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| » » » 22.10.08 |
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| Os derradeiros pregos do caixão |
22.10.08 |
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No começo de outubro, Bernie Ecclestone se declarou “excitado” com a idéia de impor um motor único à Fórmula 1. Cada um fica excitado com o que bem entende desde que não atrase a largada e, neste quesito, dirigentes da categoria costumam fugir um pouco aos padrões normalmente aceitos.
Temo, porém, que Bernie não esteja excitado pelas possibilidades técnicas e esportivas derivadas de um motor único mas sim por concluir o processo de nascarização da F1 e bater os derradeiros pregos do caixão da categoria como a conhecemos, transformando-a definitivamente num instrumento de marketing e não de competição esportiva e eternizando nas próprias mãos e nas dos seus herdeiros todo poder e dinheiro gerados pela categoria, da mesma forma que a família France fez com a Nascar.
Bernie entende que, ao impor uma regra como a dos motores idênticos, estará limando em definitivo o poder das montadoras e grandes equipes. Ele as vê como rivais que, se não forem detidas, um dia acabarão por controlar a F1.
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| Bernie quer acabar com a diversidade de carros e motores na F1, como o McLaren Mercedes de Hakkinen, aqui em Mônaco 98 |
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A análise de Bernie está correta. Foi ele quem construiu a F1 moderna e, por isso, faz juz a controlá-la politicamente e ficar com a maior parte do dinheiro arrecadado junto a patrocinadores, organizadores de GPs e emissoras de TV – algo em torno de US$ 2 bilhões por temporada.
Bernie, porém, viu seu poder contestado nos últimos anos pelas montadoras. O problema não é propriamente o seu poder político mas o que isso significa em termos de divisão de receitas e lucros. As montadoras provavelmente nada têm contra a forma como Bernie conduz os negócios mas acham que ele já ganhou o bastante e preferem dividir entre si 100% do bolo. Elas ainda não se uniram o bastante e provavelmente não deram à questão grande prioridade mas um dia vão fazê-lo e, então, ninguém poderá detê-las.
Esta é a verdadeira briga. Nada a ver com redução de custos, enquadramento ecológico muito menos defesa das pequenas equipes, um argumento que, saído da boca de Bernie, beira o escárnio. Imaginem só! Ele preocupado com a STR, a Force India, a Williams...
A reunião de ontem, em Genebra, parece ter colocado o tema motor único em banho-maria. Natural: ninguém quer uma cisão. Não faz muito tempo, as montadoras ensaiaram um rompimento. A ameaça acabou contornada mas não foi esquecida por Bernie.
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| O Williams Honda turbo na França 87 |
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Aos 78 anos, ele não demonstra perda de apetite pelo poder muito menos querer deixar para os seus sucessores um problema incontornável. A crise financeira internacional parece ter-lhe caído no colo como desculpa para apertar o cerco contra as montadoras que, Bernie imagina, não se interessarão por disputar uma categoria monomarca. Tirando-as do caminho ou as enquadrando em uma ditadura regulamentar emanada dele, como acontece na Nascar, Bernie sonha com um reinado de cem anos.
A chave do reino é o motor único - não mais se falou em “motor equalizado”, típico produto de novilíngua, remetendo às “técnicas de interrogatório reforçadas”, expressão usada pelos americanos para definir tortura na Guerra do Iraque. Não se trata de uma proposta da mesma ordem da do rodízio de pilotos entre equipes e do campeonato decidido só por vitórias. Bernie, de fato, quer minar a livre competição técnica, um dos fundamentos da F1, e já impôs a ela pneus e eletrônica unificadas. Não duvido que, se pudesse, ditaria também um chassi único, como fez na GP2. Afinal, para quem aprecia Nascar, os detalhes técnicos são apenas um estorvo que quanto mais solapados forem, melhor. Notem a quantidade de vezes que Bernie, seu pau mandado Max Mosley e gente como Flavio Briatore usam o argumento, a mim especialmente revoltante, de que quem está nas arquibancadas ou diante da TV não liga para detalhes técnicos.
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| O Lotus Ford 8 cilindros de Andretti, em Mônaco 79 |
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A questão da contenção dos custos é um falso problema. Na vida ou na F1, ninguém pode viver muito tempo gastando acima das suas possibilidades. Gasta mais em pesquisas, túneis de vento, salários de pilotos e engenheiros e motorhomes quem pode gastar mais, graças à própria capacidade de captar recursos, da mesma forma que quem ganha mais pode ter uma casa maior e um carro mais caro.
A crise pode e provavelmente acabará com equipes do fundo do grid inclusive com as de algumas montadoras, o que inviabilizaria os GPs. Na reunião de ontem foi-se direto ao ponto: para afastar este risco basta derrubar exigências que o próprio Bernie criou ao limitar de forma draconiana o acesso à F1, proibindo as equipes de adquirir chassis. Naturalmente, ele não aventou a hipótese de conceder às equipes um pouco mais do que ganha.
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| O Ferrari 12 cilindros de Lauda, na França 77 |
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Que ninguém se iluda imaginando que Bernie guia-se por plano detalhado. Como ele imagina desvincular Mercedes e Fiat de McLaren e Ferrari? Será que conta expulsar da categoria Renault, Toyota, Honda e BMW? Quem ele convocaria para ocupar estas posições? As equipes da GP2? Seria a reinvenção da Fórmula 2, uma idéia de todo amalucada, uma tentativa de criar uma reserva de equipes capazes de assumir, num futuro próximo, lugares na Fórmula 1?
Creio que ele próprio não sabe. Bernie é um excepcional empresário, certamente um dos mais brilhantes do universo esportivo. Por isso mesmo, não é um estrategista refinado. Pelo contrário, é truculento, vaidoso, ousado, intuitivo e altamente falível. Confia plenamente no próprio felling e na força dos punhos. Não confia em um planejamento meticuloso. Ele tem uma boa idéia de onde quer chegar mas revê o caminho até lá todo o tempo e está disposto a negociá-lo.
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| O BRM 12 cilindros de Beltoise em Mônaco 73 |
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É a esperança que resta, além de contar com a força das montadoras e do público que ama a Fórmula 1 que mescla competição humana e tecnológica e não quer vê-la substituído por um circo para fronteiriço como as corridas da Nascar. Por mais que gente como Bernie, Mosley e Briatore acreditem, nós, a massa, não somos tão ignaros e sujeitos a manipulações. Perguntem aos organizadores da Cart e da IRL. A seu modo, eles acharam que podiam enfiar qualquer coisa pela goela obesa dos americanos.
Estão juntando os cacos até hoje.
Abraços
Eduardo Correa
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