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| » » » 06.02.06 |
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| Uma história de trapalhadas |
06.02.06 |
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| A largada em Brands Hatch, segundos antes da confusão. |
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Nunca escondi de ninguém minha decepção com a maioria (quase a totalidade) das decisões tomadas nos últimos anos pela atual administração da FIA. Na Fórmula 1, chegamos à situação absurda de iniciar a temporada 2006 com o sétimo sistema de qualifying diferente em cinco anos (!), sem falar nas incontáveis mudanças de regras no que diz respeito à troca de pneus e ao uso dos motores. Ainda assim, a categoria debate há tempos o que fazer para melhorar o show.
No Mundial de Rally, a situação está pior ainda. A entidade reguladora tomou uma série de atitudes polêmicas nos últimos anos: proibiu o uso de três carros por equipe, restringiu o currículo do segundo piloto de cada equipe e introduziu uma regra que permite a um piloto que não termine uma Especial continuar na competição. O resultado: quatro montadoras (Citroën, Peugeot, Mitsubishi e Skoda) perderam o interesse diante de um formato confuso retiraram suas equipes do campeonato no final de 2005.
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| Um homem resumido em uma imagem: Hunt com cigarro, cerveja, mulher e carro de corrida |
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Para completar, a FIA criou em 2005 o Mundial de Carros de Turismo (WTCC), que fez uma primeira temporada bem abaixo das expectativas e culminou com o fim da equipe oficial de uma das mais tradicionais montadoras da modalidade, a Alfa Romeo. Claros sinais da falta de competência de uma administração, que acaba se perpetuando no poder graças a um sistema antigo e ultrapassado no organograma da entidade. Algo bem parecido com o que ocorre na maioria dos clubes de futebol do Brasil.
O que me conforta é saber que a FIA possui uma tradição histórica de trapalhadas nas suas decisões desde a época em que ainda era denominada FISA. Um dos exemplos claros disso é o que aconteceu na temporada de 1976, quando regras mal-empregadas atrapalharam o interessante duelo entre James Hunt e Niki Lauda e, de forma indireta, garantindo o primeiro e único título do piloto inglês.
Tudo começou após o GP da Espanha, quarta etapa da temporada, disputado no circuito de Jarama. A prova foi vencida por Hunt, mas o piloto acabou desclassificado já que o eixo traseiro de sua McLaren estava 18 milímetros além do previsto pelo regulamento. A vitória nesta e nas duas corridas seguintes ficaram com Niki Lauda, com o austríaco abrindo uma vantagem praticamente inalcançável rumo ao bicampeonato.
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| As chamas consomem a Ferrari de Lauda durante seu resgate em Nürburgring. |
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Eis que a FISA entra em ação. A McLaren pagou uma multa de 3 mil dólares (OK, na época nem era tão pouco dinheiro assim) e a entidade devolveu a vitória a James Hunt. Enzo Ferrari, compreensivelmente, ficou uma vara e sua equipe não participou do GP da Áustria em protesto ao que o Comendador chamou de “vitória comprada” – embora a ausência da escuderia em Zeltweg fosse fortemente motivada após o acidente quase fatal que Niki Lauda sofrera duas semanas antes em Nürburgring.
Mas eu estou avançando demais no tempo. O ápice da confusão ocorreria antes, em julho, mais precisamente no GP da Inglaterra. Mesmo recuperando os pontos de Jarama, Hunt tinha ainda 26 pontos para descontar e a vitória em casa era fundamental para suas pretensões na disputa com Lauda. A mídia inglesa, lamentável como de costume, bombardeou seu público com um pretenso “duelo do ódio”, ignorando a conhecida proximidade dos dois pilotos fora das pistas. O fato de ambos dividirem a primeira fila só serviu para aumentar o frenesi nas arquibancadas.
A corrida não poderia começar mais confusa. Logo na primeira curva de Brands Hatch, a Paddock Hill (para quem não sabe, uma curva de alta à direita, cega e feita em descida), as Ferrari de Lauda e Regazzoni se tocam. O austríaco passa ileso, mas o suíço roda e é colhido justamente por Hunt e também pela Ligier de Jacques Laffite. Os três abandonam na hora. Inesperadamente, a direção de prova interrompe a corrida.
Favorecimento ao piloto de casa? Nada disso. A relargada é anunciada sem a presença dos três acidentados, já que nenhum deles havia completado a primeira volta – uma decisão baseada no regulamento. Mas a tradicional falta de bom senso da linha editorial da imprensa inglesa renderia dividendos. O pretenso “ódio” entre Hunt e Lauda logo contaminou o povo das arquibancadas. As vaias iniciais viraram um coro de 80 mil vozes. A torcida passou a bater palmas em uníssono, exigindo o óbvio: ou o herói local era aceito ou haveria muita confusão.
Após uma hora de discussão, os comissários se renderam ao temor de ver os “hooligans” invadirem a pista e readmitiram Hunt, Regazzoni e Laffite – já com seus carros consertados – na corrida. Na relargada, Lauda permaneceu na ponta, com o inglês em seus calcanhares. Parecia não haver jeito de ultrapassar o austríaco e a torcida já se demonstrava impaciente quando Hunt fez, na 46ª volta, uma das melhores manobras de sua vida, ganhando a liderança na freada da curva “Druids” e disparando rumo à vitória.
Durante 68 dias, o piloto da McLaren foi o primeiro inglês a vencer em casa desde o triunfo de Peter Collins em 1958. Neste meio tempo, Lauda quase morrera em Nürburgring e renascera ao voltar a correr em Monza, enquanto Hunt somara duas vitórias e alguns pontos importantes na sua recuperação no campeonato. Ciente que a emoção nas etapas finais estava garantida e do ridículo que promovera, a FISA retirou a vitória de Hunt na Inglaterra, proclamando Lauda como vencedor. A última corrida do ano foi no Japão e o final da história todos sabem: o austríaco desistiu após duas voltas em virtude da pouca visibilidade que a chuva permitia. Hunt ficou em terceiro e garantiu seu primeiro título. Para muitos, um título que custou a bagatela de 3 mil dólares aos cofres da McLaren. Com o consentimento da tradicionalmente confusa FIA.
Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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