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Direto de Hockenheim 24.07.05
“Pu-pu-píííí”, apita a cancela eletrônica na entrada do Paddock de Hockenheim quando aproximo minha credencial do sensor. Em um pequeno monitor, surge minha foto e meu nome, para que os fiscais confiram a identidade do portador da mesma. A luz verde se acende e as portas do maravilhoso mundo da Fórmula 1 se abrem para este humilde servo dos senhores Correa e Pandini.
Não demorou muito para que eu constatasse que a incrível capacidade da categoria em se manter fechada dentro de si mesma permanece. Pilotos e chefes disponíveis só estão disponíveis à imprensa por cerca de dez minutos, em horário marcado. Uma exclusiva? Nem pensar. Com muita insistência e um pouquinho de sorte, você consegue agendar algo para daqui a três ou quatro corridas. “Mas não mais que dez minutos, por favor!” Será que as assessoras de imprensa acreditam mesmo que é possível obter uma matéria decente neste mínimo de tempo?

Na entrada dos suntuosos motorhomes, uma placa está lá para lembrar da sua insignificância: “For team members and guests only”. Como não sou nem um nem outro, resta procurar almoço no bandeijão da Ferrari, uma das duas únicas equipes a oferecerem boca-livre pro pessoal da imprensa.

A outra é a novata Red Bull, que revolucionou a mesmice do paddock a partir do GP de San Marino e é a preferida de dez entre dez membros da “família F-1” (sim, incluindo gente das outras equipes). “Entre, relaxe e aproveite”, convida a plaquinha na porta.

E não é difícil. Além de oferecer comida de excelente qualidade, o motorhome dispõe de sofás aconchegantes e está sempre abarrotado de lindas modelos em trajes provocantes. Faltou a recomendação “esconda a aliança” na tal da plaquinha.

Além do mais, a equipe distribui um jornal diário, impresso lá dentro. O “Red Bulletin” é ponteado por uma visão bem-humorada do que acontece no Paddock, sem se prender à irritante formalidade e às frases feitas das outras equipes, e sem hesitar de tirar sarro até mesmo do dono do circo, o Mister E.

(Parênteses. Numa conversa com colegas brasileiros, pronunciei a palavra “Bernie” exatamente no segundo em que o Diminuto passava às minhas costas. Enquanto meus interlocutores iniciaram um silêncio sepulcral, eu já imaginava minha tão batalhada credencial sendo recolhida no ato pelo próprio Deus, ao ouvir seu sagrado nome dito em vão. Nada. Ele sorriu pra mim e já foi direto conversar com Frank Williams. Ainda bem que ainda faltam muitas assinaturas para recolher...)

É reconfortante saber que existe uma estratégia de marketing indo na contramão do hermetismo habitual da Fórmula 1. Além de pontuar em simpatia, a equipe de Dietrich Mateschitz está mostrando aos colegas que o caminho correto é o da abertura. Aos poucos, a FIA e a FOM estão entendendo o recado e organizando sessões de autógrafos dos pilotos com o público. Em Hockenheim, até Michael Schumacher e Fernando Alonso participaram. Tudo ainda de forma caótica e é mais provável que o torcedor ganhe uma cotovelada involuntária do que uma assinatura. Mas já é um bom começo.





O importantíssimo treino-livre de sexta-feira está pela sua metade. Algumas fileiras à minha frente na sala de imprensa, dois jornalistas fumam nervosamente com os olhos vidrados nas telas de seus respectivos laptops. Um tenta ganhar um jogo de Paciência enquanto o outro desmonta as bombas do Campo Minado.

O descaso com o que ocorre na pista decorre do cansaço da mais longa das temporadas. O que está acabando com o tesão da turma não é exatamente o número de corridas, mas as diversas “dobradinhas”, com duas corridas realizadas em fins-de-semana seguidos.

Também acredito que a estafa advém do hermetismo já citado. O cotidiano desta gente se resume a aeroportos, carros alugados, hotéis e autódromos. Talvez falte um pouco de viver a vida que rodeia a Fórmula 1, trombar no trem de subúrbio com uma gangue de adolescentes bêbados ostentando camisetas e bonés de Michael Schumacher ou conversar sobre vida e filosofia com a simpática gente da cidade de Heidelberg. No fundo, muita gente da imprensa repete o erro do pessoal das equipes em achar que não há vida fora do circo.





O mais divertido do resultado do GP da Alemanha foi ver as diferentes reações entre o pessoal da McLaren e da Renault. Após seu terceiro abandono por um problema relacionado ao motor em menos de três meses, Kimi Räikkönen chegou ao motorhome de sua equipe ainda de capacete e foi embora pouco depois, muito antes da bandeirada final, pela porta dos fundos. Norbert Haug chegou a me empurrar quando aproximei meu gravador para uma entrevista, antes de conceder duas ou três respostas lacônicas à tevê alemã. Perder com classe não existe na Fórmula 1.

E nem ganhar. Flavio Briatore fez questão de mostrar o quanto se diverte com os tropeços da equipe rival. “Não tenho pena da McLaren. Ter pena dos rivais não faz parte do negócio. Se eles quebram, o problema é deles, não meu”, falou rindo aos repórteres. Alonso também tripudiou. “Não se ganha prêmios por ser o mais rápido só até a metade da corrida”.

Pode escrever: o espanhol encerra a briga pelo título em Interlagos. Se eu fosse a organização do GP do Brasil, já escalava o Emerson Fittipaldi para entregar o troféu.





O Edu pediu que eu contasse aos leitores como era o banheiro da sala de imprensa em Hockenheim. Um mísero container, dividido ao meio para homens e mulheres. Na ala masculina, com apenas uma privada e quatro bicos de papagaio espremidos em pouco mais de um metro quadrado, esvaziar a bexiga virava um exercício de perícia e contorcionismo. Ridículo, especialmente se comparado com as enormes facilidades encontradas em Interlagos. Da próxima vez que eu ouvir um alemão reclamando da organização do GP do Brasil, farei xixi na perna dele.

Um abraço e até a próxima,

Luis Fernando Ramos
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