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Falsas Impressões 14.10.05
O início da melhor primeira volta do ano

Não há dúvidas que a prova em Suzuka foi uma das mais emocionantes da história da categoria e, que eu me lembre, a melhor deste novo milênio. Confesso que desliguei a televisão na madrugada com a sensação de que era justamente o regulamento esdrúxulo o responsável por tantas emoções. Os melhores largando lá atrás, por uma combinação de uma regra besta e uma intempérie climática, deram um verdadeiro show de ultrapassagens, culminando em um dos melhores lances do ano.

Me refiro ao instante em que Fernando Alonso deixou Michael Schumacher para trás ao colocar sua Renault por fora na temida curva 130R. Antes disso, o alemão vinha defendendo sua posição com perfeição, mesmo com um equipamento claramente menos competitivo. Foi uma dessas manobras históricas e não é coincidência o fato de Schumacher também ter sido a vítima nas lindas ultrapassagens de Jacques Villeneuve (Estoril-1996) e Mika Hakkinen (Spa-2000). Para passar em lugares quase impossíveis, é preciso saber que o ultrapassado tem uma noção espacial e um controle do carro perfeitos. Menos bonita e muito mais perigosa foi a manobra de Alonso sobre Mark Webber, ocorrida em um lugar óbvio, próximo ao final da reta dos boxes. O novo campeão precisou mais de culhão do que perícia para ultrapassar um piloto completamente sem noção.

Uma vitória do melhor piloto de 2005 para ficar na história
O que dizer então da performance de Kimi Räikkönen? Um piloto que, mesmo largando lá do fundo e perdendo muito tempo na primeira metade da corrida atrás de carros mais lentos, jamais deixou de acreditar em suas chances de vitória e foi premiado ao assumir a liderança na última volta. Um desempenho que, compreensivelmente, se traduziu em uma comemoração efusiva do Buster keaton da Fórmula 1. O homem que nunca sorri e nem demonstra suas emoções levou até mesmo o chato profissional Ron Dennis às lágrimas.

Pois foi avaliando a corrida do finlandês que eu desisti de dar vivas às atuais regras da Fórmula 1 por proporcionar uma corrida sensacional como o GP do Japão. Pois, se largando lá atrás e perdendo o tempo que ele perdeu, ele fez o que fez, imagine só que foguete ele não tinha nas mãos. E se ele não tivesse perdido dez lugares no grid em Magny-Cours ou na Itália, será que Fernando Alonso pilotaria a maior parte do ano como uma velhinha que acabou de ganhar na loteria? Ou duelaria com o rival da McLaren com a faca entre os dentes, como fez com Schumacher em Suzuka?

"Ótima prova, Fernando!" "Já a sua..."
Pois é óbvio que o espanholzinho sabe pilotar com vontade, mas ao fazer a opção de correr a maior parte do campeonato com o regulamento no bolso do macacão, deixou que o finlandês fosse o único a mostrar garra, arrojo e vontade o ano todo. É por isso que sou da opinião que Alonso não merecia ser o campeão da Fórmula 1. E sei que tem muita gente lá dentro que pensa da mesma forma, embora o único que falou o que pensa foi Antonio Pizzonia, um cara tão íntegro que sempre fala o que pensa (embora isso, neste mundo besta do “politicamente correto”, não seja exatamente bom para sua carreira).

Mas o GP do Japão mostrou outro equívoco do regulamento, além do fato dele ter nos privado de uma bonita disputa entre Kimi e Alonso na briga pelo título. Como o treino classificatório ocorreu sob chuva, e a corrida em tempo seco, os pilotos puderam largar com um jogo de pneus novinho em folha (o que teria sido usado no sábado à tarde, caso a pista estivesse seca). Foi a primeira vez no ano em que isto aconteceu e a primeira volta da corrida foi uma das mais alucinantes já vistas.

Não fosse a decisão besta de obrigar a utilização do mesmo jogo em treinos e corridas, teríamos outros momentos como estes nas demais etapas do ano. Isto sem falar na proibição da troca durante a prova. Com os compostos mais duros que no passado, os pneus de 2005 permitem uma única volta “boa” antes deles “estragarem”, deixando o carro com menos aderência e mais imprevisível. Isto se traduz em falta de ultrapassagens, o que acarreta em corridas chatas, por vezes insuportáveis, como foi a decisão do título em Interlagos.

Em relação ao treino e à falsa impressão de que ele apimentou a corrida do Japão: grid embaralhados que geram grandes corridas existem desde o tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça. Vamos a um exemplo recente? No GP da Europa de 1999, quando todos os carros se classificavam ao mesmo tempo, a pista molhada foi secando nos minutos finais e gerou um resultado interessante, ainda que as duas McLaren (bichos-papões também naquele ano) tenham ficado em segundo e terceiro. A corrida começou com sol, mas depois a chuva veio, colocou o mundo de pernas pro ar, e foi embora. No final, a vitória ficou com Johnny Herbert com uma Stewart – a primeira e única na curta história da equipe. E ele havia largado em 14o lugar! Precisou de regras malucas para que isso acontecesse? Não, na época, os regulamentos técnico e desportivo da categoria eram os mesmo há anos.

Mas o pessoal da FIA parece que não aprende. Ano que vem, muda motor, muda treino e ainda mudará sabe-se lá o quê. Sem a menor continuidade nas regras, a F-1 se mostra cada vez mais perdida, assistindo a uma crescente queda de público (aliás, antes os dirigentes culpavam a hegemonia de Schumacher e da Ferrari por isso, mas este ano o argumento foi por terra) e não sabendo o que fazer para revertê-la.

Minha sugestão: achem um formato e se atenham a ele por pelo menos uns cinco anos. Se a F-1 quer virar a Nascar, com as estapafúrdias regras atuais que premiam o acaso, que vire. A Fórmula Truck no Brasil é emocionante e um sucesso absoluto de público, pois o seu regulamento prevê, entre outras coisas, que cada prova seja obrigatoriamente neutralizada na volta 12 com a entrada do Safety-Car. Os seis primeiros ganham alguns pontos e a prova continua depois, com a relargada e pontos integrais após a bandeirada final. É estranho, injusto do ponto de vista técnico, mas faz o show funcionar e é isso o que a torcida da categoria quer. Com a Nascar, a mesma coisa.

Após a classificação, este trio riu à toa com o regulamento.
E eu pergunto: é isso o que você quer para a F-1? Acho que não, pois o diferencial dela sempre foi ser uma corrida de carros (e, num dia bom, de pilotos também), não um campeonato de acasos, que pode ser resolvido a favor de fulano porque a válvula do motor do beltrano abriu o bico num treino. E que nos deu um campeão do mundo que pilota apenas para subir ao pódio, não para vencer corridas, embora tenha cacife para lutar por vitórias sempre. No fundo, a impressão que o GP do Japão me deu, vendo a briga ferrenha entre Alonso, Kimi e Schumacher, é que durante o resto do ano eu vi apenas um campeonato pela metade, uma coisa meio besta, estragada por decisões unilaterais, equivocadas e/ou suspeitas de pessoas de idoneidade questionável. Já não basta o que fizeram com o Brasileirão de Futebol?

Abraços e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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