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O nerd, o mico e a batata quente 20.03.05
Um cérebro eletrônico que faz quase tudo
Duas corridas, duas vitórias tão moles quanto bunda de velhinha. Devagarzinho, a Renault vai confirmando a profecia de Patrick Faure, o Luca di Montezemolo deles, feita na época do retorno da equipe às pistas no longínquo ano de 2002. "Seremos campeões em quatro temporadas".

O principal responsável pela dominação dos carros azuis e amarelos neste início da temporada é um verdadeiro fantasma dentro da própria Fórmula 1. Se você apresentar uma foto dele à todas as pessoas no paddock, vai contar nos dedos aquelas que dizem conhecê-lo. Uma delas é, claro, o sempre antenado Michael Schumacher. "Tad é um gigante na sua área de trabalho", reconhece o alemão.

Tad tem sobrenome, e um bem complicado: Czapski (pronuncia-se "Tchápski"). É um desses Nerds no estilo Bill Gates ou Steve Jobs, um cara que passou mexia com computadores quando computadores mal existiam e ficou milionário por causa disso. Aos 51 anos, este inglês possui um dos maiores salários dentre o corpo técnico da Fórmula 1, algo entre 3 e 5 milhões por ano, ou o dobro do que Felipe Massa embolsa por arriscar seu pescoço naquela cadeira elétrica chamada C24.

Não é por menos. Czapski montou nos anos 80 uma empresa de sistema de controle eletrônico aeroespacial. Foi contratado em 1992 por Tom Walkinshaw para cuidar da parte eletrônica da Benetton, numa época em que todo o corpo técnico da equipe foi renovado e o famoso trio Schumacher-Brawn-Byrne surgiu. Pois é, o trio, na verdade, era um quarteto.

Foi este em engenheiro quem criou o controle de largada que a FIA fez de tudo para achar mas não conseguia em 1994 (e, quando achou, não conseguiu provar que foi utilizado). Foi ele também quem debandou para a Ferrari com Schumacher em 1996 e ajudou a equipe a se tornar imbatível a partir do ano 2000. Sua genialidade tornou o controle de programas ilegais praticamente impossível e obrigou a FIA, a certa altura, a proibir toda a eletrônica (depois voltou atrás, estamos falando da FIA). Aliás, arrumar uma maneira de burlar o regulamento é uma de suas curtições, e é por isso que pagam tanto para terem seus serviços. Não venham com papos de ética, ninguém presta lá dentro, é assim há anos e vocês sabem!

Mas, não esqueçamos, Czapski é um nerd. Após o título daquele ano, as saudades da chuva, da Guiness, do Fish-and-Chips e das mulheres feias falou mais alto e ele resolveu que era hora de voltar à Inglaterra. A então Benetton-Renault não se importou nem um pouco de recontratá-lo e, desde então, os carros fabricados em Enstone são os que possuem a melhor largada e o melhor controle de tração do grid.

Assim, vai ser difícil alguém passar Alonso ou Fisichella em uma largada neste ano (e depois das largadas, ninguém passa mais ninguém mesmo). E os caras estão largando na frente. Outro ponto importante: toda vez que o controle de tração é acionado, o motor é forçado e, aos poucos, perde alguns giros, diminui a potência. Como agora as unidades são utilizadas por 700 quilômetros, esta perda vai se acumulando e é bem mais significativa. E não há programa que gerencie melhor e com mais eficiência o funcionamento do CT do que o da Renault.

E assim, na calada de um escritório frio na cinzenta Inglaterra, Czapski vai dando continuidade à sua história de sucesso. E o cara deve ser um figura. Além de ter horror aos holofotes, o nerd tem um filho com Sonia Irvine. Imagine só ter de agüentar o Eddie como cunhado?


Uma equipe que não sabe contar
O carro híbrido da Ferrari é uma cadeira elétrica, um verdadeiro Frankstein que se alimenta de borracha japonesa e possui uma fome insaciável. Mas nem mesmo após perder disputas de posições com a nanica Red Bull e ficar pela primeira vez em 23 corridas longe do pódio, a cúpula da Ferrari perde as estribeiras. Claro que o discurso oficial é cuidadoso e eles têm consciência que a coisa pode mesmo ir pras cucuias. Mas todos da equipe pularam de alegria e saíram dançando ao saber que Luca Badoer, na última sexta-feira, ficou a 0s9 do recorde de Michael Schumacher para o circuito de Mugello com o F2005.

Explica-se: o piloto de testes costuma ficar um segundo atrás do alemão quando estão em condições similares. E, ao que consta, Badoer andou na sexta com o tanque razoavelmente cheio, em configuração de corrida.

Não, não sou tão prudente como a cúpula de Maranello e afirmo: no fim, vai dar Michael e Ferrari, de novo.

O maior mico que a equipe pagou foi, na verdade, fora das pistas, ao promover uma festa pelos 200 GPs de Rubens Barrichello. Contando com o de hoje, são 197, porque o brasileiro não largou em San Marino 94, Espanha 2002 e França 2002. Quanto será que o pessoal de marketing e comunicação deles ganha por mês? Vou mandar meu currículo!


Gastei todo meu alemão numa ótima entrevista exclusiva com Peter Sauber durante o GP do Brasil do ano passado. Fiquei ressabiado com sua reação quando lhe perguntei o porquê da contratação de Jacques Villeneuve. O suíço, até então à vontade e sorridente, recolheu o corpo para trás numa clara atitude de defesa, quase engasgou com o trago que havia dado no charuto, franziu a sombrancelha e se mostrou decidido: "não quero falar sobre isso".

Um piloto que ninguém quer
Eu sei porque e vou lhes contar: Jacques Villeneuve é uma batata quente. David Richards já quis o mandar embora logo que assumiu a BAR, mas o contrato do canadense o fez permanecer na equipe até o fim de 2003. Só que Bernie Ecclestone o adora ("é um campeão do mundo, é bom para o show", argumenta) e fez de tudo para lhe arrumar um cockpit ainda em 2004.

O pessoal ainda conseguiu enrolar o velhinho no começo do ano, mas a arapuca desarmou quando Jarno Trulli brigou com Flavio Briatore e assinou com a Toyota. Foi o que bastou para Bernie arquitetar uma estréia antecipada do italiano na nova equipe com o único intuito de abrir uma vaga para Villeneuve na Renault.

Briatore topou por duas corridas em 2004, mas não por toda a temporada 2005 como Bernie queria. Provavelmente, pressentiu a roubada que estava se metendo e já estava de olho em Fisichella. Só que o contrato de Físico com a Sauber só o liberava se fosse para uma das "três grandes", Ferrari, McLaren ou Williams.

Então Bernie arranjou tudo: Fisichella "foi" para a Williams que o "liberou" para Renault e ganhou Mark Webber em troca. E Peter Sauber, que devia ter alguma dívida no cartório com o dono da Fórmula 1, ganhou uma batata quente nas mãos. E isso lhe doeu o coração, pois ele estava simplesmente encantado com o trabalho de Fisichella, mas teve de abrir mão. Por isso sua relutância em comentar o assunto em Interlagos, ainda mais naquela época em que tudo tinha acabado de ocorrer.

Não duvido que o suíço não esteja fazendo o mínimo esforço para ajudar Villeneuve a melhorar sua performance. Não demorará muito para Bernie vai perceber que o canadense já era e sua presença na F1 deixou de ser "boa para o show". Felipe Massa vai ganhar um companheiro novo logo, logo. Há vários candidatos, mas eu tenho um forte pressentimento de quem será o escolhido. Anote aí: Heinz-Harald Frentzen. Pobre Sauber, sorte do Massa!

Grande abraço e até a próxima!
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