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| » » » 22.06.05 |
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| Política e esporte |
22.06.05 |
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Após a noite de 2 de janeiro de 1945, Nuremberg era apenas um remendo de cidade. O severo bombardeio da força aérea dos Aliados destruiu, completa ou parcialmente, 91% de seus prédios. Encerrado o conflito, iniciou-se a reconstrução. Havia, porém, um dilema: o que fazer com o Reichsparteitagsgelände.
Este palavrão era o nome de uma área gigantesca idealizada por Adolf Hitler e projetada por seu arquiteto pessoal Albert Speer para abrigar as festas do Partido Nazista. Composto de diversas construções, a mais importante dela era o Campo dos Zepelins, onde milhares de soldados se reuniam no centro, enquanto o povo assistia das arquibancadas aos inflamados discursos do ditador, numa celebração de sua perversa filosofia.
A solução encontrada pela cidade não poderia ser mais feliz. O prédio do congresso foi reformado e se transformou em um enorme museu chamado Centro de Documentação, onde a trajetória sanguinária do nazismo é explicada com uma visão crítica e realista, para que as novas gerações alemãs aprendam as lições do passado, ao invés de tomar o caminho simplista de esquecê-lo.
O Estádio Municipal se transformou no Franken-Stadion, sede do time da cidade e recentemente reformado para abrigar jogos da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de 2006. Já o Campo dos Zepelins, após a demolição dos ícones nazistas que adornavam a tribuna principal, se transformou no circuito de Norisring. A primeira corrida foi de motocicletas e ocorreu em 1947.
Entre 1970 e 1987, a pista recebeu corridas de esporte-protótipos. Numa delas, em 1971, ocorreu o trágico acidente que custou a vida do veloz mexicano Pedro Rodriguez. A partir de 1988, os carros de turismo passaram a dar o tom. Hoje, a corrida de Norisring é a mais popular da DTM, uma espécie de GP de Mônaco da categoria, atraindo incríveis 120 mil torcedores no domingo.
A região também abriga um clube de remo, um de atletismo e é adorado pelos ciclistas locais. Também foi contruído lá um enorme centro de exposições, o segundo maior do país. Ao invés de carregar o peso do passado, o Reichsparteitagsgelände se reciclou e virou uma região perfeita para a celebração de diversos esportes, para celebrar a vida. Visitá-lo como eu tive a oportunidade de fazer é obrigação para quem passar por esta região da Alemanha.
Após a tarde de 19 de junho de 2005, a Fórmula 1 é apenas um remendo de categoria. Sua imagem foi quase completamente destruída após uma grotesca farsa encenada diante de milhões de torcedores no mundo todo. A origem da corrida de apenas seis carros foi de cunho desportivo, mas acabou se transformando num ridículo cabo-de-guerra político.
Tudo bem, a Michelin foi incapaz de trazer um composto de pneus decente ao circuito, reconheceu imediatamente o erro e tentou-se achar uma solução. Do ponto de vista esportivo, as idéias de se correr com uma chicane e/ou tornar a corrida uma etapa não válida para o Mundial são ridículas e a FIA fez muito bem em não aceitá-las. É como se a Alemanha aparecesse com um time de futebol feminino para disputar a próxima Copa e exigisse que todas as outras nações fizessem o mesmo.
Mas ficou claro nos debates ocorridos a portas fechadas que Max Mosley queria aproveitar a situação para dar mais força ao seu desejo de ter no futuro próximo apenas um fornecedor de pneus para a categoria. Em nome de seu interesse pessoal, “Mad Max” colocou fogo em sua própria casa.
Do ponto de vista esportivo, as equipes da Michelin deveriam ter corrido com giros de motor reduzidos e/ou parando nos boxes para trocar a borracha a cada dez voltas. Mas ficou claro que as montadoras alinhadas com a GPWC optaram por encenar um enorme vexame no mercado mais estimado pelos rivais Bernie Ecclestone e Mosley. Também incendiaram o próprio quintal.
Foi ridículo ver, depois da corrida, Ron Dennis anunciando que a opção de não correr foi feita em nome da segurança de seus pilotos. Há três semanas atrás, quando a suspensão de Kimi Räikkönen chacoalhava mais que uma britadeira nas voltas finais do GP da Europa, o discurso foi exatamente o oposto: arriscar em nome da vitória.
O mais triste é que, ao contrário de exemplo de Nuremberg, a turma da Fórmula 1 já mostrou que não vai aprender nada com o que aconteceu em Indianápolis. A FIA ameaça punições draconianas e os rebeldes devem estar mais do que nunca propensos a abrir uma série paralela, naturalmente com pneus fornecidos pela Michelin. O racha, que já era grande, ficou maior ainda.
Se os torcedores brasileiros foram pela milionésima vez vítimas do descaso da Rede Globo na transmissão da corrida, aqui na Áustria fomos premiados com uma atuação brilhante de Niki Lauda como comentarista especialmente convidado. O tricampeão falou exatamente tudo o que eu e, acredito mas posso estar enganado, os outros colunistas do GPTotal pensam:
“O que aconteceu aqui hoje é fruto de duas coisas. Primeiro, o absurdo que é o Pacto de Concórdia, que exige a totalidade, não a maioria, dos votos para que qualquer decisão seja tomada. Como esta turma, por natureza, jamais se entende, nunca se chega a um consenso e as decisões acabam centralizadas nas mãos de apenas uma pessoa, o presidente da FIA. Segundo, a introdução de uma série de regras nos últimos anos que só serviram para complicar o esporte e, através disso, descaracterizar completamente a categoria e diminuir o interesse dos torcedores. As pessoas da Fórmula 1 precisam achar um compromisso para que a categoria volte a ser o que era, com treinos classificatórios de uma hora com doze voltas para cada piloto e sem restrições de combustível, e com troca ilimitada de pneus durante a corrida. Parabéns a Michael Schumacher por uma das vitórias mais emocionantes e suadas de sua carreira. Para mim, foi a corrida mais chata que eu já assisti. Adeus.”
Como correspondente na Europa da revista Racing, fui designado para atender ao convite da BAR-Honda e passarei este fim-de-semana assistindo ao vivo o Festival de Goodwood, na Inglaterra. Claro que os leitores do GPTotal podem esperar muitas fotos exclusivas. Se o presente é negro, vamos ao menos admirar a beleza do automobilismo do passado.
Um abraço e até a próxima!
Luis Fernando Ramos
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