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Cabeça, irmão, cabeça 03.08.08
Com gesto rápidos e terminantes, a pérfida mão do destino puniu da maneira mais dura a corrida extraordinária de Felipe Massa, hoje, no GP da Hungria, enquanto premiava a prova apenas ordinária de Heikki Kovalainen, como se, num capricho, quisesse apenas lembrar que um piloto deve lutar sempre para ter nas mãos o melhor carro.
Hamilton


Não satisfeita, a mesma mão do destino ainda teve tempo para estapear Lewis Hamilton - ele teve algum outro pneu furado este ano? O furo precisava acontecer metros depois da entrada dos boxes? -, jogando-o para o fim do pelotão, enquanto promovia Kimi Raikonenn a um pódio de todo imerecido.

Informa-se que Massa caiu em prantos ao retornar aos boxes. Espero que ele tenha se recuperado logo e engolido calado a dor que deveras sente, não se permitindo autocomiseração. Campeões não têm pena de si próprios.

Por vias cruéis para alguns, dadivosas para outras, o GP da Hungria reafirma que o campeonato deste ano, assim como o de 2007, na falta de uma hegemonia, acabará sendo decidido de maneira fortuita, num golpe do destino. A quem ele premiará quando tudo acabar?





A largada de Massa em Hungaroring foi excepcional.

A manobra foi semelhante à inesquecível ultrapassagem de Nelson Piquet sobre Ayrton Senna em 86 (confiram, inclusive em vídeo, na coluna do Ernesto Rodrigues de 1/8/2008). Lá como cá, foi por fora, graças a uma freada de artista, os pneus dianteiros travados com graça e elegância, na medida certa para não feri-los em demasia.

Diferente porém o nível de defesa de Senna e Hamilton. O brasileiro defendeu-se como um bastardo, forçando Piquet pra fora da pista na fase de frenagem. Hoje vimos a mais olímpica das disputas. Massa e Hamilton mantiveram as suas trajetórias em termos bastante seguros, dando espaço de sobra um para a manobra do outro, valendo mesmo o arrojo de Massa que, inclusive teve de improvisar em sua trajetória. Ele demonstrou ter a intenção de posicionar o seu Ferrari por dentro na freada mas acabou preso atrás de Hamilton. Foi então que decidiu ir por fora, construindo uma largada equivalente à da Espanha 07, quando disputou com Fernando Alonso a freada da primeira curva de forma até mais selvagem do que hoje.





De Silverstone a Hungaroring, passando por Hockenheim, tivemos no arco de três corridas uma enciclopédia de pilotagens de Massa. Totalmente pateta na Inglaterra, insípido e inodoro na Alemanha, excepcional hoje.

O que deu no brasileiro para pilotar tanto na Hungria?

Não foi o carro, com certeza. Sem medo de errar, diria que, hoje, a correlação de forças entre Ferrari e McLaren era muito parecida à que vimos na Alemanha. Duas provas: o fato de Massa não ter conseguido abrir vantagem significativa para Hamilton - quatro míseros segundos na primeira bateria da corrida - e Kimi ter chapinhado na lama durante quase toda o GP, só conseguindo ser mais rápido sabe-se lá porque quando equipou seu carro com os temidos pneus macios.
Massa


Mudou Massa, então? Sim e só pode ter sido alguma coisa na cabeça dele. Algo se acendeu, gerando uma atitude mental que o fez intuir a possibilidade de uma ultrapassagem logo na largada e depois um nível de concentração e determinação que não permitiu qualquer reação de Hamilton.

Teriam sido pressão da equipe ou algum tipo de autodeterminação, um impulso a partir do momento em que sentiu que havia arrancado melhor, o mesmo tipo de impulso que Ayrton Senna disse ter sentido naquela largada em Donington 93, quando foi empurrado para fora da pista por Michael Schumacher?

Há coisas na cabeça dos grandes esportistas que não se explicam. Massa, hoje, teve uma explosão mental que fez toda a diferença. Se ele quiser depender menos da mão do destino no futuro, precisa entender o que aconteceu e se tornar, na medida do possível, capaz de reproduzir o estado mental que o levou a uma corrida antológica.





Da mesma forma, o desempenho sofrível de Kimi desde o GP da França só pode ser coisa da cabeça dele.

Verdade que Kimi não foi tão mal assim no GP da Inglaterra mas nunca que ele conseguiria disputar com Hamilton. Como explicar, porém, o seu desempenho na Alemanha (lá, Massa ao menos pode justificar-se alegando problemas de freio; Kimi nem isso) e principalmente nos treinos na Hungria? Kimi estaria desmotivado ou passando por uma fase de aparente privação de sentidos denunciada por aqueles olhinhos vácuos?

A resposta está na cabeça, irmão, só na cabeça.





A outra novidade no pódio, hoje, foi Timo Glock, piloto pelo qual desenvolvi traços de simpatia depois do seu bom desempenho no GP da Austrália, onde corria para pontuar quando bateu seu Toyota na fase final da corrida, um acidente assustador porque, fato raro na categoria, pode-se ouvir claramente os ruídos da borracha sendo arrastada e o metal rilhando o asfalto de Melbourne.

Desde então, tenho prestado atenção a Glock, torcendo discretamente por bons resultados, assim como torci no passado por pilotos como Damon Hill, Ralf Schumacher e Mark Webber. Glock não me ajudou muito - até agora. Com o resultado na Hungria já posso dizer que o alemão não está fazendo feio frente a Jarno Trulli, 22 pontos a 13 depois da corrida de hoje.

Talvez o segundo lugar ajude Glock a encontrar a atitude mental correta, levando-o a errar menos e abrir dentro da fraqueza geral da Toyota os espaços possíveis que lhe garantam, ao menos, mais um ano de contrato.





Nelsinho Piquet voltou a pontuar. É a terceira vez nas últimas quatro corridas. Não pode ser uma coincidência, tanto mais que, no período, ele marcou mais pontos do que Alonso, o grande perdedor da temporada, incapaz que foi de garantir para si o melhor carro.

Piquet tem, no momento, cinco pontos menos do que o espanhol, o que é um resultado encorajador, mesmo considerando que a cabeça de Alonso anda distante do campeonato deste ano.





Valente BMW!

Só com os resultados de hoje a McLaren conseguiu deixa-la para trás no Mundial de Construtores. Hungria marca também a interrupção de bons resultados conseguidos por Nick Heidfeld, dois segundos lugares e um quarto nas últimas quatro corridas.

Destaque mais do que negativo para a Williams, que conseguiu a grandeza de um mísero ponto nos últimos cinco GPs.





A estética automobilística ou o que resta dela na Fórmula 1 contemporânea é a grande vítima deste domingo, graças ao novo bico do McLaren, uma versão piorada do desenho urdido por mentes pervertidas da Honda.

Na equipe japonesa, o desempenho fóssil na temporada tem sido o castigo merecido. Mas ver o McLaren triunfar com tamanha abominação é de desacorçoar qualquer alma pia que ainda procure por beleza nos carros da categoria.

Uma boa semana a todos

Eduardo Correa
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