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Home » Colunas » Eduardo Correa » 30.07.10
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O novo brasileirinho 30.07.10
Massa e seu chefe chegam ontem, em Hungaroring - Clique para ampliar
Não esperem de mim reprovação automática ao jogo de equipe. O automobilismo esportivo tem, se não errei nas contas, 116 anos e apenas há oito o jogo de equipe foi proibido pela Fia e, assim mesmo, de maneira calhorda, com aquele papinho de veto às ordens diretas vindas dos boxes. Sou das antigas e quero continuar assim. Me perdoem por isso. Por mim, os motores ainda teriam três litros, o primeiro colocado receberia nove pontos e não sou totalmente avesso à volta da coroa de louros para o vencedor.

Ou seja: não vou embarcar na tese da imoralidade, da predominância do negócio sobre o esporte etc. e tal. Automobilismo é um esporte de equipe e, se dependesse de mim, seguiria assim.

Massa, agora cedo, em Hungaroring - Clique para ampliar
No entanto, posso e vou embarcar em duas críticas. Uma, que dispensa maiores comentários, é à burrice córnea da Ferrari. Será possível tanta estupidez numa equipe só? Será possível que não tinham outra maneira de impor a evidente hierarquia a Massa – que deu origem a todo o problema largando bem e se aferrando teimosamente à liderança, mesmo sabendo que deveria entregar a posição a Alonso, já que não conseguia abrir vantagem considerável sobre ele?

Afinal, não se tratava apenas de cumprir as aparência mas sim de respeitar o regulamento, gostemos ou não dele. O que a Ferrari esperava? Que as pessoas acreditassem que aquela conversa no rádio não fosse interpretada como uma ordem direta? Será que a equipe se julga com as costas tão quentes na Fia, Fom, Onu, Cia, CBF, PT, PSDB etc. que imaginou que o áudio das suas cutrucas não seria divulgado? Aliás, sinceros e reiterados cumprimentos a quem tomou a decisão de por no ar o áudio inteiro, inclusive o patético pedido de desculpas a Massa, depois que ele cedeu a posição, e também a telemetria, de forma a não restar qualquer dúvida sobre o acontecido. Uma vez ao menos esta “regra” nascariana serviu pra alguma coisa.



Trulli - Clique para ampliar
Minha outra crítica, esta sim, de natureza moral: era cascata a história da igualdade de condições na Ferrari para os seus pilotos. Não duvido que, no contrato, ela só entre em vigor a partir do momento que só um dos pilotos preservar chances de lutar pelo título mas não creio que seja este o espírito que predominou desde o começo do campeonato e só posso lamentar que eu e milhões de pessoas no mundo tenhamos sido tolos de não perceber isso.

Deveríamos saber que o Santander não se tornaria provavelmente o maior investidor da Fórmula 1 para que o brasileiro saísse por aí, ganhando corridas. E se havia alguma dúvida sobre isso, o comportamento dele na largada do GP do Bahrein bastaria para deixar as coisas claras. Vejam de novo e me digam se é normal alguém chegar tão bem à curva e aliviar de todo jeito para outro alguém passar?



Viram? Então! Burrice à parte na condução da coisa toda, não deveria ser surpresa para ninguém a ordem da Ferrari em Hockenheim.

A hierarquia entre os pilotos da equipe estava estabelecida desde a primeira curva da primeira corrida e Massa demonstrou estar plenamente ciente dela, atitude agravada, a meu ver, pela sua compreensão íntima de que não conseguiria bater por méritos próprios o companheiro de equipe, algumas vezes mais preparado, antenado, motivado, armado e remunerado para a briga do que o songamonga Kimi Raikkonen. Mesmo porque, depois do embrulho na McLaren, Alonso deve ter se cercado de várias cláusulas contratuais que lhe garantem privilégios na equipe.

Bruno Senna, agora cedo, em Hungaroring - Clique para ampliar
Uma prova para mim incontestável de que Massa sempre esteve enquadrado nesta condição de hierarquia da equipe é o fato de seu contrato para as próximas temporadas ter sido renovado facinho, facinho, mesmo quando a Ferrari poderia ter Robert Kubica. Mas perguntem a Alonso quem ele querer no box ao lado...

Enfim, temos aí uma condição comercial – a do Santander privilegiando Alonso – que se refletiu numa condição contratual. E, aqui entre nós, estavam certos os italianos em não arriscar jogar pela janela a vitória na Alemanha numa disputa entre seus pilotos inclusive porque, nesta altura - mesmo que para isso seja necessário dois ou três milagres -, se alguém na equipe tem chances de sonhar com o título ou um vice-campeonato, este alguém é Alonso.

Ou seja, gostemos ou não, houve também uma motivação esportiva, tipicamente de equipe, para a decisão de domingo. A frase infeliz de Michael Schumacher – “deveriam ter disfarçado melhor” ou coisa do gênero – espelha uma verdade que foi aceita sem contestação até 2002.

Detalhe do Ford Cosworth nos boxes da Hungria
Pensando desta forma, é possível até que Massa tenha sido responsabilizado pelos seus chefes pelo rolo todo: por que ele não deixou Alonso passar logo no começo da corrida, como fez no Bahrein? Embriagado pela chance de vitória, acho que Massa simplesmente se esqueceu do contrato durante algum tempo. Foi duramente reconduzido à realidade.

Vendo as coisas por este ângulo, fica claro porque Massa sofreu calado aquela humilhação na entrada dos boxes, no GP da China. Ali, viu-se uma atitude traiçoeira de Alonso, atitude que só pode ser executada porque o espanhol se sentia escudado em garantias para poder literalmente jogar Massa pra fora da pista impunemente. Naquela manobra, foi Alonso quem gritou para Massa: “você entendeu bem a mensagem?”



Massa à frente de Alonso na Alemanha - Clique para ampliar
Um lamento final: porque Massa tem tantas dificuldades para se adaptar ao Ferrari F10? Vocês viram a luta dele com os pneus duros depois do pit stop enquanto Alonso não demonstrava maiores dificuldades. Mesmo assim, registre-se que Massa saiu-se muito bem na corrida do domingo. A Folha de S.Paulo comparou diretamente o tempo de volta da dupla da Ferrari, pontuando o mais rápido em cada uma delas. Deu algo muito próximo a um empate: Alonso 36 voltas mais rápidas, Massa 31. Até o momento da ultrapassagem, Massa havia feito 25 voltas mais rápidas, Alonso, 23 - só pra reforçar a burrice da Ferrari em suas justificativas, já que, mesmo estatisticamente Alonso não era mais rápido que Massa.

Mas este é apenas um pobre consolo para o nosso mais novo brasileirinho neste mundão perverso e suas pobres bravatas na coletiva de ontem, na Hungria, não vão mudar esta realidade.

Bom final de semana

Eduardo Correa

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