E lá vamos nós de novo, copiando o título de Angeli e juntando rascunhos, esboços e anotações que nunca viraram colunas, colunas que viraram frases, parágrafos perdidos, historietas e links do youtube que, não fosse por este artifício, seguiriam perdidos em meu computador.
Abraços (EC)
Interlagos está para a Fórmula 1 assim como o hino do Bope ("Homem de preto,/qual é a sua missão?/É invadir favela/é deixar corpo no chão.") está para a música.
Há uma beleza rude em ambos, a beleza possível num chão de terra batida, a beleza de crianças maltrapilhas correndo atrás de uma bola de meia, a beleza que é capaz de brotar mesmo da opressão total, completa, monolítica, a beleza que é a prova final de que a vida sempre acha o seu caminho e supera até a pobreza e a violência mais abjetas.
Autódromos devem ser como as estradas que levam às nossas casas, disse uma vez Jacques Villeneuve. Pelo contraste chocante, Interlagos não poderia ser mais representativo dos caminhos que levam aos lares brasileiros
Numa entrevista do veterano engenheiro Frank Dernie à revista Motorsport, ele argumentava que as raízes da F1 são técnicas mas temia o poder atual dos profissionais de marketing que, seguindo seus instintos naturais, querem transformar a categoria num exercício mercadológico.
Insistir na falta de emoções da categoria, principalmente pela falta de ultrapassagens, é discurso próprio de profissionais de marketing, posto que a F1 sempre foi do jeito que se vê hoje: raras ultrapassagens, freqüente domínio de uma única equipe, motor, piloto. Os mais inteligentes e os mais ricos sempre ganharam. Isso é um fato incontestável, que vem desde a primeira corrida do primeiro campeonato. Resta a o amante da F1 se conformar.
Ruim? Sim mas pensem na alternativa, uma F1 controlada apenas por profissionais de marketing, preocupados com curvas de crescimento de vendas e lucros. Quero, sim, a contribuição desse pessoal, decisivo para trazer dinheiro para a categoria, posto que sou a favor dos pobres, não da pobreza. Mas quero, acima de tudo, que ela seja controlada por esportistas que compreendam e respeitem os fundamentos da F1.
Frase de Denis Jenkinson, decano do automobilismo, falecido em 1997, na mesma Motorsport: “Corridas são nada mais nada menos que um reflexo do mundo à sua volta. E o que estamos vendo é mais comércio e tecnologia. A Fórmula 1 está refletindo o mundo à sua volta: mais tecnologia, mais computadores, menos individualismo”.
Como os Estados Unidos, em imagem descrita por Lawrence Wright em “A sombra das Torres”, o estilo de pilotagem de Nigel Mansell podia ser “freneticamente lascivo, mas, também, confuso, envergonhado, incompetente e espantosamente ignorante”.
Pesou a maldição do Ramo de Ouro na decisão de Alonso abandonar a McLaren no final do ano passado?
Explico: uma vez de posse do Ramo de Ouro, o Herói do mito ancestral se torna o Rei e, a partir daí passa a ser caçado implacavelmente pelos pretendentes ao título até ser inevitavelmente morto por um deles. Todo campeão esportivo é vítima do mito. Sabe que seu reinado será transitório. Uma vez instalado como Rei, sabe que será contestado por atletas mais jovens, até o inevitável fim.
Descontando as menções mais trágicas, pode ter faltado a Alonso aquela coragem extra, aquela disposição geralmente doentia dos grandes campeões em se privarem da vida para conservar o seu título. Ao abandonar a McLaren, presumivelmente o melhor carro que ele poderia ter à disposição para lutar pelo seu reino, Alonso refugiou-se numa pré-aposentadoria mais confortável e segura.
Exercícios matemáticos mais ou menos inspirados têm demonstrado que Massa deveria ter terminado à frente o Mundial de 2008, não fosse a carrada de erros de que foi vítima este ano. Isso é verdade, ainda que a honestidade intelectual exija que se pondere na conta também os erros cometidos por ele na Austrália, Malásia e Silverstone.
Não embarco nessa de ficar elogiando o amadurecimento de um homem de 27 anos mas, sim! Massa demonstrou virtudes de sobra este ano, que justificariam um eventual título. Suas corridas no Bahrein, Turquia, Hungria, Valência e Brasil foram pinturas virtuosas; na Espanha, Mônaco, Canadá, França e Spa ele foi eficiente e esteve sublime, simplesmente sublime, nos treinos para o GP de Cingapura, a volta que lhe valeu a pole disputando com a largada na Hungria como seu ponto alto no ano.
Assim, podemos até dizer que foi uma injustiça ele perder o campeonato. Mas e daí?
Nelson Piquet e Ayrton Senna também perderam campeonatos que mereciam ter vencido – 80 e 89, sem esticar muito a discussão. É bobagem pensar em justiça na F1. Não há justiça na F1. Nunca houve.
As suspensões dos F1 são construídas em carbono principalmente por questões de aerodinâmica (fibra de carbono pode ser moldada de forma que permita canalizar melhor o fluxo de ar enquanto as barras de aço têm limitações severas de moldagem) e também porque pesam 25% menos do que as de aço. Em compensação, custam cerca de oito vezes mais caro.
Uma forma das equipes controlarem o estado dos motores – que não podem ser desmontados durante os GPs - é analisando o lubrificante. Usando instrumentos de altíssima precisão, consegue-se detectar partículas metálicas numa amostra do óleo. Dependendo do metal detectado pode-se estimar se as bronzinas ou os pistãos, por exemplo, apresentam desgaste excessivo.
Para produzir as análises, os fornecedores de lubrificantes levam minilaboratórios para os autódromos.
Um recorde de Sebastian Vettel que poucos lembram: ele foi o piloto mais jovem a ser multado pela Fia, por excesso de velocidade nos boxes do GP da Turquia de 2006. Ele contava então 19 anos e 53 dias.
“Um romance é a fuga do vivido para o sonhado ou fantasiado para se libertar da miséria que é o viver nessa medíocre realidade cotidiana, uma maneira de alcançar, mais além, no reino puro da palavra, beleza e imaginação, tudo aquilo que a vida real nos nega”, ensina Mario Vargas Llosa.
Para mim, o esporte é um romance, algo que me faz voar pra longe da realidade. Na Fórmula 1, em especial, um romance que projeta a coragem e o engenho humano, em que se desafia o bom senso e os elementos.
Não tem sido assim nos últimos anos. A “medíocre realidade cotidiana” – cupidez, ganância, desonestidade etc. - teimando em invadir um espaço que deveria ser de cavalheiros e técnicos astutos.
Àqueles que, como eu, não tiveram a graça ou a coragem de poder se aventurar pelo mundo, resta sonhar com ou escrever sobre o escuro, o alto, o profundo, o veloz, o desconhecido.
A Vida que temos é muito grande.
A Vida que veremos
A supera, sabemos, porque
É infinita.
Mas quando todo Espaço tiver sido contemplado
E todo Domínio revelado
A menor extensão do Coração Humano
O reduz a nada.