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| » » » 30.07.08 |
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| Eu quero uma hegemonia |
30.07.08 |
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| Fangio e seu Alfa em Spa 50, a primeira hegemonia da F1 |
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Não dá pra disfarçar: ando bem desanimado. As mil e uma peripécias do campeonato 2008 pouco têm sensibilizado. Meu desânimo se reflete na edição do GPTotal. Acho que isto acontece porque falta hegemonia a Fórmula 1 atual.
O amigo leitor sabe bem que a Fórmula 1 é uma categoria de hegemonias. Alfa Romeo, Ferrari-Ascari, Fangio, Mercedes, Cooper, Lotus-Clark, Brabham-Repco, Ford Cosworth, Lauda-Ferrari, Lotus-Andretti, McLaren-Porsche, Williams-Honda, McLaren-Honda-Senna, Williams-Renault, McLaren-Mercedes, Schumacher- Ferrari e Alonso-Renault, esta encerrada em 2006, quando o espanhol iniciou a sua infeliz aventura na McLaren. Poderia resultar numa duradoura nova hegemonia; produziu apenas um pesadelo.
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| Fangio, Moss e a Mercedes dominaram em 54 e 55 |
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Desde então, a Fórmula 1 mergulhou num raro vácuo de hegemonias. A Ferrari, a despeito das juras da imprensa especializada, não conseguiu, em 2007 ou 2008, produzir um carro majoritariamente superior, tampouco seus pilotos revelaram-se matadores a ponto de pulverizar os adversários, comendo poeira eventualmente até da dupla da BMW e de Nelsinho Piquet. O título de Kimi Raikonnen no ano passado foi tudo, menos a expressão de uma superioridade larga e indiscutível sobre a oposição; Kimi pode chegar ao bicampeonato neste ano, assim como Felipe Massa pode trazer o título para o Brasil mas, de novo, será produto de um conjunto de circunstâncias que nada têm a ver com uma hegemonia.
Ao mesmo tempo Lewis Hamilton e a McLaren estão muito distantes de monopolizar o campeonato a seu favor. A dupla carro-piloto começa a segunda metade do campeonato à frente da Ferrari e da BMW mas quem pode garantir que o simpático inglês continuara acumulando vitórias na Hungria e corridas seguintes?
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| Clark e a Lotus dominaram boa parte dos ano 60 |
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Este é o problema da falta de hegemonia. Qualquer previsão fica muito mais difícil, tanto mais para nós, jornalista, que vivemos de prever o futuro.
Sem uma hegemonia clara à mão, encaramos o dia-a-dia - e olhe lá. Os engenheiros da Ferrari são hábeis o bastante para neutralizar a superioridade observada nas duas últimas corridas, devolvendo a Kimi e Massa a vantagem de que gozaram na França. Mas, da mesma forma, a turma da McLaren pode tirar mais algumas cartas da manga e preservar a superioridade que Hamilton esbanjou em Silverstone e Hockenheim.
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| Emerson beneficiou-se da hegemonia imposta pelos motores Cosworth |
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Em outras condições, diante de uma hegemonia tradicional, seria mais fácil arriscar um vencedor para Hungaroring, domingo que vem. Aquela Mônaco sem casas é uma pista que exige carros com muita asa, que entram nas curvas de forma mais precisa e "redonda", uma característica que agrada mais a Kimi do que a Massa, amigo das frentes mais soltas, das freadas em linha reta, das trajetórias em curva mais "quadradas", a exigir sensibilidade do piloto no acerto da trajetória, volta a volta.
Logo, seria mais lógico cravar Kimi como favorito à vitória em Hungaroring. Mas como nem ele nem a Ferrari estão perto de dominar a temporada, tudo se embaralha, sendo possível até uma reação da BMW.
E em Valência? E em Monza? A pista mais veloz da temporada, onde os aerofólios e apêndices aerodinâmicos são um estorvo, daria ampla vantagem a Massa. Em compensação, o acerto de suspensão do Ferrari não favoreceria a equipe pois o carro, se reagir como o do ano passado, vai mal em freadas sobre zebra…
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| Piquet venceu em 87 tirando proveito da superioridade do Williams Honda |
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Eu e meus colegas do GPTotal vivemos de catar estas migalhas de informação, reunidas, no meu caso, que não vou aos autódromos, penosamente na imprensa nacional e internacional, e transforma-las em textos de qualidade que antecipem tendências (sabem como é: na tradição judaica, segundo Isaac Singer, poeta é o mesmo que profeta…). Mas com a falta da hegemonia, não podemos fazer qualquer previsão minimamente defensável. Por mais dados que empilhemos, por mais conjecturas e simulações, falta o fio condutor. Tudo resta impreciso, tudo se torna vago. Acasos demais pontuam a Fórmula 1 atual. A grande quantidade de erros estratégicos e táticos cometidos pelos pilotos e suas equipes apenas reforçam este cenário.
Se não posso prever, desanimo. Tenho quase certeza de que é esta a origem do meu baixo astral em relação à categoria, um desânimo que acaba respingando no site e que talvez tenha provocado críticas recentes de alguns leitores, pedindo mais histórias, mais detalhes, mais informações técnicas nas páginas do GPTotal.
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| Senna ganhou seus três títulos com um McLaren Honda |
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Tendo a concordar ou discordar dos leitores conforme o meu humor. Olhando em retrospecto, acredito que as colunas de caráter histórico continuam fortes no GPTotal. Eu mesmo tenho procurado privilegia-las em detrimento das análises políticas e pontuais do campeonato. Creio que, em linhas gerais, o mesmo vale para as colunas da Alê, Panda, Roberto e Ico, este, em especial, concentrando visivelmente as suas observações sobre a temporada no blog que pilota com tanta competência. Assim, tendo a não dar razão às queixas que protestam mais história.
Concordo, porém, com os leitores que apontam o nosso desinteresse pelos detalhes técnicos e pelo regulamento do ano que vem, que promete mudanças radicais, a começar pelo kers e por uma dramática simplificação da aerodinâmica, que deixaria os carros parecidos com os da finada Fórmula Cart.
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| A McLaren Mercedes dominou o cenário de corridas em 98 e 99 |
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Disso, de fato, em me dissociei, envenenado desde logo por mais uma intervenção castradora da liberdade de ação dos engenheiros, acreditando que tudo poderia ruir junto com o mandado de Max Mosley. O inglês sobreviveu à tempestade, já se compôs novamente com Bernie Ecclestone e parece que nada vai impedi-lo de enfiar o novo regulamento pela nossa goela abaixo. Uma perspectiva nada animadora, tanto mais se resultar numa dilatação da falta de hegemonia na Fórmula 1.
Ver a categoria sem elas me sugere mais um rompimento indesejado com o passado. Eu gosto de hegemonias na Fórmula 1 e anseio pela volta delas.
Abraço a todos
Eduardo Correa
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