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Explosão Cambriana 24.09.08


Trecho da pista de Cingapura
O furacão que varre o mercado financeiro internacional pode atingir a qualquer momento a Fórmula 1 que, como os leitores devem lembrar, vendeu os seus direitos comerciais primeiros para alguns dos bancos de investimento americanos que estão no centro da crise e, depois, os revendeu a um fundo de investimentos com sede em Luxemburgo chamado CVC, um fundo de private equity cuja propriedade se perde nos desvãos dos paraísos fiscais - não por coincidência, a sede do CVC é Luxemburgo - mas que, suspeito, tenha a fortuna de Bernie Ecclestone por trás.

Como o furacão atingiria a Fórmula 1? Simples: basta os investidores do CVC retirarem seu capital da empresa ou o fundo precisar de algumas milhares de dólares em crédito. Certamente há muitas outras formas de contágio que me escapam mas o perigo existe.

Para quem queria emoções na Fórmula 1...





O acesso aos boxes, com a roda gigante ao fundo
Em Uma decisão política, expus meu ponto de vista, de que os acontecimentos em Spa foram manipulados pelas autoridades esportivas - basicamente Bernie e seu pau mandado Max Mosley - de forma a amplificar o interesse em torno do campeonato.

Enquanto escrevia, me ocorreu um problema, digamos, técnico: como Bernie e Mosley arranjaram a parada toda? Formalmente, a decisão foi tomada por três comissários esportivos que, imagino, não têm privacidade suficiente para serem abordados por um ou outro e convencidos a tomar uma determinada decisão. Um pouco de classe, que diabos, ainda é necessária.

Pois a edição número 37 de AutoSprint, a revista italiana que faz a melhor cobertura do automobilismo internacional, matou a charada: desde o começo do ano, Mosley nomeou o inglês Alan Donnelly como supervisor do trabalho dos comissários esportivos que, também a partir desta temporada, passaram a ser diferentes de corrida pra corrida.

Cabe a Donnelly, um lobista profissional que não conta nenhuma experiência anterior em automobilismo, interagir com os comissários. Basta, portanto, que Bernie ou Mosley falem com ele para estabelecer uma linha direta com os comissários que, não é difícil imaginar, são escolhidos segundo seu grau de afinação com a Fia. Na Bélgica, por exemplo, um dos comissários era o queniano Surinder Thatthi, o mesmo que na recente assembléia da Fia liderou o voto unânime do continente africano pela absolvição de Mosley.





Os boxes da Toro Rosso
Informa a Wikipedia: a Explosão Cambriana aconteceu 550 milhões de anos atrás e nela houve uma súbita e até hoje inexplicada multiplicação da biodiversidade no planeta Terra. Num curto espaço, surgiram praticamente todos os filos animais conhecidos, inclusive os precursores de nós, vertebrados.

A Explosão Cambriana desperta a curiosidade dos cientistas, que questionam como a vida teria, após milhões de anos de estabilidade e pouca diversidade, subitamente gerado organismos tão diversos em um espaço tão curto de tempo, e também por que isto jamais voltou a ocorrer. Alguns cientistas chegam mesmo a especular que causas extraterrestres estariam por trás da Explosão Cambriana.





Outro trecho da pista Notem detalhe das torres de iluminação
Domingo retrasado, em Monza, vimos nascer a estrela de Sebastian Vettel, que poucos duvidam terá papel de relevo no futuro próximo da Fórmula 1. Tendo estreado no ano passado, Vettel junta-se aos recém-chegados Nico Rosberg, Robert Kubica e Lewis Hamilton, também apontados como favoritos a vencer vários Mundiais nos próximos dez ou quinze anos.

A pergunta que me veio à mente, ao tentar desenhar cenários futuros onde estes pilotos mais Fernando Alonso, Felipe Massa e Kimi Raikkonen teriam de encontrar espaço e condições para expressar os seus talentos, é: estaríamos vendo uma Explosão Cambriana na Fórmula 1, um período onde uma grande quantidade de pilotos diferenciados, futuros ganhadores de campeonatos mundiais ou com potencial para tanto, surgem sem um motivo aparente?

Para responder a esta pergunta, organizei a lista que se segue, onde pilotos especiais ou que se imaginavam especiais são listados pelo ano de suas estréias na Fórmula 1:

1950 – Ascari 1966 – Beltoise 1984 – Bellof
1950 – Fagioli 1966 – Ickx 1984 – Berger
1950 – Fangio 1967 – Servoz-Gavin 1984 – Brundle
1950 – Farina 1968 – Mario Andretti 1984 – Senna
1950 – Gonzalez 1969 – Cevert 1986 – Nannini
1950 – Taruffi 1970 – Emerson 1989 – Alesi
1950 – Trintignant 1970 – Peterson 1989 – Herbert (64)
1951 – Moss 1970 – Regazzoni 1991 – Hakkinen
1952 – Behra 1971 – Donohue 1991 – M Schumacher 
1952 – Collins 1971 – Jarier 1991 – Wendlinger
1952 – Hawthorn 1971 – Lauda 1992 – Damon Hill
1953 – Musso 1971 – Revson 1993 – Barrichello 
1955 – Castellotti 1972 – Depailler 1993 – Michael Andretti
1956 – Gendebien 1972 – Pace 1994 – Coulthard
1957 – Bonnier 1972 – Reutemann 1994 – Frentzen
1957 – Brabham 1972 – Scheckter 1995 – Magnussen
1957 – von Trips 1973 – Hunt 1996 – Fisichella
1958 – Graham Hill 1974 – Lafitte 1996 – J Villeneuve
1958 – McLaren 1975 – Jabouille 1997 – Ralf Schumacher
1958 – Phill Hill 1975 – Jones  1997 – Trulli
1959 – Gurney 1977 – Gilles Villeneuve 2000 – Button
1960 – Clark 1977 – Patrese 2000 – Heidfeld
1960 – Surtees 1977 – Tambay 2001 – Alonso
1961 – Baghetti 1978 – Arnoux 2001 – Montoya
1961 - Bandini 1978 – Keke Rosberg 2001 – Raikkonen
1961 – R Rodriguez 1978 – Piquet 2002 – Massa
1962 – Siffert 1978 – Pironi 2002 – Webber
1963 – Amon 1979 – De Angelis 2003 – Da Matta
1963 – Hailwood 1980 – Mansell 2006 – Kubica
1963 – Pedro Rodriguez 1980 – Prost 2006 – Nico Rosberg
1964 – Rindt 1981 – Alboreto 2007 – Hamilton 
1965 – Hulme 1983 – Boutsen 2007 - Vettel
1965 – Stewart 1983 – Johansson 2007 – Kovalainen 



O skyline de Cingapura
Relevando na contabilidade os pilotos já consagrados quando do GP da Inglaterra de 1950, vemos que, sim! Podemos estar presenciado uma Explosão Cambriana na Fórmula 1 pois nunca antes na história da categoria tivemos quatro futuros campeões estreando num espaço de dois anos - basta para isso que Kubica, Nico e Vettel confirmem as expectativas em torno deles, já que Hamilton não precisa confirmar mais nada.

Mas também não sei se é o caso de se falar numa explosão. Assinalei em vermelho na lista períodos de grande concentração na produção de talentos e eles já são sete na história da categoria. Em várias ocasiões, tivemos dois futuros campeões mundiais estreando no mesmo ano - caso de Alonso e Kimi, para não ir longe - e três futuros campeões despontando num intervalo de duas temporadas.

Assim, ainda que as temporadas 2006-2007 sejam boas apostas para sediarem uma Explosão Cambriana, nosso melhor candidato até o momento é o período que vai de 70 a 73. Encabeçados por Emerson Fittipaldi, quatro futuros campeões estrearam neste período, faturando sete títulos nos anos seguintes. De quebra, foram secundados por pilotos extraordinários como Ronnie Peterson, Clay Regazzoni, Carlos Reutemann e Moco.

Período mais benfazejo do que esse, só as temporadas 91-92, quando estrearam três campeões que dividiriam dez Mundiais. Mas entre eles estava Michael Schumacher, ele próprio uma Explosão Cambriana inteira...





Hamilton em Monza
Por que ocorrem as concentrações de estréia de talentos na Fórmula 1? Isso, como no caso da Explosão Cambriana, segue sendo um mistério. Quem sabe tenha a ver com fatores extraterrestres.

Na sexta-feira, direto de Cingapura, Ico manda as suas primeiras impressões sobre a nova pista do Mundial. Fiquem de olho!

Abraços

Eduardo Correa
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