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O homem que não sabia morrer <%=strData%>
A volta para casa após um dia duro no trabalho, um privilégio que muitos colegas não tiveram
Hoje em dia, completar 82 Grandes Prêmios disputados na Fórmula 1 não parece grande coisa. Rubens Barrichello fez em Imola sua 200ª largada e fedelhos recém-saídos das fraldas como Nick Heidfeld e Jenson Button já possuem 88 corridas no currículo. Mas atingir esta marca após participar de 15 temporadas seguidas a partir de 1950, numa época em que pilotar era passear de mãos dadas com a morte, é um dos feitos mais notáveis já atingidos na categoria.

O autor da proeza é Maurice Trintignant. O estilo de pilotagem seguro do francês e sua extrema sensibilidade mecânica, sabendo como ninguém conservar o equipamento numa época em que as corridas percorriam distâncias de até 500 quilômetros, sempre o mantiveram em alta cotação com os chefes de equipe da época. E lhe garantiram, afinal, “apenas” duas vitórias no prestigiado Grande Prêmio de Mônaco.

A primeira delas completará 50 anos neste mês de maio e ilustra bem sua técnica de corrida. Trintignant largou em nono lugar, ganhou uma posição logo no comecinho e mais três por volta da 30ª volta, sempre em movimentos bem estudados e executados. Antes da metade da prova, dois abandonos de pilotos que estavam à sua frente, incluindo a imbatível Mercedes de Juan Manuel Fangio, o elevaram à terceira posição.
O gorro azul e branco era uma das marcas registradas do piloto

O francês seguiu poupando equipamento, enquanto o líder Stirling Moss voava em uma caçada sem sentido para tentar colocar uma volta de vantagem sobre o segundo colocado, Alberto Ascari (Lancia). Na 80ª volta, dois incidentes simultâneos definiram a prova. Enquanto Moss cozinhava o motor de seu carro no túnel após submetê-lo à tanto esforço, Ascari errava a chicane na tentativa de ganhar tempo para não tomar uma volta do inglês, caindo na água e milagrosamente saindo do incidente com apenas um susto e um machucado no nariz. Três dias depois, o bicampeão mundial italiano perderia a vida num teste em Monza com um carro esporte da Ferrari.

O estilo retraído e eficiente de Trintignant está ligado a dois episódios marcantes em sua vida. Nascido em 1917 como filho caçula de um próspero vinicultor, Maurice viu o irmão Louis perder a vida em um acidente no GP de Péronne em 1933. Ainda assim, pegou o carro deste, a clássica Bugatti T35, para iniciar sua carreira nas pistas cinco anos depois.

O segundo episódio ocorreu após a II Guerra Mundial. O Grande Prêmio da Suíça de 1948, no desafiador e perigoso circuito de Bremgarten, já estava marcado pela tragédia após a morte de do italiano Achille Varzi nos treinos e do suíço Christian Kautz na segunda volta da prova. No meio da corrida, Trintignant rodou e foi arremessado para fora do cockpit (não havia cinto de segurança na época), caindo no meio da pista. Os pilotos que vinham atrás (Giuseppe Farina, Príncipe Bira e Robert Manzon) tiveram de usar toda a destreza para desviar do corpo inerte, o que acabou causando seus abandonos da prova. O francês foi levado ao hospital e permaneceu em coma por oito dias. A certa altura foi pronunciado morto, antes que sua pulsação voltasse lentamente e ele se recuperasse para prosseguir sua carreira.

Os dois contatos íntimos com a morte mudaram para sempre sua atitude em relação às corridas. O amor permaneceu o mesmo, mas assumir riscos se tornou uma atitude cada vez mais rara. Isto se refletiu na sua personalidade calma e amigável. Vale uma curiosidade: o apelido de Trintignant era “Le Petoulet” (“o cocô de rato”), dado pelo colega Jean-Pierre Wimille após seu abandono na corrida de Bois de Bolougne em setembro de 1945, a primeira do pós-guerra. A pane seca que Maurice sofreu foi, descobriu-se depois, causada pela ação das fezes dos roedores que habitaram o tanque de seu carro durante os anos da batalha. Wimille, um dos grandes nomes do automobilismo francês de todos os tempos, morreria numa corrida em Buenos Aires em 1949.

Mônaco 1955: Maurice Trintignant caminha para sua primeira vitória na F-1
Em 1964, aos 47 anos, Trintignant disputou sua última temporada na Fórmula 1 com um BRM privado. Somou dois pontos com um quinto lugar em Nürburgring, uma amostra de que ainda possuía o mesmo dom de poupar o carro para obter resultados. Chegara a hora de pendurar o capacete após uma vitória nas 24 Horas de Le Mans (em 1954, em dupla com José Froilán Gonzalez), duas no GP de Mônaco e dois quartos lugares no Mundial de Fórmula 1. Em contrapartida, o francês esteve presente nas corridas que marcaram 30 das 35 fatalidades da categoria neste período.

O fim de sua carreira competitiva, não desestimulou o piloto a fazer participações esporádicas em corridas para carros antigos até o novo milênio, e nem o fez resistir à tentação de experimentar a aventura do Paris-Dakar em 1982, quando já tinha 65 anos de idade. 

Paralelamente, Trintignant assumiu a vinícola do pai e criou o vinho “Le Petoulet”, que trazia um carro de corrida no rótulo e o slogan “Le champion des vins – Le vin du champion”. Foi também prefeito da cidade de Vèrgeze por alguns anos. No último dia 17 de fevereiro, aos 87 anos, o homem que não sabia morrer finalmente deu seu último suspiro, depois de viver uma vida repleta de sucesso e alegrias dentro e fora das pistas. Um privilégio que a vasta maioria dos seus contemporâneos nas pistas não teve.

Um abraço e até a próxima,

Luis Fernando Ramos
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