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Edu com medo 10.06.09


Edu - eu próprio, no caso - está com medo de que a Fórmula 1 como a conhecemos vá para o brejo.

Pouca gente foi ao autódromo turco
Ao contrário de tantos colegas, que acham que a briga Mosley/equipes acaba em pizza porque sempre foi assim, Edu teme que as coisas estejam próximas de uma ruptura, os pontos de vista de tal forma acirrados que o que se pode entender por bem comum será soterrado por interesses políticos e financeiros inamovíveis, amarrados por contratos muito complexos, advogados ardilosos e muita, muita vaidade.

Edu entende que a briga nunca foi entre Max Mosley e as equipes mas entre Bernie Ecclestone e elas, o velho leão inglês lutando para arrancar das equipes o compromisso de seguirem na Fórmula 1 em condições mais ou menos semelhantes às de hoje. As manobras e contra manobras de Mosley, em si, não têm maior importância, sendo apenas peões fadados ao sacrifício.

Edu entende as razões das partes: as equipes estão certas em pressionar por mais poder nas decisões em torno da organização do Mundial, incluindo o seu regulamento técnico, e também por lutarem por uma fatia maior das receitas auferidas por Bernie. Mas o senhor inglês também está correto em defender os seus interesses, estendendo-os pelo futuro. Para isso, ele precisa do compromisso férreo das equipes em contrato – o Pacto da Concórdia - que lhe garanta que Ferrari, McLaren, Renault etc. alinharão para a disputa do GP da Turquia de 2012, 2013, 2014...

Luca e Martin Whitmarsh, da McLaren
Este é o problema: hoje, Bernie é dono do circo – lona, picadeiro, assentos, pipoqueiro – mas não é dono dos artistas – carros, pilotos, engenheiros e marcas como a Ferrari. Bernie e as equipes estão ligados (ainda que pesem dúvidas jurídicas sobre esta ligação) por uma versão do Pacto da Concórdia que acaba em 2011. Para garantir que os promotores do GP da Turquia possam organizar a corrida em 2012, pagando a ele algumas dezenas de milhões de dólares por isso, Bernie precisa renovar o Pacto da Concórdia a partir de 2012. As negociações seguiam aos trancos e barrancos mas o abandono da Honda fez Bernie entrar em pânico: ele estava nas mãos das montadoras que podiam, a qualquer momento, deixar a categoria. Toyota e BMW, ao menos, estudaram seriamente fazê-lo no final do ano passado.

Bernie, como todo grande tycoon, não gosta de ficar nas mãos de ninguém, tanto mais de gente mais rica do que ele. Além disso, há um detalhe que não pode ser desprezado nesta história toda. Os direitos de organização do Mundial de Fórmula 1 pertencem a CVC, um private equity cujos proprietários estão ocultos em paraísos fiscais. Bernie jura não ser o principal acionista da CVC. Se não for, ele pode ser demitido a qualquer momento pelos controladores da empresa. O leão inglês está acuado e um leão acuado é capaz de tudo.





E aí Mosley entra na história atirando desvairadamente contra as equipes, pressionando-as por meio de regulamentos que, no entender dele e de Bernie, podem garantir, pelo menos no papel, que haverá um Mundial de Fórmula 1 a partir de 2012, mesmo que disputado pela USGP, Epsilon Euskady, Prodrive, March, Lola e sei lá mais quem. Afinal, o contrato de Bernie com os organizadores de GP e emissoras de TV não fala em Ferrari muito menos em Lewis Hamilton, Felipe Massa e Fernando Alonso; fala em ao menos vinte carros aptos a largar para a corrida. Bernie não pode esperar que equipes surjam do nada dispostas a gastar US$ 400 milhões ou mais ao ano, como as grandes equipes fazem atualmente. Daí a importância de uma Fórmula 1 de baixo custo, capaz de atrair todos os aventureiros que for capaz.

Bernie recebe George Lucas em Mônaco
É uma tentativa desesperada – desesperada mesmo – de salvar os contratos. E por ser desesperada é que temo que Bernie e seu fogoso pau mandado Max Mosley considerem seriamente a hipótese de não ceder às equipes grandes, mesmo sabendo que não podem arrancar dos organizadores de GPs, das emissoras de TV e do público que se dispõe a ir ao autódromo todo o dinheiro que arrancam hoje sem os artistas que, no final das contas, movimentam o espetáculo.

Mas aqui entra outro aspecto amedrontador da história: Bernie não precisa de um contrato que dure por décadas. A ele, na idade em que está, basta um acordo, qualquer acordo que dure cinco anos, declaração textual de Mosley semanas atrás, e que salve a face de Bernie e o livre de uma demissão e de processos bilionários. Os problemas do futuro que fiquem para os seus sucessores.





Do outro lado da mesa estão as equipes, lideradas, pelo menos formalmente pois há dúvidas de quão unidas de fato estão, pelo cada vez mais feudal Luca di Montezemolo, presidente de tantas coisas que ele talvez precise de um assessor apenas para lembrá-lo quantas são.

Kubica e Alonso na Turquia
Luca lidera as equipes naquilo que, em bom português, chama-se virada de mesa. Ele e seus companheiros assinaram contratos com Bernie, dando a ele amplos poderes e remuneração régia. Agora, as equipes querem retomar para si os 50% das receitas auferidas pelas empresas de Bernie e que ficam no bolso da CVC, conforme rezam os contratos em vigor. É direito das equipes espernearem, como têm feito, mas elas precisam respeitar os contratos em vigor e, acima de tudo, a Fórmula 1, categoria que projetou a marca e as vendas dos seus carros e dos produtos dos seus patrocinadores.

Vaidosas da própria força e animadas pela hipótese de abater um leão velho que teriam de tolerar por mais alguns anos, as equipes se encastelaram. Podemos organizar o nosso próprio campeonato, ameaçam elas. Podem sim mas isso significaria rachar a categoria, repetindo o que aconteceu na cisão Cart-IRL. As equipes perderiam de imediato uns US$ 2 bilhões em receitas repassadas por Bernie e ninguém pode dizer quanto tempo demorariam para repor este dinheiro - pense se você, leitor, compraria ingresso para assistir a dois GPs em Interlagos ou se a Rede Globo pagaria mais algumas dezenas de milhões de dólares para transmitir as corridas da nova categoria...

Ao mesmo tempo, Bernie e Mosley inevitavelmente naufragariam com seu campeonato esvaziado. E nós ficaríamos na mesma condição dos fãs da Cart, com um nada nas mãos.

Um fogoso pau mandado
Muitos dizem que a crise na Fórmula 1 é por “interesses políticos e comerciais”. É sim mas ela, mais e mais, se torna um crise de vaidade, de egos, de pontos de vista inamovíveis, amarrados por contratos complexos.

É por isso que Edu - eu próprio, no caso - está com medo.

Abraços

Eduardo Correa

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