parece que sim.





Falando no espanhol: 24 anos e meio de idade e dez vitórias. Seriam mesmo eternos os recordes de Schumacher na Fórmula 1?

Um abraço e até a próxima, Luis Fernando Ramos
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