Um momento antológico Kimi e Hamilton entram na chicane - Clique para ampliar
Foi política, só política. Política interesseira, vil e rasteira, como a que vemos atualmente nas ruas das cidades brasileiras.
Só a partir desta ótica pode ser entendida e justificada a punição aplicada a Lewis Hamilton no GP da Bélgica já que, como observou um leitor do GPTotal, a regra não diz que “o piloto deve ceder a posição e permitir que o outro abra três segundos de vantagem” (aliás, tudo ou quase tudo que direi aqui já foi, de alguma forma, antecipado pelos leitores, por Alê em sua coluna O bom e o marvado e por Ico em seu blog).
Sim porque ninguém pode afiançar honestamente que Hamilton não teve motivos para escapar por cima da chicane e que ele não devolveu a posição a Kimi Raikonnen. Estes fatos são tão solares que nem vale a pena discutir.
Não acredito por um minuto que a punição a Hamilton seja uma manobra de proteção da Ferrari pela Fia, rebatizada por gozadores ingleses como Ferrari International Assistance, como informa Ricardo Divila, ainda que seja verdade que não passou pela cabeça dos comissários punir Massa de forma equivalente pela manobra nos boxes de Valência.
A trajetória de Kimi justifica a decisão de Hamilton, de cortar a chicane - Clique para ampliar
A minha opinião é que, totalmente sintonizados com a nascarização da Fórmula 1, os comissários viram na manobra uma oportunidade imperdível para embaralhar o campeonato. Sabe como é: dois pontos separando Hamilton de Felipe Massa a cinco provas do final são muito melhores para o espetáculo do que oito pontos, como o resultado legítimo da prova propunha, ainda mais levando-se em conta que o inglês é favoritíssimo, como já admite a própria Ferrari, a abrir mais uns pontos de vantagem em Monza.
Os comissários agiram e vão continuar a agir em prol do espetáculo, este espetáculo tão caro a gente como Bernie Ecclestone e Flavio Briatore, que leva um número cada vez maior de categorias à abominável prática da inversão dos grids de largada, aos play offs, a pintar os carros com cores de times de futebol e até a botar garotões sarados para segurar as placas de posicionamento de largada, como se fez em Valência, o que levou o ex piloto Christian Danner a dizer que, se topasse com um desses na sua posição, preferia largar mais atrás.
Podem conferir em minhas colunas sobre o GP da China e Brasil: eu nunca critiquei o piloto da McLaren pelo que fez nestes dois GPs, que a grande maioria considerou como erros grosseiros seus.
O cara é dominado inteiramente pela doença incurável do impulso da vitória, como já vimos em Senna e Schumacher. Ao volante, doentes desse mal se recusam a abandonar a luta e se agarram à mínima possibilidade de ultrapassar o quanto antes quem vai à frente, não importa que em jogo esteja a vitória em um GP ou a disputa de um 7o lugar, como fez Schumacher com Rubinho em Mônaco 2005. Me perdoem, mas não posso recriminar ninguém por sofrer desse mal.
A recuperação de Hamilton sobre Kimi nas voltas finais em Spa foram mais uma demonstração da têmpera de campeão que o anima a desafiar o carro, os elementos e os próprios limites. Afinal, ele também estava com pneus pra seco, ele também tinha muita coisa em jogo – e se recusou a pilotar como um bundão, segurando o carro sobre pista molhada de um jeito que nenhum outro piloto é capaz de fazer. A aproximação dele e de Kimi da chicane é uma manobra antológica e especialmente bela, inclusive pela limpeza de movimentos e intenções.
Pra não dizer que meus elogios a Hamilton são gratuitos, queria lembrar que ele, em trinta GPs disputados, somou 185 pontos, uma média de 6,17 por corrida; Schumacher tem média de 5,5 pontos.
Mais: Hamilton venceu 27% dos GPs que disputou e só não pontuou em quatro deles.
1) Hamilton teria passado fácil por Kimi, mesmo deixando-o tomar a La Source na frente. Mas o impulso da vitória mais a aproximação da curva de forma ultracautelosa por Kimi levaram àquela manobra nervosa e muito bela.
2) Quem escarneceu das trapalhadas de Massa em Silverstone – o fiz, mas discretamente – vê, agora, que ele aprendeu com os próprios erros, ainda que emasculando seus dotes de pilotagem. Já Kimi descontou com juros as rodadas de Massa que, pelo menos, não bateu...
3) Ontem, a sangue quente, respondendo a um leitor, atribui a mais uma mancada da Ferrari o fato de Massa não ter parado para pneus de chuva.
No caos da transmissão de TV, fiquei sem saber quantos segundos Massa estava atrás dos líderes e à frente do 4o colocado e o que isso significaria se lhe fosse adicionado o tempo do pit stop. Agradeço a ajuda dos leitores que puderem esclarecer se havia uma possibilidade real da Ferrari virar o jogo em prol de Massa.
A alma penada sai da masmorra em que estava encerrada!
Anuncia-se para Monza o retorno ao padock de Max Mosley. O anúncio solene foi feito por Bernie Ecclestone em pessoa.
Estou dando risada até agora da tentativa da Ferrari em justificar a não nomeação de Massa como seu primeiro piloto.
Os colegas do Grande Prêmio bem que tentaram encontrar a lógica da declaração de Stefano Domenicali mas estava difícil mesmo. Dela, destaco o trecho "No meu ponto de vista, a situação em que estamos agora requer um planejamento, mas não podemos nos precipitar quanto a isso. Temos que trabalhar com algo que fará parte da nossa estratégia". Para íntegra da declaração, clique aqui.
Coerente pensar que tal contorcionismo verbal só pode redundar nas seguidas trapalhadas que temos assistido nos boxes da Ferrari. Melhor seria Domenicali assumir: olha gente, ainda é cedo pra uma definição. Massa já pisou na bola muitas vezes e Kimi é um diabo de um cara que ninguém entende e que pode muito bem ganhar os cinco GPs que faltam. Além disso, ganha uma nota preta e tem obrigação de mostrar serviço.
Mas o que significa, de fato, para Massa ser o primeiro piloto da equipe? Significa ter a facilidade de passar à frente de Kimi sem precisar brigar com ele, da mesma forma que vimos no GP Brasil do ano passado. É uma ajuda valiosa, sem dúvida, mas não sei até que ponto lhe pode ser útil, já que Massa tem andado na frente de Kimi, com poucas exceções, desde o GP do Bahrein.
Está entrando em operação hoje, em Genebra, o Grande Colisor de Hádrons, a maior máquina já construída pelo homem, ao custo de US$ 10 bilhões.
É a coroação do império dos engenheiros, o mesmo império que move a Fórmula 1 e certamente não uma coincidência que, num mundo que pode investir tal quantia em ciência pura, se gaste tanto para projetar e fazer correr um Ferrari e um McLaren.