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Não estou só 07.10.07
Negro e resoluto, jovem e infalível – ou quase -, estreante mas sereno e eficaz, diabolicamente eficaz.

Aos 22 anos, Lewis Hamilton finalmente foi atingido pelos raios lançados pelos deuses do esporte, os mesmos que no penúltimo GP de 2006, no Japão, inverteram no espaço de uma volta os rumos do Mundial.

Pois eles o fizeram de novo hoje, na China, e puniram Lewis com severidade, fazendo-o finalmente cometer um erro, um pequeno erro de avaliação, que ele talvez tenha amplificado pela sua decisão, a meu ver absolutamente justificada e até louvável, de disputar a liderança com Kimi Raikonenn na metade da corrida.

Ali se viu um Hamilton determinado e combativo, o mesmo que impingiu a Felipe Massa e Kimi ultrapassagens no limite do racional em Monza e que mergulhou, destemido, em direção à Eau Rouge lado a lado com Fernando Alonso.

Ainda que, sim, ele pudesse ter guardado seus pneus com mais prudência para tentar um 2º ou 3º lugar, não é assim que são talhados os campeões e Hamilton, a despeito da flagrante e dolorida derrota acrescentou muitos tijolos à sua carreira, onde já acumula uma média de 6,7 pontos por prova.





Em meio a tantos elogios, uma coisa não se pode dizer de Hamilton: que ele representa uma nova era para a Fórmula 1.

O inglês é apenas um continuador da saga aberta por Michael Schumacher e seguida por Fernando Alonso: a dos pilotos desprovido de carisma, os rostos inexpressivos como o de boxeadores, mas forjados em torno dos fundamentos da Fórmula 1 contemporânea, mecanizada, mercantilizada, aética.

Por mecanização, entenda-se a redução implacável de toda e qualquer incerteza esportiva, pela exploração das técnicas de projeto e construção mais sofisticadas (ainda que inimaginavelmente caras), pelo controle de qualidade, que torna os carros quase que inquebráveis, e ainda pela simulação exasperada em computadores com cada vez mais capacidade de processamento, deixando menos e menos espaço para a inventividade e o toque humano.

No meio desta farra de engenheiros, programadores, tecnólogos e homens de marketing, fica o piloto, o elo final entre o laboratório imaculado e a pista suja e insidiosa. Em meio à toda sofisticação, nos sentimos tentados a reduzir a sua importância. Não é verdade. Ele continua sendo decisivo e não apenas pela coragem de expor a pele ao ambiente inclemente.





Kimi ri por último.

Burro (palavras minhas) e sem imaginação, ele está ensinando algumas lições a Massa que, por seu turno, não poderia ter um final de temporada mais melancólico.

A vitória de Kimi em Spa, por exemplo, veio depois que ele mudou um pouco seu estilo de pilotagem, aceitando um carro com menos pressão aerodinâmica na frente. Massa, por qualquer motivo, não conseguiu fazer o mesmo.

Desde o GP da França, quando a Ferrari mexeu no carro tornando-o mais favorável a uma regulagem como a desejada por Kimi, ele somou 68 pontos, ante 55 de Alonso, 49 de Hamilton e 47 de Massa. E não é o caso de dizer que até a França a Ferrari tenha favorecido o brasileiro pois este marcou apenas sete pontos a mais do que Kimi.





Por que o rendimento do Ferrari varia tanto de uma pista para outra?

Aparentemente o carro foi concebido em torno de um compromisso crítico entre aerodinâmica e distribuição de peso entre dianteira e traseira, exigindo dos pilotos uma afinação de acerto e de pilotagem que nem sempre puderam ou souberam corresponder – caso de Massa em Spa, por exemplo.

O F2007 se revelou imbatível em pistas com asfalto perfeito e onde predominam curvas rápidas, fazendo valer a sua excelência aerodinâmica. Em compensação, vai mal em pistas onde predominam curvas lentas e é preciso agredir as zebras. Nestes casos, conta menos a aderência aerodinâmica e mais a mecânica, revelando a fragilidade do Ferrari, como aconteceu em Monza.

Outros defeitos graves do F2007: não se entender com os Bridgestone supersoft, usados em Mônaco e Canadá, onde a Ferrari foi particularmente mal, e pistas de asfalto mais ondulado.

São sinais preocupantes para o GP do Brasil.

Em Interlagos, ainda que as curvas lentas sejam poucas, serão usados os pneus supersoft e não se tem uma idéia clara se o recapeamento da pista acabou com as já famosos ondulações.





Michel Platini
Demorou mais de um ano mas agora posso dizer: não estou só.

Lembram-se da minha coluna "A solução", publicada em 10/7/2006, onde propunha a proibição do patrocínio nos carros como forma de conter a receita das equipes, forçando-as a patamares mais humanos de pesquisa e desenvolvimento?

Pois a minha tese, vista com gélido desprezo pelos poderes constituídos, recebe agora o não desprezível ainda que de todo inesperado apoio de Michel Platini.

Em carta publicada pelos jornais de 20 de setembro, ele pede a líderes europeus que salvem o futebol da "influência maligna do dinheiro". O ex futebolista francês pede um debate em torno dos investimentos cada vez maiores – e, digo eu, escusos, - nos times, de forma que não haja risco de se ingressar em uma "era em que as finanças dêem a medida do sucesso esportivo".

É isso o que temos visto na Fórmula 1 desde que a espiral de dinheiro tomou as rédeas da categoria, no comecinho dos anos 80.

Entregue nas mãos de gente que subordina tudo e todos ao crescimento de receita e lucros, perde-se gradativamente a veracidade do esporte e que, perdido, compremeterá inevitavelmente toda riqueza. Os dirigentes, porém, parecem cegos a esta realidade e querem mais e mais, a ganância desmedida fazendo-os espremer até a morte a galinha dos ovos de ouro.

Pelo menos, que se registre o apelo de Platini e que se constate que minha humilde proposta não é tão descabelada assim.





As mulheres, sempre elas.

Com seus corações grandes e generosos, com a sua força e seu caráter, elas têm dado um toque caloroso ao esporte implacável.

Foi emocionante ver a força transmitida pela mulher a Ron Dennis, no momento mais baixo da carreira dele, e hoje, na China, vimos a tocante cumplicidade Jean Todt e sua namorada.

Lá no fundo, bem no fundo, o sinal de que a Fórmula 1 segue sendo uma atividade humana.

Boa semana a todos
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