Tentativas de homicídio sempre hão de pintar por aí, como a de Michael Schumacher em cima de Rubinho, na Hungria.
Verdade que elas já existiam no passado. O espírito de Nino Farina carrega pelo além ao menos duas mortes (veja em minha coluna Dottore Farina, de 18/2/2008) e, não indo tão longe, Ayrton Senna sobre Alain Prost em Portugal 88. Mas é inegável que manobras assim aconteciam em menor quantidade no passado.
Desde então, as coisas mudaram. Algumas são bem manjadas – há muito mais dinheiro em jogo agora -, outras nem tanto. A disposição pra pisar no pescoço da mãe na disputa pela posição, corrida ou campeonato foi de tal forma valorizada, e não só em termos financeiros, que um comportamento manso do piloto seria, hoje, francamente reprovado. A esportividade tornou-se uma miragem que só pode ser praticada quando nenhum outro interesse está em jogo. A moral se deteriorou na pista, nos boxes, na vida. Somos todos Schumacher agora, em busca da sobrevivência numa selva mais e mais impiedosa. Não se pode mais ter esportividade nem na simples disputa por uma vaga de estacionamento quanto mais quando o mundo inteiro está de olho.
Mas há outro fator a tornar a atitude de Schumacher mais compreensível, por assim dizer: é difícil para um piloto, hoje, ter a consciência do risco de morte que uma manobra como aquela pode levar. É até difícil imaginar a dinâmica de um eventual acidente na Hungria, os dois carros em aceleração máxima, nenhuma área de escapa, muro, grades, pessoal de serviço e público bem próximos. Mesmo assim, Schumacher certamente não pensou nas consequências de fechar Rubinho de forma fria e calculado, o vigiando todo o tempo pelo retrovisor do seu Mercedes, dando até a impressão que mediu cuidadosamente a manobra, para leva-la ao limite extremo.
Um freio natural a atitudes como esta até recentemente era a consciência dos pilotos que um acidente como aquele mataria uma ou mais pessoas e a frequência de mortes nas pistas não deixava ninguém se esquecer disso. Pilotos morriam em quantidades industriais nas primeiras década da Fórmula 1 (muitos deles quando corriam em outras categorias) e isso, felizmente, acabou mas tornou manobras como a de Schumacher mais prováveis.
Como ninguém desejará que os níveis de segurança voltem a cair, só o restabelecimento do senso moral pode deter novas tentativas de homicídio nas pistas e a ação punitiva decidida das autoridades esportivas é o primeiro passo para tanto.
Para discutir com os amigos leitores: o chega-pra-lá de Nelson Piquet em Nigel Mansell em Monza 86 foi uma tentativa tímida de homicídio ou apenas uma manobra de humilhação do brasileiro sobre o arquirrival?
Voto pela segunda hipótese. Piquet, pelo que lembro, nunca foi desleal ou temerário nas pistas.
Desculpem por voltar ao assunto mas queria rever algumas coisas que disse de Felipe Massa em minha coluna O novo brasileirinho.
Massa não estava tão inerte diante da vida, quanto a leitura da minha coluna pode sugerir. Ele, de fato, tem graves e inexplicáveis problemas na condução do Ferrari mas o episódio do Bahrein, que usei como prova de que ele estava consciente da sua condição de segundo piloto desde o começo da temporada, pode ter sido apenas um erro de pilotagem ou uma visão conservadora daquela corrida específica. Não é correto afirmar com todas as letras que, já naquela altura, Massa estava conformado em ser escudeiro do espanhol.
Se estava conformado, porque lutou contra Alonso na largada em Silverstone, a ponto de terem se chocado, e, na Alemanha, relutou em ceder a liderança, apesar de ter havido apelos da Ferrari para tanto, como teria revelado um jornal alemão? Ou seja: estamos falando de um piloto disciplinada, integrado e grato à equipe mas que não se rendeu inteiramente às ordens inevitáveis em prol de um companheiro de equipe com 31 pontos mais do que ele no campeonato.
As caras, bocas e declarações de Massa depois da Alemanha me sugerem um certo grau de confusão mental dele, com a sua condição na equipe, sua inferioridade técnica diante de Alonso e falta de capacidade de se adaptar melhor ao carro, coisa que fez sem maiores problemas em temporadas passadas, quando a mudança de regulamento exigiu novas formas de pilotagem. Confuso mas não indefeso, fiel à equipe mas também pensando na sua condição de piloto que pode lutar pelo título em temporadas futuras.
E na confusão que se estabeleceu a partir da burrice córnea da equipe italiana – Roberto Agresti me escreveu em particular sobre isso e provavelmente abordará o tema em coluna futura –, não é improvável que, no futuro próximo, a fidelidade de Massa seja paga com uma vitória, se a Ferrari tiver tal oportunidade, da mesma forma que Schumacher fez com Rubinho em 2002.
O uso descarado da bandeira amarela no GP da Hungria pode ser um divisor de águas na história da categoria. Já houve, em corridas passadas, uso, digamos, político da bandeira amarela, de forma a tentar proporcionar alguma disputa na pista mas os resultados não foram tão “bons” quanto na Hungria, corrida que ninguém poderá descrever como “chata”.
Manifestei aqui recentemente o meu espanto pelo uso até agora franciscano do safety car na Fórmula 1, ele que é a base da competitividade das categoria americanas, ao lado da intervenção frequente dos comissários, coisa que também se viu na Hungria, com a punição draconiana a um pecado venial de Sebastian Vettel. Será que as autoridades esportivas europeias se renderam aos fatos e vão terminar de nascarizar a Fórmula 1?
Cruzo os dedos para que não mas, como no caso do restabelecimento dos níveis morais do passado, temo que minhas preces sejam em vão