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| » » » 29.08.05 |
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| O que melhorar nas transmissões |
29.08.05 |
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| Galvão, de braço quebrado, e Reginaldo. |
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Em um e-mail com tom de desabafo enviado na última semana, o leitor Cristiano, de Florianópolis, protestou contra a falta de qualidade das transmissões de automobilismo na televisão brasileira. É um tema que sempre me interessou e acredito que vale a pena se aprofundar nele. Ao citar o exemplo da emissora alemã RTL, que inicia a transmissão da Fórmula 1 sessenta minutos antes da largada, Cristiano escancarou o completo descaso que a emissora detentora dos direitos da categoria tem com seus espectadores.
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| Schumacher, atacando as zebras de Monza durante os testes da semana passada.. |
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Claro, a Rede Globo pagou um bom dinheiro para a FOM e pode exercer sua exclusividade na transmissão da Fórmula 1 do jeito que bem entender. Mas comparando sua cobertura com a de qualquer emissora européia, fica claro a chance que a emissora brasileira está desperdiçando de explorar ao máximo um dos eventos de maior audiência no mundo todo, podendo fazer um jornalismo de primeira qualidade. Ao invés disso, o espectador recebe doses mínimas, quase insuficientes, de informação. E fica refém das decisões da emissora, que já chegou a não transmitir treino classificatório para exibir o importantíssimo e construtivo “Caldeirão do Huck”.
Como se sabe, as redes dos grandes países europeus oferecem uma transmissão extensiva da Fórmula 1. Em alguns deles, como na Alemanha e na Áustria, até os treinos livres de sexta-feira passam ao vivo. No sábado, a transmissão do treino classificatório também começa uma hora antes do início das atividades na pista, trazendo um resumo das sessões livres praticadas pela manhã. Após a definição do grid, a coletiva com os três primeiros colocados é exibida ao vivo e precede uma análise final dos comentaristas.
No domingo, a teve alemã já começa a aquecer o espectador com meia hora de transmissão pela manhã, mostrando a parada dos pilotos (quando eles sobem naqueles caminhões e ficam acenando ao público), acompanhado de reportagens e entrevistas. A hora anterior à largada é preenchida com mais reportagens especiais e com repórteres registrando toda a movimentação do grid, recolhendo depoimentos de pilotos e chefes-de-equipes, e também das inúmeras celebridades que pipocam do nada nestas horas. Após a corrida e a cerimônia do pódio, é mostrada a entrevista dos três primeiros colocados. Na Alemanha, Inglaterra e França, a transmissão ainda segue por mais duas horas com a análise dos momentos mais importantes da corrida e, claro, diversas entrevistas. Na RTL, por exemplo, Michael e Ralf Schumacher, Nick Heidfeld, Norbert Haug e Mario Theissen têm presença cativa nelas. Mas mesmo os pilotos de outros países, que desempenharam um papel importante naquela etapa, são ouvidos.
Comparando, a RTL alemã (que, como a Globo, detém a exclusividade de transmissão para seu país) transmite por Grande Prêmio cerca de dez horas ao vivo, contra pouco mais de duas e meia da emissora brasileira (quando os horários não coincidem com os jogos do onze de Parreira, claro). E, ano que vem, com a Copa do Mundo sendo realizada na Europa, no mês mais movimentado da Fórmula 1, imaginem quantas corridas serão simultâneas a jogos do mundial.
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| Adam Carroll testou para a Bar. |
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Outro ponto falho da Globo, no meu ponto de vista, é em relação à utilização dos profissionais especializados. Em nenhum outro país, há um narrador que faça Fórmula 1 e futebol. Ou o sujeito se concentra em um assunto, ou em outro. Mas a Globo vive mudando o narrador dos Grandes Prêmios, o que tira uma identificação do espectador com a voz que narra os acontecimentos na telinha. Mais: o fato de narrador e comentarista não irem a todos os GPs, realizando diversos deles em cabines dos estúdios da Globo no Brasil, é quase uma traição. Alguns espectadores vivem reclamando das informações desencontradas dadas às vezes por Galvão e Reginaldo Leme, mas é preciso dar um desconto a eles: se mal vão aos circuitos, é claro que fica quase impossível apurar fatos concretos.
Mas há sinais de melhora. A entrada de Luciano Burti incrementou um pouco o nível de informações técnicas dadas nas transmissões. Tudo bem que faria mais sentido e seria mais interessante pegar um dos três brasileiros que trabalham atualmente como pilotos de testes (Zonta, Bernoldi ou Pizzonia) para fazer este trabalho. Alexander Wurz, por exemplo, participa de vez em quando nas tevês alemã e austríaca, enriquecendo em 300% a já boa transmissão com sua visão de absoluto insider.
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| Laffite (à direita) comenta para a TV francesa. |
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A presença de ex-pilotos, com trânsito livre dentro do paddock, é outro ponto alto das tevês européias. Christian Danner e Niki Lauda (RTL), Marc Surer (Premiere), Jacques Laffite (TF1) e Martin Brundle (ITV) são só alguns nomes que, por suas trajetórias mais ou menos bem-sucedidas na categoria, conseguem facilidades para entrevistar quem quer que seja lá dentro, inclusive Bernie Ecclestone. Não seria genial se a Globo mandasse Nelson Piquet para todas as corridas? Imagine só quanta informação quente ele não traria ao espectador?
Mas surgiu pelo menos uma “mesa-redonda” de automobilismo no Brasil, o “Linha de Chegada” no SporTV. Acho que muita coisa ainda pode ser aprimorada no programa, mas sua existência em si já é um bom começo. Algumas edições, como a que reuniu ex-pilotos brasileiros dos anos 60 (Bird Clemente, Wilsinho Fittipaldi, etc.), foram excelentes e mostraram o potencial de crescimento que existe. Só não entendo porque a Globo não aproveita o fato de ter sempre um repórter nas corridas para que este realize entrevistas e reportagens especiais para o programa do Reginaldo Leme, ao invés de se concentrar apenas nas matérias de um minuto do “Jornal Nacional” ou do “Globo Esporte”. Um profissional competente como Pedro Bassan deveria ser melhor aproveitado.
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| Nico Rosberg também testou em Monza. |
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Mas se você, como o Cristiano de Florianópolis, também está chateado com o nível da transmissão da F-1 na Globo, ou da IRL na Bandeirantes, ou qualquer que seja a categoria, não perca seu tempo escrevendo cartas de reclamação à emissora. Procure diretamente o departamento de marketing das empresas que compraram o pacote de anúncio destas categorias. Mostre a eles como seus produtos aparecem pouco, em relação aos anunciantes das mesmas categorias em outros países do planeta. Aposto que eles não pagam pouco e, mais do que você, leitor, quem mais sai perdendo com a falta de qualidade nas transmissões são eles.
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| Massa, de volta à Ferrari. |
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Se melhorarmos a transmissão do automobilismo no Brasil, todos sairão ganhando. As emissoras, com um trabalho de qualidade e muitas horas de transmissão, atrairão mais anunciantes. Estes terão seus produtos associados a um trabalho jornalístico de qualidade sobre um esporte de alta performance e extremamente popular no País. E o telespectador poderá saborear informações mais completadas e detalhadas, o que inevitavelmente atrairia novos fãs e daria mais audiência às emissoras. É um círculo vicioso com um potencial de sucesso enorme, como as tevês na Europa sabem muito bem. Vale a pena aplicar a mesma receita por aqui!
Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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