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| » » » 05.11.08 |
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| Os deuses galhofeiros |
05.11.08 |
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| Massa seguido por um Toyota |
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Por volta das 16h40 do domingo, o céu sobre Interlagos tornou-se incrivelmente escuro e ameaçador, prenunciando uma tormenta bíblica que, afinal, não se confirmou.
Era a provação final urdida pelos deuses do esporte contra Lewis Hamilton e Felipe Massa diante dos olhos de milhões de pessoas. Os deuses galhofeiros, entre desídias e orgias, iam jogar a sua cartada final, tão imaginativa e debochada como nas voltas finais do GP do México de 64, brincando impiedosos com os desígnios humanos. Como as nuvens do céu, os rumos da corrida e do campeonato foram deixados ao sabor do vento. Toda a tecnologia, todos os computadores, toda a vaidade e soberba da Fórmula 1 reduzidas ao seu devido lugar.
Foram os deuses que traçaram os caminhos da chuva, caída três minutos antes da largada, apenas para atrasar o término do GP e fazê-lo coincidir com nova pancada, esta decisiva para os rumos da corrida. Foram os deuses – só podem ter sido eles – que fizeram com que os BMW submergissem em Interlagos, depois de um campeonato onde pontuaram em todas as provas e que tinham a obrigação, pelo que mostraram ao longo do ano, de ajudar a separar Massa de Hamilton. Não ouso cobrar o mesmo papel de pilotos como Mané Webber e Nico Rosberg mas bem que poderia em relação a Nelsinho Piquet, dado o desempenho do seu companheiro de equipe – mas ele rodou tolamente nas primeiras curvas da corrida. Tivesse um ou dois destes pilotos corrido em Interlagos como correu no resto do ano e o título mudaria de mãos.
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| Nelsinho ficou na largada |
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Toque especialmente cruel dos deuses: insinuar Jarno Trulli na primeira fila do grid, como possível aliado de Massa, só para condená-lo a mais uma corrida risível. E passaram da ironia ao escárnio ao eleger o humilde Timo Glock como pivô do desenlace da prova, depois se ser protagonista de algum destaque na 1a e 2a baterias dos treinos e com bons momentos na corrida, como de resto foi toda a sua temporada, onde combinou momentos excelentes a desempenhos pífios, que lembram Massa em seu primeiro ano na categoria.
Diante de tantas e tão evidentes intervenções dos deuses do esporte, comentar, buscar nexos, traçar paralelos, fazer ligações e ilações sobre o GP Brasil de 2008 beira a tolice. É melhor se enredar na poltrona, cravar os olhos na TV e deixar o filme, que dizer, a corrida fluir. Mas comentar é o meu trabalho. Espero que vocês compreendam...
Qualquer crítica que se possa fazer à temporada recém encerrada de Massa se torna injusta e até mesquinha depois do irretocável desempenho do brasileiro dentro e fora da pista em Interlagos. Foi o Massa dos sonhos: infalível na pista, esportista refinado e elegante nas entrevistas. Mesmo sendo ultrademandado pelos repórteres e salvo por repetidas menções à cueca da sorte, não deixou escapar uma palavra reprovável, algo que há muito não se via num piloto brasileiro.
Os erros que cometeu por conta própria ficaram para trás, bem para trás, em relação aos que a Ferrari impingiu a ele. O mangueiraço em Cingapura e a quebra do motor na Hungria assomam em relação às corridas algo apáticas de Massa em Spa, Monza, China e Japão, onde a imprensa italiana o flagrou nervoso no dia do GP. Ganhou ao menos oito pontos de presente na França, Spa e China mas é bem menos do que perdeu na Hungria e Cingapura.
No entanto, há algo de estranho na temporada de Massa. As vitórias na Turquia e no Bahrein não combinam com a vitória em Valência e a boa corrida em Mônaco. Toda a combatividade na Hungria destoa da embaraçante incapacidade de segurar seu Ferrari em linha reta em Silverstone.
Coisas de Nigel Massa, parece-me a única explicação possível. Como Nigel Mansell, Massa é brilhante e estabanado, veloz mas sujeito a erros infantis, sofrido e exuberante, dramático e inesperado. Como o Leão, Massa parece ter uma dificuldade natural a amadurecer. Na falta disso, está aprendendo a conviver com as pressões inerentes a um protagonista da Fórmula 1 e não se nega que seus progressos tenham sido notáveis em 2008. Massa sugere um aluno aplicado e submisso sob rígido controle dos seus professores, que acreditam e investem no seu evidente talento. Massa não é maduro; está maduro e isso talvez explique as flutuações em seu desempenho GP a GP.
Como explicar as falhas da Ferrari? É fácil fazê-lo em relação a Kimi Raikkonen.
No verão europeu, creio que entre França e Inglaterra, a equipe alterou a geometria da suspensão dianteira de seus carros, tentando remediar o problema de aquecimento deficiente dos pneus. Foi uma má idéia. Kimi reclamou de forma discreta numa entrevista a AutoSprint. Daquele jeito songa-monga dele, disse sem precisar datas que “abbiamo cambiato um po´la macchina” mas a coisa não rolou bem. Aí a Ferrari deu um passo atrás - Kimi acha que foi em Spa – e as coisas melhoraram. A impressão confere com a tabela do campeonato. A equipe somou 96 pontos na primeira metade da temporada e cinco vitórias; na segunda metade, foram 76 pontos e três vitórias. Os pontos faltaram a Kimi já que Massa marcou praticamente a mesma quantidade de pontos na primeira e segunda metades da temporada.
Quanto aos erros cometidos pela Ferrari com Massa, para esses não tenho explicações.
O GP Brasil só alterou a classificação dos Mundiais naquilo que realmente importava: Kimi retomou o 3o lugar de Kubica e Alonso o 5o de Heidfeld, sublinhando o naufrágio da BMW.
Mais embaixo na classificação, viu-se Kovalainen condenado ao 7o lugar e resolvida a disputa Vettel x Trulli merecidamente em favor do alemão. Também ficaram iguais as paradas envolvendo Glock, Webber, Nelsinho e Nico e, ainda mais pra baixo, Rubinho, Nakajima e Coulthard, numa espécie de Fluminense e Vasco da Fórmula 1. No Mundial de Construtores, a BMW não conseguiu retomar o 2o lugar da McLaren, tampouco Williams e Red Bull conseguiram subir na classificação, desbancando a surpreende Toro Rosso.
Uma impressão final: Hamilton sai um pouco menor desta disputa. Algumas corridas atrás, provocado por um leitor, titubiei em apontar quem era o melhor, se ele ou Fernando Alonso. Hoje, não tenho dúvidas: Alonso na cabeça!
Abraços
Eduardo Correa
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