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| » » » 29.04.05 |
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| O homem que não sabia morrer |
29.04.05 |
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| A volta para casa após um dia duro no trabalho, um privilégio que muitos colegas não tiveram |
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Hoje em dia, completar 82 Grandes Prêmios disputados na Fórmula 1 não parece grande coisa. Rubens Barrichello fez em Imola sua 200ª largada e fedelhos recém-saídos das fraldas como Nick Heidfeld e Jenson Button já possuem 88 corridas no currículo. Mas atingir esta marca após participar de 15 temporadas seguidas a partir de 1950, numa época em que pilotar era passear de mãos dadas com a morte, é um dos feitos mais notáveis já atingidos na categoria.
O autor da proeza é Maurice Trintignant. O estilo de pilotagem seguro do francês e sua extrema sensibilidade mecânica, sabendo como ninguém conservar o equipamento numa época em que as corridas percorriam distâncias de até 500 quilômetros, sempre o mantiveram em alta cotação com os chefes de equipe da época. E lhe garantiram, afinal, “apenas” duas vitórias no prestigiado Grande Prêmio de Mônaco.
A primeira delas completará 50 anos neste mês de maio e ilustra bem sua técnica de corrida. Trintignant largou em nono lugar, ganhou uma posição logo no comecinho e mais três por volta da 30ª volta, sempre em movimentos bem estudados e executados. Antes da metade da prova, dois abandonos de pilotos que estavam à sua frente, incluindo a imbatível Mercedes de Juan Manuel Fangio, o elevaram à terceira posição.
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| O gorro azul e branco era uma das marcas registradas do piloto |
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O francês seguiu poupando equipamento, enquanto o líder Stirling Moss voava em uma caçada sem sentido para tentar colocar uma volta de vantagem sobre o segundo colocado, Alberto Ascari (Lancia). Na 80ª volta, dois incidentes simultâneos definiram a prova. Enquanto Moss cozinhava o motor de seu carro no túnel após submetê-lo à tanto esforço, Ascari errava a chicane na tentativa de ganhar tempo para não tomar uma volta do inglês, caindo na água e milagrosamente saindo do incidente com apenas um susto e um machucado no nariz. Três dias depois, o bicampeão mundial italiano perderia a vida num teste em Monza com um carro esporte da Ferrari.
O estilo retraído e eficiente de Trintignant está ligado a dois episódios marcantes em sua vida. Nascido em 1917 como filho caçula de um próspero vinicultor, Maurice viu o irmão Louis perder a vida em um acidente no GP de Péronne em 1933. Ainda assim, pegou o carro deste, a clássica Bugatti T35, para iniciar sua carreira nas pistas cinco anos depois.
O segundo episódio ocorreu após a II Guerra Mundial. O Grande Prêmio da Suíça de 1948, no desafiador e perigoso circuito de Bremgarten, já estava marcado pela tragédia após a morte de do italiano Achille Varzi nos treinos e do suíço Christian Kautz na segunda volta da prova. No meio da corrida, Trintignant rodou e foi arremessado para fora do cockpit (não havia cinto de segurança na época), caindo no meio da pista. Os pilotos que vinham atrás (Giuseppe Farina, Príncipe Bira e Robert Manzon) tiveram de usar toda a destreza para desviar do corpo inerte, o que acabou causando seus abandonos da prova. O francês foi levado ao hospital e permaneceu em coma por oito dias. A certa altura foi pronunciado morto, antes que sua pulsação voltasse lentamente e ele se recuperasse para prosseguir sua carreira.
Os dois contatos íntimos com a morte mudaram para sempre sua atitude em relação às corridas. O amor permaneceu o mesmo, mas assumir riscos se tornou uma atitude cada vez mais rara. Isto se refletiu na sua personalidade calma e amigável. Vale uma curiosidade: o apelido de Trintignant era “Le Petoulet” (“o cocô de rato”), dado pelo colega Jean-Pierre Wimille após seu abandono na corrida de Bois de Bolougne em setembro de 1945, a primeira do pós-guerra. A pane seca que Maurice sofreu foi, descobriu-se depois, causada pela ação das fezes dos roedores que habitaram o tanque de seu carro durante os anos da batalha. Wimille, um dos grandes nomes do automobilismo francês de todos os tempos, morreria numa corrida em Buenos Aires em 1949.
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| Mônaco 1955: Maurice Trintignant caminha para sua primeira vitória na F-1 |
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Em 1964, aos 47 anos, Trintignant disputou sua última temporada na Fórmula 1 com um BRM privado. Somou dois pontos com um quinto lugar em Nürburgring, uma amostra de que ainda possuía o mesmo dom de poupar o carro para obter resultados. Chegara a hora de pendurar o capacete após uma vitória nas 24 Horas de Le Mans (em 1954, em dupla com José Froilán Gonzalez), duas no GP de Mônaco e dois quartos lugares no Mundial de Fórmula 1. Em contrapartida, o francês esteve presente nas corridas que marcaram 30 das 35 fatalidades da categoria neste período.
O fim de sua carreira competitiva, não desestimulou o piloto a fazer participações esporádicas em corridas para carros antigos até o novo milênio, e nem o fez resistir à tentação de experimentar a aventura do Paris-Dakar em 1982, quando já tinha 65 anos de idade.
Paralelamente, Trintignant assumiu a vinícola do pai e criou o vinho “Le Petoulet”, que trazia um carro de corrida no rótulo e o slogan “Le champion des vins – Le vin du champion”. Foi também prefeito da cidade de Vèrgeze por alguns anos. No último dia 17 de fevereiro, aos 87 anos, o homem que não sabia morrer finalmente deu seu último suspiro, depois de viver uma vida repleta de sucesso e alegrias dentro e fora das pistas. Um privilégio que a vasta maioria dos seus contemporâneos nas pistas não teve.
Um abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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