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| » » » 06.07.09 |
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| Bernie tem que morrer |
06.07.09 |
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A Fórmula 1 só reencontrará o seu eixo quando Bernie Ecclestone sair de cena. Ele não precisa necessariamente morrer, como sugere o grosseiro título desta coluna, uma óbvia mas proporcional resposta às besteiras que disse ao The Times.
Se Bernie achou-se no direito de voltar – sim, ele já o tinha feito no passado – a expressar apreço pela ditadura, citando como exemplo Hitler, eu posso muito bem me dar o direito de desejar que ele suma, pra sempre.
Bernie já sugou da Fórmula 1 tudo o que poderia sugar. Em artigo recente, o jornalista Tony Dodgins, da revista inglesa AutoSport, citando informações da publicação especializada Sports Pro, lembrou que o inglês já ganhou ao menos seis bilhões de libras com a Fórmula 1 desde 91. Foi neste malfadado ano que Bernie, depois de instalar seu pau mandado Max Mosley na presidência da Fia, arrancou dele por uns trocados um acordo de cessão por cem anos dos direitos comerciais da Fórmula 1, direitos que Bernie vendeu anos depois, dando início a este verdadeiro furdúncio que ameaça matar a categoria (desculpem mas eu ainda não estou minimamente seguro de que a paz tenha sido recomposta e acho muito estranho este silêncio todo em torno dos acordos comerciais e de regulamento para os próximos anos).
De quebra, Dodgins propõe resposta a uma antiga dúvida minha: quanto Mosley levou pela cutruca com Bernie? Segundo rumores dos boxes, foram US$ 300 milhões, o que motivou a mudança do domicílio de Mosley da Inglaterra para Mônaco, de forma a fugir dos impostos. Fofoca? Sim, fofoca, mas quem diz o que Bernie disse merece isso e mais. O amigo leitor achou muito a gruja paga a Mosley? Pois saiba que ele vendeu a Bernie por US$ 300 milhões os tais cem anos de direitos comerciais da Fórmula 1, algo que vale, talvez, US$ 10 bilhões, segundo fontes citadas por Dodgins. Aproveito o espaço para especular: quanta grana Bernie prometeu a Mosley se conseguirem fazer com que as equipes assinem os contratos de que precisam?
Eu entendo que a Fórmula 1 é o que é hoje em termos comerciais graças a Bernie, o que significa inclusive a facilidade e qualidade da cobertura televisa que torna possível a todos nós acompanhar os GPs da forma que acompanhamos. Entendo, porém, que ele já foi amplamente recompensado por isso, tendo se tornado um dos homens mais ricos do mundo.
Posso entender também que as equipes se tornaram estupidamente ricas em grande parte graças aos esforços de Bernie e que a virada de mesa que elas propõem agora sugere ingratidão, traição, blá blá blá mas, que diabo!, a opção de Bernie não pode ser jogar o navio de encontro ao iceberg.
Nós não temos culpa se ele amarrou-se a compromissos que não é capaz de cumprir ou se foi incompetente para arrancar das equipes os contratos de que precisa para atender sabe Deus que interesses da CVC, a empresa para quem vendeu os direitos comerciais da Fórmula 1. Também não temos culpa se Bernie incitou Mosley contra as equipes, ao ponto de ruptura e do completo descrédito. Tudo é culpa exclusiva de Bernie, não nossa.
O fato de as equipes terem franqueado a ele tantos poderes nas últimas décadas não lhe confere um sultanato eterno. Ele tem de se entender com as equipes e com a finitude da vida. As equipes não querem mais ficar tão expostas aos caprichos comerciais de Bernie e da CVC, inclusive pelos evidentes exageros recentes. Se entender com as equipes significa ceder a elas e às montadoras mais dinheiro e poder de decisão já, sem querer que recomprem da CVC os tais direitos comerciais.
Bernie, muito provavelmente, não vai concordar com esta idéia. Ele está de tal forma enredado nos próprios interesses e dos investidores que representa que talvez seja incapaz de romper com eles, tampouco chegar a um meio termo bom para ambos os lados. Numa triste declaração recente, disse que a Fórmula 1 “acabou com o casamento dele”, mostrando como se sente atingido pelos movimentos da Fota. Mas sua alternativa é ficar nas mãos com um mar de processo judiciais que podem resultar em tudo, menos fazer com que Ferrari, McLaren etc. alinhem seus carros pra correr, restando-lhe um campeonato de araque e altamente incerto. Muitas pessoas alegam que a Fota não conseguiria organizar um campeonato em tão pouco tempo mas parecem se esquecer que, nas condições atuais, Bernie está exatamente na mesma situação: ele tem apenas quatro carros prontos para o ano que vem, os Williams e os Force India. Todo o resto são promessas. Elas se materializarão a tempo?
Se Bernie amou a Fórmula 1 no passado – e acredito que tenha de fato amado -, agora ele entornou o caldo e as suas declarações estapafúrdias sobre Hitler e os benefícios da ditadura mostram quem ele é, de verdade: um homenzinho ardiloso, grosseiro, atrabiliário, doentiamente ambicioso e mesquinho como um personagem de Dickens, alguém que nunca vai abrir mão de nada em prol do bem maior, alguém que precisa morrer.
Eduardo Correa
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