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Dottore Farina 18.02.08


Dottore Farina
Se você acha, depois de ler o que eu e vários colegas escrevemos aqui no GPTotal, que o automobilismo do passado era um ambiente habitado exclusivamente por cavalheiros, você devia conhecer melhor Nino Farina, primeiro campeão do Mundial de Pilotos da Fórmula 1.

Quem conheceu Farina - aliás, dottore Farina, pois ele era formado em Direito - o chamou ora de louco ora de coisa pior.

Dono de um estilo literalmente violento de pilotagem, Farina não tinha consideração pelos outros. Discreto fora das pistas, dentro delas tornava-se perigoso, combinando agressividade extrema, um sentido doentio de superioridade e indiferença pelos adversários, pesando sobre ele a acusação de ter provocado dois acidentes fatais, forçando seus adversários para fora das pistas em provas disputadas ainda nos anos 30. “Ele era um bastardo nas pistas”, disse Stirling Moss. “Se ele estava ultrapassando você, menino, era bom ter certeza de não ficar no caminho ou ele te empurrava para fora”.

No GP de Deauville, em 36, Farina jogou Marcel Lehoux para fora da pista e fez o mesmo, dois anos mais tarde, em Tripoli, com Lazlo Hartmann. “Naquele tempo, havia uma certa tolerância a manobras sujas e todos nós, às vezes, lançávamos mão delas. Mas Farina abusava", disse Moss. "Ele era um combatente sobrevivente reclamando da incompetência das suas vítimas e ninguém discordava de que ele havia causado ambos os acidentes fatais".

Farina com Alfa em Silverstone 50
Quando da morte de Lazlo, as autoridades atribuíram a causa do acidente a "um golpe de vento", que teria feito com que o piloto perdesse o controle do carro mas testemunhas garantiram que o problema foi apenas Lazlo, correndo com um carro muito menos veloz do que o de Farina, não ter saído da frente do italiano rápido o bastante.

Schumacher who?





Com Ferrari em Nurbirgring 53, sua última vitória na F1
Farina nasceu em 1906 numa família abastada de Milão, sendo neto de Pinin Farina, uma referência ainda hoje em design automobilístico.

Em sua corrida de estréia, no começo dos anos 30, ele sofreu um acidente sério o bastante para segura-lo numa cama de hospital durante várias semanas. Ao retornar às pistas, tornou-se uma espécie de discípulo de melhor piloto da época, Tazio Nuvolari, o único por quem demonstrou reverência.

Em 36, Farina passou a correr pela Ferrari, tornando-se o primeiro piloto da equipe em 38, mas nada pode fazer neste e no ano seguinte diante da superioridade acachapante da Mercedes e da Auto Union.

Depois da II Guerra, ele era reputado com um dos melhores senão o melhor piloto em atividade, de forma que não houve surpresa quando foi convidado a integrar a equipe Alfa Romeo de Fórmula 1 em 1950, ao lado de Juan Manuel Fangio, entre outros. Desde logo, ficou claro que a Ferrari e demais equipes não tinham condições de competir contra a Alfa e, na equipe, apenas Fangio podia fazer frente a Farina.

Eles dividiram entre si as vitórias nos seis GPs da temporada. Farina ganhou Silvertone – o 1o GP e onde também marcou a pole -, Suíça e Monza, bateu em Mônaco, logo na volta inicial, e quebrou na França. Fangio, por sua vez, ganhou fácil em Mônaco – o 2o GP –, Spa e na França, tendo quebrado em Silverstone, Suíça e Monza. Com três vitórias para cada um, o desempate se deu pelo 4o lugar de Farina em Spa.



Em 51, Farina rivalizou com Fangio até o meio da temporada. Depois de três das sete provas, eles estavam empatados com 15 pontos. Nas quatro provas seguintes, porém, coincidindo com o crescimento da Ferrari, Farina marcou apenas 8 pontos enquanto Fangio fazia dois segundos lugares e uma vitória, num total de 22 pontos. Assim, Fangio terminou o ano como campeão tendo Farina como 4o colocado.

Em 52, o dottore voltou para a Ferrari e foi facilmente superado pelo companheiro de equipe, Alberto Ascari, que ganhou seis dos sete GPs da temporada. Dada a fraqueza geral da oposição, Nino não teve dificuldades em ficar com o vice-campeonato.

Farina lidera grupo em Monza 53
Em 53, ele perdeu o controle do seu Ferrari no GP da Argentina e atropelou 49 pessoas que se amontoavam no acostamento, matando nove delas. O acidente não foi culpa de Farina mas do ditador Juan Perón, que simplesmente ordenou a abertura dos portões do autódromo, permitindo uma incontrolável invasão da pista.

Nas provas seguintes, Farina se conforma em acumular pontos enquanto Ascari fatura cinco dos oito GPs. No final, fica em 3o no campeonato, atrás de Fangio e Ascari, que chegou ao bicampeonato. Foi nesta temporada que Farina conseguiu sua última vitória em GP, na Alemanha, herdando a ponta depois da quebra de Ascari.

Em seu último GP, em Spa 55
Em 54, com Ascari na Lancia, Farina volta a ser o primeiro piloto da Ferrari mas sofre dois gravíssimos acidentes, nas Mille Miglie e em Monza, durante os treinos para uma prova de carros sport. Uma peça solta perfura o tanque de gasolina e o cockpit fica imerso em chamas. Farina queima-se bastante, sua recuperação demorando quase seis meses. No GP da Argentina, primeira prova de 55, ele corre a base de injeções de analgésico para diminuir a dor. Mesmo assim, termina em 2º. Neste ano, mostrou os dentes pela última vez: em Spa, numa dura disputa com Eugenio Castellotti, o joga em direção aos boxes, com o agravante de que não havia muro o separando da pista naquele tempo. Castellotti, porém, consegue parar seu carro em segurança.

As seqüelas das queimaduras perseguem Farina durante o ano. Isso, mais o peso da idade o levam a diminuir seu envolvimento com as corridas, se dedicando à venda de automóveis na Itália. Mesmo assim, tentou correr em Indy em 56 e 57, sem sucesso.

Disse Fangio: “Ele era estranho. Nunca foi visitar um corredor ferido. Quando eu fui visita-lo no hospital, ele me perguntou o por quê da minha visita. Disse que sentia muito por ele e que queria vê-lo bem. Ele me respondeu que eu deveria estar feliz, pois era um a menos a enfrentar na corrida seguinte. Na pista, era um loco".

Talvez tenha sido Farina quem inspirou aquele diálogo detestável de Jean Pierre Sarti, o personagem de Yves Montand em Grand Prix:

_ Quando vejo um acidente, eu piso fundo, com força, pois sei que os outros vão diminuir.

_ Que maneira terrível de vencer, diz sua interlocutora.

_ Não, não há maneira terríveis de vencer. Existe apenas vencer.





Farina morreu em 1966, quando seu carro, certamente em alta velocidade, derrapou numa pista coberta de gelo e se chocou contra um poste. Ele ia assistir ao GP da França.

Abraços

Eduardo Correa

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