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Home » Colunas » Eduardo Correa » 11.08.08
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Dercy Piquet 11.08.08


Me entristeceu e muito ver Nelson Piquet expressando bobagens e grosserias no vídeo enviado pelo amigo leitor Cleiton, de Poço de Caldas, e que vai reproduzido abaixo.



Não sei quando e para que o vídeo foi gravado e agradeço esclarecimentos. Aliás, pensando bem, melhor nem saber. Dá para perceber que é coisa recente e que um editor esperto juntou todas as declarações ditas polêmicas de Piquet e pediu a ele que as repetisse, sem temer o uso de palavrões. Não se trata, portanto, de coisa inédita. Todos aqui já ouviram falar das declarações de Piquet sobre a mulher de Nigel Mansell, por exemplo. Poucos ou ninguém havia ouvido isso da própria boca de Piquet.

Os leitores que me acompanham no GPTotal sabem da minha profunda admiração por ele. Cheguei a escrever uma coluna em 16/8/2002 que deveria ter se chamado "Eu queria ter sido este cara". Os leitores sabem também que espero dos grandes esportistas liderança, exemplo e modelo para os mais jovens. Pode parecer bobagem minha nestes tempos debochados mas é com atitudes assim que se forja o caráter de uma nação.

Piquet, um rebelde nato, que cresceu fugindo do berço de ouro que seus pais lhe deram, que formou boa parte do seu caráter numa oficina mecânica, um dos ambientes mais dissolutos que se possa imaginar depois de um bordel - com o devido respeito aos mecânicos -, obviamente se compraz em expressar inconformismo e total indiferença ao establishment. Imagino que ele definiria este sentimento com uma frase do tipo "estou c… pro mundo".



Bom. Piquet certamente não sabe disso mas ele se expressa dessa forma porque, quando jovem, era rebelde, ignorante, mal criado e tinha uma evidente dificuldade de socialização, um tipo de fobia social em grau moderado. Lembram-se dele gritando e fugindo correndo da imprensa após conquistar o seu primeiro Mundial, em Las Vegas 81? Era o sociofóbico reagindo descontroladamente à pressão da imprensa e aos puxa-sacos inevitáveis em situações como aquela.





As limitações de Piquet acabaram repercutindo bastante na sua carreira como piloto. Ele nunca conseguiu, por exemplo, negociar um bom contrato pra si. Na Brabham, foi impiedosamente explorado por Bernie Ecclestone, a ponto de precisar negociar carros usados arrematados em leilões pra sobreviver. Da Williams, suponho que tirou pouco dinheiro e, pior, não garantiu o privilégio de ser primeiro piloto da equipe, algo que ele devia intuir extremamente necessário para bater um piloto hipermotivado e veloz como Nigel Mansell. Aquele papo de que Piquet tinha uma garantia verbal de que seria o primeiro piloto da equipe e que o acidente com Frank Williams mudou toda a situação nunca me convenceu.

Da Lotus, Piquet pode ter arrancado bastante dinheiro mas, em compensação, se auto-condenou a pilotar uma cadeira elétrica, mesmo que empurrada pelo melhor motor. Na Benetton, suponho que correu em condições ditadas por Flavio Briatore e com as quais ele se limitou a concordar, sob risco de ficar sem um bom carro. E quando foi para Indy, negociou com a equipe Menard, um bando de picaretas que, correndo com motores Buick, nunca levou ninguém a lugar nenhum…

Quer saber o que um piloto menos boquirroto e mais afeito ao complexo teria feito? Não teria deixado a Brabham se envolver com a Pirelli em 84, desperdiçando uma enorme chance de um novo título. Na Williams, um piloto assim, teria enquadrado Mansell e depois lutado contra o rompimento da equipe com a Honda ao final de 87, preservando para si um carro suficientemente competitivo para fazer frente ao poderia da McLaren, sem falar que ele poderia ter influenciado a Honda contra a sua associação com Ron Dennis.

O leitor acha difícil para um piloto influenciar as coisas desta maneira? Pois saiba que Ayrton Senna, Alain Prost e Michael Schumacher o fizeram, várias vezes. E Nigel Mansell quando se decidiu pela Indy, arranjou vaga na melhor equipe da categoria.

Tivesse superado as suas limitações e Piquet poderia, sem muito sacrifício, ganhar mais uns dois Mundiais. Suponho que ele possa responder com um "estou c… Já ganhei três. Pra que ganhar cinco?". Bom. Se não faz diferença pra ele, fez muito diferença pra mim e pra milhões de fãs no mundo.





Com o passar do tempo, o extraordinário sucesso profissional, a riqueza (que imagino em boa parte dissipada em pensões alimentícias e naquele tal iate dos anos Lotus) e a idade, as coisas começaram a se apaziguar dentro da cabeça de Piquet. Ele, no entanto, preferiu adotar com entusiasmo o papel de boquirroto que o levou a gravar o vídeo que deu origem a esta coluna.

Mas este, é bom que se diga, é apenas um papel que Piquet se dispõe a desempenhar atualmente. Na vida real, depois de encerrada a sua carreira nas pistas, ele se mostrou um empresário incrivelmente determinado e responsável, que construiu sozinho, até onde sei, um pequeno império, se tornou pai e avô prestimoso e desenvolveu com Nelsinho Piquet uma relação, até onde se sabe, extremamente inteligente e madura.

Ou seja. A boquirrotice é perseguida por ele já que, pra valer, Piquet não deve falar tanta besteira assim. Tanto pior para nós, fãs dele, que não podemos privar da sua intimidade. A nós, sobra apenas o mau exemplo, as grosserias próprias de uma Dercy Gonçalves destemperada. Ela, pelo menos, tinha a desculpa da idade avançada.

Melhor, muito melhor, é pensar em Nelson Piquet apenas como o tricampeão mundial que venceu alguns dos campeonatos mais difíceis jamais disputados, sem contar com o melhor carro - 81 e 83 - ou, quando o teve em mãos - 87 – tendo de bater pela argúcia e determinação um piloto que, naquela temporada, era mais rápido do que ele - e falava muito menos.



Uma boa semana a todos

Eduardo Correa
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