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| » » » 18.04.05 |
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| A Filisofia de ser o último |
18.04.05 |
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Ontem, domingo, participei de uma corrida de rua na minha cidade. Claro, comecei a fazer jogging regularmente há apenas dois meses, mas como todo bom ser do sexo masculino, a veia competitiva falou mais alto e fui logo me inscrever numa competição. Chegando na largada, vi logo o tamanho da encrenca que havia me enfiado: a grande maioria dos competidores ostentava camisetas de associações atléticas. Em suma, poucos eram amadores como eu, e todos eles estavam claramente mais preparados.
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| Um último lugar que rendeu um ponto e muita festa |
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Menos de um minuto depois da largada eu já era o último colocado. Cem metros à minha frente, duas meninas de menos de 20 anos e um senhor meio cheinho de uns 50. Não havia força do mundo capaz de me empurrar próximo deles, os penúltimos. Após o primeiro par de quilômetros, meu vexame era óbvio e iminente. Pensei seriamente em desistir.
Foi então que comecei a reparar no apoio que recebia do público presente. Rostos de compaixão, gritos de incentivo, aplausos pelo esforço me empurraram pela interminável distância subseqüente, enquanto que meus colegas, os penúltimos, passavam incólumes pela solidão da corrida. No final, completei o percurso sorrindo e com os braços para o alto, enquanto era festejado pelo mestre-de-cerimônia através dos altos falantes.
Me senti tão vencedor quanto o primeiro colocado. Superei meus próprios limites, me motivei para ir até o final e alcancei a melhor marca que já consegui. Foi o último, sim, mas nunca corri tão rápido na minha vida. E, de quebra, conquistei toda a simpatia da torcida. Uma doce recompensa.
Em abril de 1985, há 20 anos portanto, uma equipe de 13 pessoas desembarcou no Rio de Janeiro para viver uma história parecida com a minha. Era a estréia da Minardi na Fórmula 1. Enquanto o chefe Giancarlo Minardi e o piloto Pierluigi Martini tinha funções bem definidas, os onze mecânicos perceberam que faltava uma pessoa para ajudar durante os pit-stops em Jacarepaguá. O voluntário encontrado foi o ex-piloto Miguel Angel Guerra. Outros tempos...
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| Pierluigi Martini e a equipe de 13 pessoas |
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O que não mudou muito foi o desempenho. Na ocasião, Martini se classificou em último no grid de largada, com um tempo mais de 16 (!) segundos superior ao do pole, o italiano Michele Alboreto com a Ferrari. A participação da Minardi na corrida se encerrou após 41 voltas com uma avaria elétrica no M185.
Daquele domingo carioca para cá, além da Minardi, apenas Ferrari, McLaren e Williams se mantiveram ininterruptamente na Fórmula 1. A capacidade de sobrevivência de uma equipe sem resultados expressivos, ainda mais numa época em que a categoria funciona através de interesses comerciais em detrimento aos desportivos, é talvez um dos maiores feitos já alcançados nas pistas.
A maior qualidade da Minardi é, aos olhos de Bernie Ecclestone, desempenhar com bravura o papel de última colocada. Primeiro por cumprir manter sua conta bancária em dia e colocar um time para funcionar de forma aceitável com orçamento limitadíssimo. “Sempre cumprimos nossos compromissos financeiros”, afirma um orgulhoso Giancarlo Minardi.
Segundo por fazer um papel que a defunta Fórmula 3000 não conseguiu: formar pilotos de primeira linha para a Fórmula 1. Pois os três primeiros colocados do campeonato deste ano (Fernando Alonso, Jarno Trulli e Giancarlo Fisichella) entraram na categoria pela minúscula equipe. “Só tenho boas lembranças da Minardi”, diz hoje Trulli. “O ambiente era familiar, as expectativas eram baixas, o dinheiro era mínimo. Um piloto jovem precisa provar suas qualidades o tempo inteiro. Por isso, a Minardi era ideal”.
Outro que reconhece a importância da equipe em sua formação é o australiano Mark Webber. “Para entender como a Fórmula 1 funciona, quais exigências ela possui, a Minardi é o começo perfeito. Não há testes. Lá, o trabalho se concentra o tempo inteiro num fim-de-semana de corrida. Você tem três dias apenas para desenvolver o carro e, assim, aprende a trabalhar de forma mais eficiente”, analisa.
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| O líder do campeonato também já foi último |
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A Minardi também atua como trampolim de engenheiros e até mesmo de patrocinadores. Aldo Costa, o projetista da Ferrari F2005, trabalhou na equipe até 1996. “O problema é que não conseguimos manter nosso melhor pessoal. Assim que fica claro o fato de termos algum fora-de-série, as outras equipes se juntam como abutres em nossa porta. Com patrocínio é parecido. Atraímos diversas empresas para a Fórmula 1, que depois mudaram para outras equipes por enxergar nelas melhores chances de promoção. É algo legítimo, mas infelizmente difícil de digerir”, conta Giancarlo Minardi.
O fundador também reconhece que a origem da equipe dificulta suas possibilidades financeiras. “É muito difícil conseguir patrocínio sendo uma equipe italiana. Quem quiser despejar dinheiro da Itália para a F-1, vai para a Ferrari”. Desta forma, a compra da equipe por Paul Stoddart no início do milênio foi inevitável. Giancarlo permanece ativo, correndo atrás de patrocinadores e novos talentos. O australiano só tem elogios para o sócio. “É um homem honrado. Ele respeita que eu tenha a palavra final. Há opiniões e decisões que ele não entende e vice-versa. Mas nos arranjamos de forma que o trabalho em conjunto já dura cinco anos. Havia gente apostando que não conseguiríamos durar nem cinco minutos...”
No fundo, o espírito de Giancarlo Minardi é fundamental para a sobrevivência do time. Dos treze membros que estavam no GP do Brasil de 1985, seis continuam até hoje na Minardi. “Para mim, Giancarlo é acima de tudo um amigo. Ele é diferente dos outros chefes de equipe. Seu problema é ser muito apaixonado por corridas, de corpo e alma. De certa forma, este tipo de gente não cabe mais na F-1 moderna”, lamenta Luca Zama.
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| Giancarlo Minardi, a alma da equipe |
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Essa lealdade é reverenciada pelo fundador. “A Minardi nasceu de um grupo de pessoas que conseguiu construir um carro de corridas com muita dignidade. A relação que temos entre nós é única”. No próximo fim-de-semana, em Imola, a equipe estréia um novo carro (o antigo já tinha três anos). Segundo Stoddart, o objetivo é andar na frente da Jordan. Minha torcida é para que permaneçam em último. A Fórmula 1 precisa de últimos assim. Além do mais, quem dá bola para os penúltimos? Ninguém, disso eu sei muito bem.
Abraço e até a próxima,
Luis Fernando Ramos
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