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Home » Colunas » Eduardo Correa » 23.11.09
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Caderno de esboços III 23.11.09


Amigos leitores

Seguem anotações, ideias e rascunhos que acabaram de fora de minhas colunas de 2009. Mais cadernos de esboço em 24/9/2007 e 3/12/2008.

Boa semana a todos

Eduardo Correa






O calor intenso na Argentina 60 exigiu medidas desesperadas para refrigeração dos pilotos, como Harry Schell em seu Cooper - Clique para ampliar






A Fórmula 1 do passado não era tão inocente assim; nós é que ainda não havíamos nos tornado tão maliciosos, rapinos e aquisitivos como somos hoje.





A Rede Globo é culpada pelas mil ascensões e quedas de Rubinho?

Acho esta observação muito pouco útil para explicar as inconstâncias da carreira do brasileirinho e, o principal, burra e francamente grosseira para com o leitor.

É compreensível que a TV projete e queira projetar fantasias. De uma forma ou outra, todos nós, da mídia, as projetamos. O problema é imaginar que o público acredite nelas de forma integral e permanente. Alguns podem acreditar durante algum tempo mas certamente não todos e não todo o tempo, por mais que a TV insista... O poder da TV só é efetivo quando ela corresponde a uma realidade, a uma expectativa, a um desejo real e concreto do telespectador, como observou décadas atrás o estudioso Artur da Távola. A TV não consegue nem nunca conseguirá mudar uma realidade política, social e econômica apenas pelo próprio deseja. Fosse assim, simples, o pesadelo de 1984 teria se materializado, todos nós hipnotizados por ordens emanadas de Grandes Irmãos impiedosos, que não teriam maiores dificuldades em controlar as emissoras.

Imaginar que a TV tenha o poder de controlar razões e emoções de todos ou da maioria é descrer de forma quase criminosa do ser humano e da sua capacidade de buscar seu melhor interesse. A vida é maior, muito maior, do que a TV, sempre foi e sempre será. São as pessoas quem decidem a própria vida, não a TV. Vale o bordão da detestável Rifle Association, dos Estados Unidos: “armas não matam pessoas; pessoas matam pessoas”.

Voltando ao início: foi Rubinho quem novelizou a sua vida e carreira. A Globo e outros meios de comunicação podem ter aproveitado este caudal e potencializado suas vantagens econômicas (que forma, diga-se, altamente benéficos para o próprio Rubinho) mas isso não mudou a substancia nem a mudará, quantas temporadas mais dure esta insuportável novela.





Repito piada velha das redações: comentaristas são aqueles que, finda a guerra, percorrem o campo de batalha e matam os sobreviventes.





Há dificuldades intransponíveis para quem gosta, como eu, de comparar pilotos de diferentes eras. Leio que um carro de Fórmula 1 atual carrega mais de cem sensores – aceleração, desaceleração, marcha, direção, temperatura, pressão, fluxos etc. etc. etc. -, todos eles remetendo as informações online para os boxes, onde dez ou mais engenheiros vigiam os dados atentamente, repassando as informações ao engenheiro chefe e ao estrategista e, daí, para o piloto.

Fangio, Clark, Lauda, Piquet, Senna e outros gigantes do passado se entenderiam com um carro assim? Eles, pilotos intuitivos, capazes de antecipar uma quebra de motor com horas de antecedência só porque os ouvidos afiados percebiam um som menos harmônico ou sentiam na ponta dos dedos uma vibração levemente diferente, se beneficiariam de tantas informações e conseguiriam, por conta delas, andar mais rápido?







Outra dificuldade para comparar pilotos: os carros de cada época demandavam determinados physique du rôle. Fangio e Ascari, os corpanzis roliços, simplesmente não conseguiriam entrar nos carros atuais, concebidos para acolher pilotos magros e baixinhos.

Em compensação, os pilotos contemporâneos, mesmo superpreparados do ponto de vista físico, parecem carecer de força física para dirigir carros do passado, tanto mais em GPs que podiam chegar a 500 km de extensão.

São bem conhecidas as reações francamente atemorizadas de Michael Schumacher ao pilotar o Ferrari turbo de 82 e de Emerson Fittipaldi ao volante do Mercedes de 54. Não indo tão longe, teria o franzino Sebastian Vettel habilidade e força física para domar a potência de um Williams FW11, o carro do título de Piquet em 87, empurrado por um motor Honda turbo capaz de chegar a 1300 cavalos, com as marchas passadas na mão e sem direção assistida?



Devaneios como Yas Marina começaram, quem diria, num estacionamento de hotel em Las Vegas, onde Bernie fez desenhar uma pista para a disputa dos GPs dos Estados Unidos de 81 e 82.

O efeito para as corridas foi exatamente o mesmo mas, ao menos, o circuito de Las Vegas custou muito menos...





Kazuki Nakajima bateu seu Williams bem diante dos meus olhos, este ano, em Interlagos.

É claro que não estava olhando para o local onde tudo aconteceu, minha atenção sendo despertada pelos inevitáveis braços apontados. E quando olho, lá vem o japonês, seu Williams atravessado no ponto de frenagem da reta oposta, o bico tocando gentilmente o guard rail interno e depois rumando em direção à barreira de pneus, no fundo da Curva do Lago.

Apesar da velocidade considerável, uma imensa área de escape não prenunciava nada de mais grave mas, mesmo assim, ver aquele carro azul e branco quicando sobre os pedriscos do acostamento remeteu-me a algo surreal, tantas vezes visto na TV, nunca antes, que me lembre, apesar de tantos anos de Interlagos, com meus próprios olhos.

No fim, terminou tudo bem, mas deu para sentir o cheiro de borracha queimada de onde eu estava.







No fundo, é irreal querer preservar apenas a tradição, esquecendo a força da grana, da inovação, da TV, da segurança e da prosperidade para todos. As coisas evoluem e é irreal querer lutar contra elas acima de um determinado limite.

O importante, no entanto, é preservar o espaço para o romantismo. Tom Wheatcroft, o homem que reviveu o circuito de Donington Park, que formou o maior museu de carros de corrida do mundo e ainda apoiou a carreira de vários pilotos, morto em 31 de outubro deste ano, aos 87 anos de idade, tinha muito, muito dinheiro, mas soube, no momento devido, preservar o romantismo e, graças a eles, assistimos a uma das maiores corridas de todos os tempos, o GP da Europa de 93, na mais bela vitória da carreira de Ayrton Senna.

A organização da corrida “rendeu” a Wheatcroft um prejuízo de 4,2 milhões de libras mas isso não o deteve. Ele havia sofrido um ataque cardíaco dias antes e precisou brigar feio com os médicos para que o liberassem para que pudesse estar presente à prova.





Parafraseando Tolstoi, todas as vitórias se parecem; já as derrotas têm, cada uma, a sua própria história.







Se hoje temos consciência do status lendário de corridas do passado - como as seguidas vitórias de Clark em Spa, por exemplo -, talvez só consigamos ler a respeito delas e não mais senti-la de verdade.

Eduardo Correa

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