Sessão Colunas
Escreva pra gente
Friends
17.08.2011
Fangio begins
Top Five para o Red Five II
Comente
10.05.11
Nossos leitores comentam o GP da Turquia
Nossos leitores comentam o GP da Austrália
Opiniões e Dúvidas dos Leitores
16.08.11
Cartas - Segunda quinzena de Agosto
Cartas - Primeira quinzena de Agosto
Pergunte ao GPTotal
Julho
Um maluco, dois tristes
Sobre tamanhos e ultrapassagens
mais
29.07.11 - Carlos Chiesa
O Eclipse
E o toureiro não apareceu
21.09.09 - Ernesto Rodrigues
O parasita fanfarrão
Rubens, o relativo
mais
12.03.06
Confira a classificação
12.03.06
Pilotos e Equipes
mais
Home » Colunas » Luis Fernando Ramos » 06.02.15
Aumente o tamanho das letras:
12 | 16 | 20
Visita ao Cemitério 06.02.15

O buraco, na freada para a curva Castrol.
Os olhos miram aquele enorme buraco no meio da neve que cobre o asfalto. E ficam irrigados de lágrimas. Na mente, imagens dos carros freando forte para a curva cega, em segunda marcha, em frente às arquibancadas repletas de gente. Cansei de ver esta imagem em seis GPs da Áustria em que compareci. Entre 1998 e 2003, estive pelo menos em um dos três dias de atividade da corrida in loco. E, por ter sido a primeira prova que cobri fora do Brasil, o circuito sempre teve um significado especial para mim.

Österreichring, nome de batismo da pista, fica na encosta de um dos inúmeros morros de linda cor verde no estado da Estíria. E tem um charme pastoril difícil de encontrar nas pistas que fazem o atual calendário da F-1. A única exceção seria Nürburgring, mas não dá para comparar a descontração do caipira austríaco com o pragmatismo de seu similar alemão – vamos dizer que um está mais para Jeca Tatu, enquanto o outro inclina para o lado do cowboy americano.

Helga curte a paz de um circuito sem carros.
Quando não há corridas, a grama em volta do asfalto é tomada pelas vacas que se esbaldam de ruminar e sentir, sem pressa, o tempo se arrastando. Como cada camponês local só tem cinco ou seis animais (ao contrário dos latifúndios brasileiros que chegam a contar com 10 mil cabeças ou mais), cada uma tem seu nome. Enquanto a Vroni descansa na curva Jochen Rindt, a Helga pasta tranqüila na subida para a Remus. Como diria um famoso ex-ministro patropi: “Vaca também é humano”.

E, quando tinha corridas, o bucolismo da região era quebrado pela trupe maluca de fãs e membros do circo da Fórmula 1. Não havia um choque de culturas, mas uma surpreendente simbiose. Pilotos alugavam casas de madeira no pé de um vale para descansar do trabalho duro na pista. Jornalistas se ajeitavam em pensões comandada por avós e se deliciavam ao beber leite recém-ordenhado com seu café fresquinho, tudo feito com muito carinho pela Oma.

Mas não restou mais nada. Ou quase nada. Passei lá na semana passada, voltando de umas merecidas férias sobre um par de esquis, e pude constatar isso. A maior parte das arquibancadas e boxes foram demolidos, a reta principal é interrompida por um buraco gigantesco, o busto em homenagem a Rindt está coberto por tapumes. Sobraram as placas indicativas, parte da pista e, claro, as vacas. Mesmo o Hotel Enzigerhof, situado no alto do morro e com uma visão privilegiadíssima de todo o circuito, está fechado, com a cozinha coberta de pó e teias de aranha. Deve ter falido.

O Grande Prêmio da Áustria saiu do calendário da F-1 no final de 2003 por um motivo clássico: o país não quis (ou não pôde) pagar a Bernie Ecclestone as mesmas somas vultuosas que outros governos, como da Turquia, do Bahrein e da China, lhe ofereciam. O dono da Red Bull, Dietrich Mateschitz, apresentou então um projeto que transformaria a pista em um grande centro de entretenimento, esportes a motor e aviação (há um campo aéreo em frente à pista, do outro lado da estrada). Seriam construídos novos boxes e arquibancadas, um hotel cinco estrelas, áreas para shows e o traçado sofreria pequenas alterações, aproveitando inclusive parte do circuito usado nos anos 70 e esquecido na versão Hermann Tilke dos anos 90.

Wurz testa pela Sauber em A1 Ring, em 1996.
Mas o governo da Estíria se mostrou moroso na luta jurídica contra um pequeno grupo de ambientalistas, que exigia relatórios mais detalhados sobre o impacto ambiental do mega-projeto (não esqueçamos a Vroni, a Helga e suas amigas). Mateschitz é um homem de negócios e, diante da perspectiva de ver seu sonho parado nos tribunais, mandou tudo às favas e foi investir seu farto dinheiro em outro lugar. Comprou a Jaguar, depois a Minardi e parece muito satisfeito com o retorno que está tendo.

A reta dos boxes, sem boxes nem arquibancadas.
Só que, neste entrevero, as arquibancadas, os boxes e a reta principal já haviam sido destruídos. Restou ao Estado da Estíria um esqueleto de pista, que não serve para nada e ainda ocupa o espaço do pasto das vacas. O futuro? Incerto. Dizem que Mateschitz tem tanto dinheiro que ainda pensa em botar seu projeto para funcionar, pressionando o governo e transformando o lugar em um Red Bull Ring. Mas ainda são apenas rumores.

Tomara que eles se tornem realidade. Foi doloroso ver um lugar de tão boas lembranças entregue às moscas que voam em torno das fezes das vacas. Mas, depois pensei melhor, o bicho homem é mesmo besta de se apegar a lugares. Eles mudam, do mesmo modo que as pessoas mudam. O colégio que eu estudei em São Paulo é hoje uma agência bancária. O sagrado estádio de Wembley, maior templo do futebol, virou um Shopping Center. Fica a nostalgia, que pode e deve ser um sentimento bom, nunca uma dor.



Um abraço e até a próxima!

Luis Fernando Ramos
 Leia mais colunas de LuisFernando | Envie a coluna para um amigo | Voltar
anuncie | quem somos Apoio: Interactive Fan  |  Red Cube Tecnologia e Comunicação