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| » » » 17.08.09 |
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| Corredores & pilotos |
17.08.09 |
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Meses atrás, Stirling Moss, ao ser entrevistado pela revista inglesa F1 Racing, em mais uma eleição para o maior piloto de todos os tempos, introduziu uma variável interessante na discussão. Ele distinguiu pilotos de corredores. "Prost foi um grande piloto mas não um corredor. Schumacher não foi um corredor porque ele não precisou ser - nunca houve um companheiro de equipe para competir com ele”, disse Moss.
Corredores, segundo meu entendimento, são aqueles dominados pela velocidade. Nenhuma consideração, ponderação, imperativo ou mesmo ordens da equipe são suficientes para detê-los na busca da maior velocidade possível naquele momento específico da corrida. O corredor perfeito não pensa no GP mas no momento. Ele vivencia cada trecho da pista como se fosse o derradeiro. Ele quer ser o mais veloz desde a largada até a bandeirada. Só a custo considera a hipótese de aliviar o acelerador e controlar a vantagem sobre seus opositores. Sua determinação em ser o mais veloz possível independe da condição do carro. Não importa a posição que esteja disputando. Aliás, não importa sequer se está disputando uma corrida ou se está dirigindo em uma rua ou estrada. A ele só interessa a velocidade, a ultrapassagem, o arrojo, o desafio.
Já o piloto é aquele que compreende seus limites, os do carro e os compara todo o tempo à oposição. Ele é naturalmente integrado à equipe, pensa nos interesses dela a ponto de, por exemplo, não arriscar uma ultrapassagem de forma a poupar o carro e garantir um 2º lugar. Piloto é aquele que entende que deve traçar uma determinada curva mais devagar, de forma a economizar pneus ou preservar a própria pele e que não ataca o adversário à frente, preferindo aguardar pela rodada de pit stops, para trazer a discussão a um termo tão presente nos GPs dos nossos dias. Creio que foi Juan Manuel Fangio quem melhor resumiu o estilo do piloto de competição: aquele que ganha correndo o mais devagar possível.
É possível também resumir a coisa toda em bem poucas palavras: pilotos são executivos; corredores, empresários. Pilotos são artesãos; corredores, artistas. Pilotos são integrados; corredores, apocalípticos. Pilotos têm cérebro; corredores, culhões.
Uma distinção possível: pilotos são mais inteligentes do que corredores. Estes nem sempre entendem porque são tão velozes e aparentam menos capacidade para domar as variáveis. Alan Jones disse recentemente que Ronnie Peterson, um dos maiores corredores de todos os tempos, era tão naturalmente dotado para pilotar rápido que não fazia a mínima idéia de porque era assim. "Ele não era capaz de analisar. Por isso não era bom como piloto de testes. Dê a ele um problema e ele simplesmente o contorna, fazendo o carro andar rápido", disse Jones.
Isso me lembrou uma frase de Gilles Villeneuve, príncipe entre os corredores, a Niki Lauda, a quem disse que simplesmente não conseguia se controlar e acelerava seu carro mesmo quando não deveria porque “a natureza dele, Gilles, era assim”.
Sabemos todos que Gilles pagou caro por isso. Sua disposição irrefreável em acelerar foi potencializada por Enzo Ferrari, que encantou-se com a poesia e, verdade seja dita, irresponsabilidade do canadense. Qualquer outro chefe de equipe teria domado um pouco a selvageria daquele potro, indômito como talvez nenhum outro que tenha chegada à Fórmula 1. Mas Enzo, com um misto de orgulho paterno e o pensamento frio do político que vê um jovem rebento tornar-se um ídolo mundial, deixou-o livre, arrebentando carro após carro, até que as leis da física falaram mais alto e Gilles voou para longe.
Um piloto não é necessariamente mais lento do que um corredor. Prost, por exemplo, como observou Moss, era capaz de ser tão rápido quanto Ayrton Senna, mesmo poupando pneus e o carro.
Isso explica porque pilotos ganham mais GPs e campeonatos do que corredores. Pilotos têm uma capacidade natural de autopreservação que lhes proporciona uma durabilidade maior nas pistas, além de uma compreensão mais abrangente do que se passa à sua volta.
Entre os campeões mundiais da F1, a maioria absoluta era de pilotos: Fangio, Phill Hill, Graham Hill, Jim Clark, John Surtees, Dennis Hulme, Jackie Stewart, Jochen Rindt, Emerson Fittipaldi, Niki Lauda, Mario Andretti, Jodie Scheckter, Keke Rosberg, Alain Prost, Damon Hill, Jacques Villeneuve, Mika Hakkinen, Fernando Alonso e Kimi Raikkonen.
Entre os corredores, a colheita é escassa: Nino Farina, Alberto Ascari, Mike Hawthorn, James Hunt e Nigel Mansell.
Há também um terceiro grupo, de pilotos que combinaram características de ambos os grupos em diferentes momentos da carreira. Falo de Jack Brabham, Alan Jones, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Michael Schumacher e Lewis Hamilton.
Não é acaso que, desde 92, não possamos classificar nenhum campeão como um legítimo corredor. A mecanização do esporte está extinguindo os corredores ao exigir uma integração cada vez maior às equipes. Schumacher é o exemplo mais perfeito do que se espera de um profissional da Fórmula 1 hoje em dia: estado físico e mental perfeitos, habilidades naturais ao volante multiplicadas por treinamentos infinitos, anulação de todo e qualquer interesse pessoal em prol da equipe (Schumacher chegava a dormir na pista de testes da Ferrari) e uma confiança cega nas ordens dos engenheiros e seus computadores.
Nem por isso se exigiu menos velocidade dele mas Schumacher inegavelmente trocou seu instinto primitivo pelos interesses maiores da equipe, do campeonato, do business. E sabemos todos que o alemão tinha este instinto em grau exacerbado, como pudemos ver em tantas e tantas manobras sujas na pista.
Dos pilotos em atividade, Lewis Hamilton me parece ser o que mais reúne características do legítimo corredor, a despeito de todo o preparo em que foi embalado pela McLaren desde a infância. Menos mal que um pouco de poesia ainda seja valorizada nos dias de hoje.
Abraços
Eduardo Correa
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