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| » » » 22.10.07 |
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Me desapaixona, pelo excesso e pela parca qualidade, o amontoado de acontecimentos extrapista que vimos na temporada 2007, ironicamente acompanhado por um número tão diminuto de acontecimentos relevantes na pista.
Da campeonato recém-encerrado, a mim resta apenas o hiperrealismo digno da novela das 8, "a simulação de algo que, em realidade, nunca existiu”, na definição de Jean Baudrillard ou, se preferir, “a falsidade autêntica”, na de Umberto Eco.
Como chaves de ouro, a tinta derramada sobre o asfalto recém pavimentado de Interlagos e que não soubemos limpar, a ultrapassagem de araque de Kimi Raikonenn sobre Felipe Massa – o que, em última instância, decidiu o campeonato em favor do finlandês, mesmo sendo o jogo de equipe proibido pelo regulamento – e o lance da gasolina “fria” e o campeonato sub-júdice, numa espécie de escárnio final.
Não quero discutir traição, espionagem, cupidez, interpretações duvidosas do regulamento, travestis de brigas e reconciliações, julgamentos de encomenda, a manipulação do esporte com finalidades exclusivamente financeiras, ainda que mantenha a minha opinião de que a Fia acertou na decisão em relação ao caso de espionagem da McLaren.
Queria discutir coisas verdadeiras que vi hoje, durante o GP do Brasil, a partir da Curva do Lago, como a disputa acirrada entre Nico Rosberg e a dupla da BMW, uma perseguição interessante, ainda que curta, logo nas primeiras voltas, entre David Coulthard e Rosberg e, claro, a corrida galante de Lewis Hamilton, buscando corrigir no braço um erro infantil, que me lembra Emerson Fittipaldi na Argentina 74, quando estacionou seu McLaren pensando ser vítima de uma pane elétrica só para perceber, minutos mais tarde, que desligara o carro acidentalmente.
Queria discutir também o imponderável do esporte, que terminou por premiar Kimi, a quem taxei de burro e sem imaginação mas que virou o jogo a seu favor a partir do GP da França, quando quase todos o consideravam carta fora do baralho.
Mas é tal a carga de hiperrealismo que tudo perde sentido e eu me deixo afundar na poltrona. Sem forças, busco o controle remoto e mudo de canal.
Ao contrário de Alê, Ico, Panda e tantos leitores, resisto em considerar que o título de Kimi repara uma injustiça. Não culpo meus queridos colegas do Gepeto por considerem inapelavelmente manchado um eventual título para Hamilton, posto que pilotos não ganham corridas sem um carro.
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| Os Williams e os BMW em cana |
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Eles têm toda razão mas, às vezes, penso que a façanha de Hamilton transcende a gatunagem da McLaren, uma gatunagem da qual ele certamente não participou. O que Hamilton fez ao longo do ano é algo muito especial e inédito, um feito de força, talento e determinação que merecia ser premiado de maneira igualmente inédita.
Além disso, repito, considero que a McLaren foi devidamente punida pelos seus erros, com uma multa que atinge aproximadamente um quarto do seu orçamento anual, a perda dos pontos no Mundial 2007 e mais o vexame planetário a que foi submetida.
Finalmente, não me apaixona a virada de Kimi, derrubando primeiro Massa, vítima dos próprios erros e os da equipe, depois Fernando Alonso, cujo desempenho foi envenenado pelos seus atritos com a McLaren, e depois Hamilton, que cometeu uma espécie de harakiri nas duas provas finais, misturando uma inocência até então oculta a uma ira santa, de todo elogiável e que nunca devemos criticar num corredor.
Os méritos de Kimi resumem-se, se assim se pode dizer, a ter se conservado a salvo de problemas durante a segunda metade da temporada e, na prova final, ter contado com o incrível erro de Hamilton, que levou a tilt seu câmbio, o desempenho apático de Alonso e o jogo de equipe ilegal da Ferrari.
(Nota da redação: Eduardo Correa não é contrário ao jogo de equipe, elemento histórico no automobilismo, mas lembra que o regulamento o tornou ilegal depois da Áustria 2002.)
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| João, filho do Ernesto Rodrigues, clica o momento em que Hamilton perde o controle do seu McLaren - Clique para ampliar |
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A largada de Hamilton foi condicionada pela de Massa que, lento, deteve o inglês no meio da pista, o que permitiu a Kimi ganhar a 2ª posição pela parte externa e a Alonso tomar o S por dentro e sustentar a posição. Se Hamilton seguisse em frente a partir da sua posição no grid, provavelmente teria assumido a liderança da corrida.
Na aproximação da Curva do Lago, Alonso adotou uma posição defensiva, no centro da pista. Hamilton tentou uma inversão extrema de trajetória e perdeu o ponto de frenagem, como mostra a brilhante foto tomada por João Lopes Rodrigues, filho do nosso colega Ernesto Rodrigues e que assistia à prova poucos metros distante de onde eu estava.
Uma vez fora da pista, Hamilton acelerou de forma temerária, lançando seu McLaren sobre a estreita faixa de grama em meio ao pelotão que acelerava. Como não causou nenhum acidente, podemos apenas louvar sua coragem.
O nível moral desta temporada foi mais baixo?
Questão difícil. Golpes e contragolpes de múltiplos feitios têm sido vistos em volumes crescentes nos últimos anos e nunca é demais lembrar que entre 1989 e 1997 quatro mundiais foram decididos por manobras legal e eticamente reprováveis. Deslealdades, falsidades, manobras ilícitas, espionagem e coisas piores têm sido presença constante na Fórmula 1. Pela amoralidade de nosso tempo, nos habituamos a assisti-las, impassíveis, enquanto reclamamos da falta de ultrapassagens.
De diferentes em 2007 foi a orquestração de toda uma equipe para espionar uma rival, entrando de posse de informações que podem estar na base de vitórias importantes conseguidas por seus pilotos.
Dada a dimensão e o volume do escândalo do ano a resposta é: sim, o nível moral do campeonato deu mais um passo em direção ao abismo. Nada indica que não possamos ver coisa pior nas próximas temporadas.
Se alguém colocasse uma venda em meu olhos, de forma que não pudesse ver nada no caminho que liga minha casa a Interlagos, eu talvez pudesse me deixar sensibilizar pela aparência geral da pista e sua propalada qualidade.
Como não me vendaram, só posso dizer da pista o que Oliviero Toscani disse da publicidade: Interlagos é um cadáver que sorri para nós.
Recomendo visitas aos bloqs da Alê, Ico (que chama Kimi de o “Buster Keaton das pistas”) e Panda, todos com muitos comentários sobre a corrida de hoje.
Pedindo desculpas pelo azedume, desejo uma boa semana a todos.
Eduardo Correa
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