Frank Williams disse recentemente – li em Motorsport – que todo grande piloto é um bastardo, sendo este o traço em comum a todos eles.
Suponho que por bastardo Frank entenda aquele piloto totalmente dominado pelo impulso da vitória, a tal ponto que a coloca acima das relações pessoais, dos contratos, até mesmo do próprio regulamento, alguém que carrega uma espécie de defeito mental, que torna impossível a ele sequer admitir a hipótese de perder, não importa se um GP ou uma reles disputa pelo 15o lugar, alguém que não respeite limites ou margens de segurança e que, dentro do carro, perca o controle dos próprios atos.
Dois exemplos evidentes de bastardia pura nas pistas, ainda que os pilotos citados não possam nem de longe ser alinhados entre os grandes do automobilismo.
Monza, 1993. Metros antes da bandeirada, Christian Fittipaldi tenta ultrapassar seu colega na equipe Minardi, Pierluigi Martini, e ganhar a 7a posição no GP da Itália. Este o vigia pelo retrovisor e na hora em que Christian opta por ir pela direita, Martini dá uma guinada no volante, barrando o caminho do companheiro. Veja o efeito da bastardice no vídeo.
Outro exemplo, mais recente: Magny-Cours, domingo passado. Na volta final, Heikki Kovalainen ataca Jarno Trulli. Em jogo, o 3º lugar no GP da França. Trulli defende-se estreitando o caminho e forçando o finlandês para fora da pista. Foi uma manobra “suja” ainda que não necessariamente ilegal. Imagino que tenha sido da mesma natureza da que Trulli executou pra defender a sua posição no Canadá 2007, quando atacado por Robert Kubica. Na França, dado a qualidade do acostamento, Kovalainen saiu-se ileso; no Canadá, o acidente quase matou Kubica. No vídeo a seguir, muito legal, o aperto de Trulli em Kovalainen aparece no final.
Naturalmente Martini e Trulli não fizeram tais manobras por mal; eles simplesmente não raciocinam desta maneira. Atacados, manobram o carro instintivamente e pronto. As conseqüências descolam-se dos seus atos, como se uma coisa nada tivesse a ver com a outra. Eu disse que é uma espécie de defeito mental.
Definida a bastardia nas pistas, interessa-me explorar o ponto de vista de Frank Williams. Ele está correto? Todo grande piloto é um bastardo?
Comecemos nomeando quem, indiscutivelmente, integra a lista dos grandes pilotos da Fórmula 1: Fangio, Ascari, Moss, Brabham, Graham Hill, Clark, Stewart, Emerson, Peterson, Lauda, Andretti, Villeneuve, Piquet, Prost, Senna, Mansell e Schumacher.
Analisando esta lista, não podemos dar razão a Frank. A maior parte destes pilotos não foram bastardos nas pistas. Ok: Stewart talvez tenha jogado menos limpo na África do Sul 73, quando venceu a prova graças a pretensas ultrapassagens feitas em bandeira amarela, sob as vistas grossas dos fiscais de pista. Emerson, por sua vez, pode ter exagerado nas pressões contra Jody Scheckter depois do acidente entre ambos na França 73 e contra Riccardo Patrese em Monza 78, responsabilizando-o pelo acidente que cobrou a vida de Peterson. Lauda não foi um parceiro comercial muito confiável mas pode-se argumentar que estava apenas lutando pelos seus direitos. Sobre Piquet, é verdade que foi extremamente deselegante fora das pistas com Mansell no anos Williams, chegando a ofender a mulher do companheiro mas, nas pistas, Piquet nunca teve uma atitude irresponsável ou próxima dela.
Assim, casos indiscutíveis de bastardia entre os grandes só mesmo Prost, principalmente pela forma como conduziu sua convivência com Senna a partir de 89, e Schumacher, dono de um repertório vasto e florido, que nem as incontáveis vitórias suavizou.
Senna? Humm. Um caso delicado, verdadeiramente limítrofe. Jogou duro com os companheiros de equipe sempre que se sentiu minimamente ameaçado. Nas pistas, reagiu de forma temerária às provocações de Prost. Culpo-o menos por Japão 90 do que por Portugal 88, quando fechou violentamente Prost em plena reta dos boxes. Deixo ao critério dos leitores colocar ou não Senna no grupo dos bastardos. Eu, em respeito à carreira dele, o deixo de fora.
Alguém pode argumentar que muitos dos citados não-bastardos pouco tiveram de conviver com companheiros de equipe do mesmo nível, podendo assim sentirem-se confortáveis dentro das próprias equipes. Mas há muitas exceções à regra. Por exemplo:
- a convivência entre Fangio e Moss na Mercedes em 55, quando desenvolveram grande amizade e respeito mútuo. O segredo foi Moss se auto-enquadrar como um aprendiz, numa atitude inteligente e que provavelmente rendeu ao inglês a sua primeira vitória em GP, na Inglaterra 55, uma vitória que muitos suspeitam lhe foi cedida por Fangio, sem que este nunca tenha admitido que facilitou as coisas ao companheiro de equipe.
- Brabham - dono da própria equipe - viu o seu companheiro Denis Hulme, roubar-lhe a chance de um quarto título mundial em 67. Verdade que Hulme mudou de equipe no ano seguinte mas não me consta que tenha sido por brigas com Brabham.
Na Lotus, Clark teve de conviver com Graham Hill em 67 e 68, da mesma forma que Emerson, campeão na temporada anterior, teve de aceitar Peterson como companheiro em 73, o mesmo valendo para Andretti em 78. Em todos os casos, a convivência forçada não mudou os laços de amizade familiar entre os pilotos, o que se explica principalmente pelos traços de personalidade e senso de medidas de cada um deles.
E dentre os pilotos em atividade, há bastardos?
Nos fixando nos quatro pretendentes ao título - Kimi, Massa, Hamilton e Kubica - não se vê nenhum caso grave, ainda que se possa intuir alguma maldade por trás daqueles olhinhos desprovidos de imaginação da dupla da Ferrari.
Alonso? Vencedor na Renault, passava batido. No ano passado, não se intimidou em baixar o nível quando pegou um osso duro pela frente. Diria que ele tem boas condições de se tornar um novo Prost, rápido mas leonino nas relações com a equipe, diabolicamente eficiente na pista mas desprovido de qualquer senso de limite nas relações com os concorrentes.
Dada a minha simpatia por Alonso, torço para que ele, ao invés de seguir a trilha de Prost, siga a de Piquet, pois você pode ser um bastardo nas pistas mas nem por isso precisa ser um FDP na vida.