“A lucidez é um estorvo”, disse Fernando Henrique Cardoso. A Fórmula 1 parece amar esta máxima acima de todas as coisas e mergulha mais e mais na insensatez autodestrutiva da sua história, origens e fundamentos.
A cada nova decisão técnica, esportiva e comercial, os dirigentes vibram poderosos golpes contra os pilares da categoria, como se eles não a tivessem trazido e preservado no topo do automobilismo internacional por 60 anos. Aliás, muito nobre serão estes pilares, já que procuramos tanto demoli-los e ainda não conseguimos...
Bruno Senna e Karun Chandhok passeiam pela pista, ontem
Por algum motivo, os dirigentes entendem que toda a simplificação é importante para aumentar vendas e lucros, que é só o que interessa a eles. E de novo, começamos um campeonato sob a esquizofrenia do regulamento, que pretensamente visa economia mas que obriga as equipes a desperdiçar milhões – kers, nova aerodinâmica, tanques de combustível gigantes mesmo que os carros tenham de seguir parando para trocar pneus, novas dimensões dos pneus dianteiros, num momento em que se altera de forma radical o equilíbrio de peso do carro, e o detestável sistema de pontuação. A loucura continua em 2011, com a eliminação do duplo difusor. Tudo sem qualquer traço de lucidez, que seria pura e simplesmente deixar as coisas como estão.
Os dirigentes parecem sonhar em levar a F1 para a banalidade de Madonna, a cantora de cujas músicas ninguém lembra (bem... Eu gosto de Ray of Light). Tudo conduz a uma loteria técnica, um salve-se-quem-puder de regulamentos para ver no que vai dar.
Como Madonna tem feito com a música, o objetivo dos chefões da F1, seja o senil Bernie Ecclestone seja quem se esconde por trás desta fantasmagórica CVC, é vulgarizar a F1, tirando dela qualquer contexto histórico e grandioso, reduzindo tudo a uma papa cara e insossa.
De qualquer forma, boa sorte a todos na nova temporada que se inicia.
A severa restrição aos testes (talvez um caso único nos esportes) mais a inconveniência gerada pela chuva nas sessões de treino pré-temporada, tornou especialmente problemática qualquer previsão para a temporada 2010, inclusive pela metodologia adotada pelas equipes. Algumas, como a Ferrari, preferiram rodar mais longamente, simulando GPs. Outras optaram por tentar séries de vinte voltas, mudando depois a configuração dos carros, de forma a conhecê-los melhor.
A dupla da Mercedes, já no Bahrein
Como as duplas das favoritas Ferrari, McLaren, RBR e Mercedes vão se entender?
Na Ferrari, sob um regulamento que premia a suavidade no trato dos pneus, Fernando Alonso deve bater Felipe Massa mas o brasileiro tem chances, pois demonstra bom equilíbrio entre garra e técnica e excelente capacidade de aprendizado e adaptação, como demonstrou em 2009. E se Massa não é o mais refinado dos pilotos no trato dos pneus – uma qualidade menor diante do regulamento dos anos passados, Alonso pode ter problemas para se adaptar ao Ferrari, sendo a primeira vez que usa freios da Brembo. Alonso é conhecido por frear muito forte e, nos primeiros testes com o Ferrari, acusou desgaste excessivo de pastilhas e discos. Mas claro que um piloto como ele pode corrigir este problema facilmente. Nas quatro sessões de testes pré-temporada, ele bateu Massa em três.
Não sei quão suave é Lewis Hamilton no trato dos pneus mas Jenson Button é um craque em condução suave. Só confiando nesta análise (veja mais abaixo) pode-se imagina-lo capaz de bater o hipermotivado e veloz Hamilton, que levou a melhor nos testes, 3x1.
Alonso
O confronto Mark Webber-Sebastian Vettel parece levar ao mesmo resultado do ano passado: Vettel na cabeça, pela juventude e velocidade, mesmo ponderando os erros inevitáveis a alguém tão jovem. Só que Webber conseguiu fazer 2x1 nos treinos, a RBR não tendo participado de uma das sessões.
Na Mercedes, prefiro esperar pra ver as condições em prova do novo carro e de Schumacher mas tenho certeza de que ele vai se sair melhor. Nico Rosberg ainda tem de provar ser rápido sob pressão constante de vitória, algo a que nunca esteve submetido na Williams. Nos confrontos pré-temporada, 2x2.
Um fator que pode ser importante ao longo do campeonato é o potencial de conflito interno. Na RBR, Vettel e Webber não parecem capazes de brigar feio entre si, como demonstraram no ano passado, ambos vencendo corridas sem desestruturar a equipe. Isso pode ser decisivo, tanto mais que a RBR parece ter o melhor carro no momento.
De Alonso e Schumacher, já se sabe do que são capazes no confronto com os companheiros de equipe. Mas é certo que Massa não se renderá, a não ser que a Ferrari repita sua política dos anos Schumacher. Já Nico é uma incógnita. O tempo está ao lado dele. Dar a Schumacher um ou dois anos de primazia pode não ser uma má ideia. Difícil é imaginar que Schumacher se renda ao papel de segundo piloto.
Na McLaren, o conflito terá de nascer de Button já que Hamilton não demonstrou temor diante de Alonso, um osso consideravelmente mais duro de roer. Pesa ainda contra Button o fato de sempre ter se acomodado com facilidade às condições da equipe. Não que ele não tenha condições de bater Hamilton mas precisará de uma confluência grande de fatores para tanto.
Quais seriam eles? Uma pista vem de Peter Windsor, um dos responsáveis pela finada USF1 e um jornalista especialmente refinado. Na edição da revista F1 Racing de janeiro, ele traça algumas ideias interessantes ao analisar as qualidades de Button.
Vettel
Segundo ele, os melhores carros de F1 da atualidade se distinguem por serem rápidos em curvas de baixa velocidade – aquelas geralmente percorridas em 2ª marcha. (Ele estima que, talvez, 80% das curvas da F1 atual possam ser descritas como de baixa velocidade. Fiquei tentado a verificar este número mas faltou-me paciência. No Bahrein, por exemplo, o número bate. Apenas quatro curvas são de média ou alta velocidade, percorridas em 5ª ou 6ª marcha em velocidades iguais ou superiores em até 25% a velocidade média da pista. Já em Melbourne, curvas que não podem ser consideradas de baixa são um pouco mais numerosas, chegando talvez a 40%).
Segundo Windsor, Button (mas também Hamilton e Kimi Raikkonen) se destaca nas curvas de baixa velocidade por ter uma extraordinária coordenação. Ele é especialmente eficiente ao desacelerar e acelerar e combinar estes movimentos com o esterço do volante, de forma suave e precisa, preservando os pneus. Button tem, segundo Windsor, uma outra qualidade importante para a F1 atual: a capacidade de localizar a trajetória mais suave rumo à curva em meio às imperfeições das pistas.
O regulamento 2010 exige mais capacidade de adaptação do piloto. O peso dos carros na largada é calculado em 790 kg, sendo uns 170 kg de gasolina. Até 2009, os carros partiam com uns 60 kg de gasolina. Como a regra do parque fechado segue valendo, o acerto de suspensão não pode ser alterado entre treino e corrida, o que significa que você treinará com tanque vazio mas com a suspensão regulada para carregar toda a gasolina necessária para a corrida. Tal falta de lucidez pode levar equipes de segundo plano a privilegiar acerto de classificação, largar à frente e depois ver o que rola. Nos testes, ficou claro que o Ferrari é boa para a corrida mas não necessariamente para os treinos. Seria esta a estratégia insensata dos dirigentes para gerar emoção nas corridas?
Uma nova preocupação para os engenheiros imposta pelo regulamento: a temperatura da gasolina. A grande quantidade de combustível presa ao tanque por uma hora e meia eleva a sua temperatura e pode causar problemas no circuito de alimentação (que funciona, anote aí, a pressões altíssimas, em torno de 100 bar), causando um fenômeno chamada cavitação – a formação de bolhas de vapor de combustível, que colocam em tilt o sistema de alimentação do motor. A RBR padeceu do problema em seus primeiros treinos.
Uma indicação da altíssima qualidade atingida pelos RBR no final da temporada 2009: engenheiros rivais calcularam que os RBR conseguiam gerar, em algumas curvas, 20% mais pressão aerodinâmica.
Nico Rosberg disse recentemente que o segredo de uma boa convivência com Patrick Head, o subchefe da Williams, é não contesta-lo. Segundo Nico, o melhor é ouvi-lo, informar-se com ele sobre aquilo que considera necessário e se mandar. Estaria Rubinho preparado para um relacionamento assim?