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Há 50 anos 26.01.06

O pódio de 1956: Martins e Heins sorriem, enquanto Andreatta e Fornari cumprimentam Bertuol.
Cinco horas e vinte minutos. Esta é a diferença no tempo entre os vencedores da primeira e da mais recente edição das Mil Milhas Brasileiras. Em 1956, a dupla Catharino Andreatta e Breno Fornari cumpriu a distância em 16 horas, 16 minutos e 2 segundos. No último fim de semana, o quarteto Nelson Piquet/Nelsinho Piquet/Hélio Castroneves/Christophe Bouchout o fez em 10h36min38s659. Neste período, tudo mudou: o traçado de Interlagos, o apelo ao público e, principalmente, o perfil da prova.

Há 50 anos, a prova organizada pelo “Barão” Wilson Fittipaldi e por Eloy Gugliano permitia apenas a participação de veículos que possuíssem peças vitais de fabricação nacional, tais como partes do motor, de transmissão, equipamento elétrico, suspensão e sistemas de freios. Carros GT ou esporte-protótipo não eram aceitos. A idéia era celebrar a criatividade de preparadores e a perícia de pilotos, além de fomentar a pesquisa de uma indústria automobilística brasileira que ainda engatinhava.

Pois a 50ª edição das Mil Milhas elitizou de vez o evento. A prova, que deve fazer parte do calendário oficial da FIA GT no ano que vem, teve sua taxa de inscrição aumentada, o número de participantes diminuído e contou com grandes nomes e com carros de ponta do automobilismo mundial, exatamente os GT e protótipos proibidos nas primeiras corridas.

Os tempos são outros. Enquanto uma parte do público vibrou com a possibilidade de ver de perto máquinas como o Aston Martin DB9R e as Ferraris 550 e 360 Modena, outra parte lamentou o grid com apenas 30 participantes (há 50 anos, foram 31, e a prova já chegou a contar com mais de 60 carros). Não dá para agradar todo mundo, mas dá para se chegar a um consenso.

Vale frisar que a corrida deste ano foi a primeira com Antonio Hermann como promotor. É preciso louvar a qualidade do grid que ele conseguiu juntar. Mas é preciso também criticar o descaso com o público que foi a Interlagos. Os que compraram ingressos antecipados, pagaram R$ 65 e ficaram uma arara ao ver que o preço baixou para R$ 20, quando a organização percebeu que as arquibancadas ficariam vazias. Eles até estão devolvendo a diferença para quem conseguiu provar que pagou mais caro, mas o contratempo poderia ter sido evitado. Isto sem falar nos preços abusivos praticados por quem ganhou permissão para vender comes e bebes dentro do autódromo. Fica a lição para o ano que vem: uma prova com preços populares, mas com arquibancadas cheias – como a DTM alemã faz, por exemplo. E que a prefeitura seja convencida da importância do evento, para que sejam armados os mesmos esquemas de trânsito e bolsões de estacionamento da Fórmula 1. Todos só tem a ganhar com isso.



Christian Heins se prepara para assumir o lugar de Eugênio Martins no meio da noite paulistana.
Na primeira edição, cerca de 30 mil pessoas lotaram o autódromo. A largada, no estilo “Le Mans” foi dada às 19 horas do dia 24 de novembro de 1956 e o vencedor seria a primeira dupla a completar 201 voltas nos oito quilômetros de Interlagos. Dentre os participantes, uma figura histórica: Primo Fioresi, de 79 anos, que 23 verões antes havia participado da primeira corrida no Circuito da Gávea. Mas sua alegria em participar do evento durou apenas 10 voltas: o pára-brisa do seu Borgward foi totalmente quebrado pelas pedras soltas no traçado e ele desistiu.

Quem disparou na frente após a largada foi Chico Landi. Imprimindo um ritmo alucinante, o piloto foi baixando o tempo de volta até marcar 4min16s, a melhor passagem da prova. Mas sua carreteira preta de número 70 não agüentou o esforço e o motor fundiu após 15 voltas. A liderança passou então para o carro número 2, dos gaúchos Andreatta e Fornari. A dupla figurava entre as favoritas e já possuía importantes triunfos em eventos de resistência. Em 1949, haviam faturado a prestigiada Prova Washington Luís, no percurso São Paulo-São José do Rio Preto-Lins-Sorocaba-São Paulo.

Andreatta foi quem comandou o ritmo, pilotando das 19 horas até a meia-noite e reassumindo o volante das 3 às 9 horas da manhã, mas quem teve o privilégio de receber a bandeira quadriculada foi Breno Fornari. Em segundo lugar, quatro voltas atrás, uma surpresa: com um Volkswagen Sedan equipado com motor Porsche de 1,5 litro e três vezes menos potente que as carreteiras, a dupla paulista formada por Eugênio Martins e Christian Heins derrotou adversários bem mais cotados. Heins, um dos maiores talentos brasileiros, perderia a vida em um acidente nas 24 Horas de Le Mans de 1963, quando liderava sua categoria e era o 3° colocado na classificação geral. Martins nos deixou em 1° de março do ano passado.

Uma Interlagos cheia, há 50 anos. Todas as fotos foram gentilmente cedidas pelo acervo da família Martins.
Duas curiosidades a respeito da primeira edição das Mil Milhas: a terceira colocação ficou com a dupla gaúcha Aristides Bertuol/Valdir Rebeschini, que teve um pneu traseiro furado no meio da prova, ficando seu carro parado no miolo. Um Jeep saiu dos boxes levando uma roda de seis parafusos para substituição, mas os mecânicos esqueceram que, na última hora, haviam colocado um diferencial novo com rodas de cinco parafusos. Resultado: no final, entre idas e vindas do Jeep, a troca levou 40 minutos.

Mas divertida mesmo é a história da dupla paulista Godofredo Viana Filho/Pascoalino Bonacorsa. Os dois foram a Interlagos apenas para assistir à prova, mas não resistiram e alugaram o carro dos paranaenses Paulo Buso e José Ambrósio por 100 mil cruzeiros, num negócio feito em cima da hora. A seis horas do final da corrida, porém, o motor da carreteira Ford fundiu quando a dupla ocupava a terceira colocação. Eles iriam dar trabalho no final. Histórias típicas de uma época remota do automobilismo brasileiro.

Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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