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Home » Colunas » Eduardo Correa » 18.07.07
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Amigos 18.07.07


O amigo leitor está doidinho para ver o pau comer fora das pistas entre Lewis Hamilton e Fernando Alonso? Ou prefere ver explodir a relação entre Felipe Massa e Kimi Raikonenn?

Normal: gostamos todos dos conflitos no esporte. Mais: é da essência esportiva a rivalidade entre os competidores. É bonito ver os índios durante aqueles rituais deles, cujo nome me escapa, parando no meio da competição para ajudar uns aos outros. Mas não foi esse o espírito que trouxe a civilização ocidental até aqui. Para o bem ou para o mal, somos competitivos e esportistas devem fazer da competitividade um trampolim para a vitória.

Competitividade, porém, não quer dizer selvageria. Para isso a humanidade criou regras de civilidade, a ética, a fraternidade. Ser competitivo nas pistas, mesmo em níveis muito altos, não impede que a amizade prevaleça entre os pilotos e muito menos impõe a inimizade.

Moss na Inglaterra 55
No passado, ao menos, era assim. As pressões já existiam mas prevalecia um senso mais tangível de limite na busca da vitória e que parece totalmente ultrapassado nos dias de hoje - vide tantas manobras reprováveis de Michael Schumacher. Lembro sempre de uma frase de Clay Regazzoni, dizendo que, na véspera do GP dos Estados Unidos de 74, no qual disputaria o título da temporada com Emerson e Jody Scheckter, ele dormiu tranqüilamente. “Meu caráter não me permitia pensar seriamente no título”. Quem pensa assim, não usará de golpe baixo contra o adversário (ainda que Rega o tenha feito algumas vezes…).

Hoje, é bem mais difícil aos pilotos administrar as pressões esportivas, mundanas e comerciais que se acotovelam nos boxes. Um chefe de equipe certamente não apreciará um gesto de gentileza do seu piloto, podendo mesmo considera-lo um sinal de fragilidade. Um campeão precisa saber intimidar os seus adversários dentro e fora das pistas. Assim, é cada vez mais raro o piloto encontrar o equilíbrio na hora para apertar ou relaxar, agredir ou preservar, avançar ou parar - como, de resto, todos nós.





Pelo que se lê, a ligação de amizade entre Kimi e Massa inexiste. O finlandês tem a capacidade de ignorar as pessoas à sua volta. Faz isso com tamanha perfeição que não se pode imaginar que seja caso pensando; ele é assim mesmo. Lembram-se daquele telefone celular que lhe foi passado por Jean Todt no pódio da Austrália? Aparentemente era Michael Schumacher do outro lado da linha, querendo cumprimenta-lo. Kimi mal encostou o aparelho no ouvido e já o devolveu a Todt, esnobando solenemente o alemão. Mais do que não estar interessado em soldar amizades, Kimi é incapaz de desenvolve-las. Parece feliz assim.

Massa, de espírito mais latino e acostumado à camaradagem dos brasileiros, tem procurado responder a indiferença com mais indiferença. Quem o observa nos boxes da Ferrari, nota, porém, que se trata de um comportamento forçado, ele sempre vigiando os movimentos do companheiro, sabendo o tamanho do jogo que os envolve.





Alonso e Hamilton
Na McLaren, as notícias são contraditórias. Lewis teria dito recentemente que se diverte com Alonso jogando partidas de videogame. Dias mais tarde, Alonso desmentiu veladamente a informação. O espanhol certamente teme o potencial do jovem inglês e não pode relaxar. Há muitos pontos a descontar, um carro a ajustar, muitos milhões de dólares a preservar. A amizade terá de ficar para depois. Lewis, que se revela um jovem surpreendentemente maduro e calculista, aguarda os movimentos do rival.





A McLaren dos dias de hoje lembra a Mercedes de 1955. Potência da época, a equipe contratou Juan Manuel Fangio, já bicampeão do mundo, e o jovem Stirling Moss, promissor mas ainda sem vitórias e poles na categoria.

Fangio seguido por Moss em Mônaco 55
A liderança de Fangio não foi contestada pelo companheiro e entre eles floresceu uma amizade que perdurou até a morte do argentino, em 1995. Há quem argumente que a relação entre eles teria rendido a Moss uma enigmática vitória no GP da Inglaterra de 55. Até hoje pairam dúvidas se Fangio a teria facilitado para o jovem inglês uma vitória marcante diante do seu público. Elegantemente, Fangio jamais admitiu qualquer facilidade.





Jackie Stewart, o escocês tricampeão em 69, 71 e 73, talvez seja o piloto que mais se distinguiu pela capacidade de criar e manter amizades nas pistas. Na verdade, desconheço inimizades cultivadas por ele.

Porém, ninguém nega a Stewart um espírito de competitividade aguçado até o ponto de passar por cima das regras. No GP da África do Sul de 1973, ele teria feito ultrapassagens em bandeira amarela de forma a conquistar posições que acabaram por lhe dar a vitória. Também no GP da Holanda daquele ano, Stewart não titubeou em continuar acelerando enquanto tentava-se atender a Roger Williamson, preso em seu carro, refém das chamas.

Stewart na África do Sul 73
Entre os grandes amigos de Stewart, cito Jochen Rindt. Eles chegaram praticamente juntos à Fórmula 1 e construíram carreiras que os colocaram entre os grandes da categoria. Mesmo assim, eram próximos a ponto de irem juntos ao cinema em véspera de corrida e isso nunca impediu que se envolvessem em lutas encarniçadas nas pistas, como aconteceu em Silvertone 69, um dos mais belos duelos da história da Fórmula 1, os pilotos trocando de posição tantas vezes durante a corrida que ninguém sabe ao certo quantas ultrapassagens aconteceram.

Stewart também tornou-se muito próximo de Emerson Fittipaldi e François Cevert, que desembarcaram na Fórmula 1 quando ele já caminhava para seu segundo título. Com Emerson, Stewart costumava passar férias no Brasil; com Cevert, desenvolveu uma proximidade de mentor. Foi em grande parte devido a ligações pessoais como essas que Stewart tornou-se líder indiscutível dos pilotos na busca por mais segurança nas pistas, um movimento que começou a colocar fim à carnificina daqueles tempos.





Também Gilles Villeneuve, a despeito do seu espírito selvagem quando de capacete, soube cultivar amizades. Foi assim com Scheckter, que se tornou uma espécie de irmão mais velho do canadense, foi assim com Didier Pironi, seu companheiro na Ferrari em 81 e 82.

Gilles com Ferrari 126C2, de 1982 - Clique para ampliar
Com Pironi, dois anos mais moço que Gilles, a amizade chegou a tal ponto que envolveu as respectivas famílias e desaguava em brincadeiras do tipo: num carro de passeio, um segurava o volante enquanto outro acelerava com o pé esquerdo. A piada era um colocar o outro em dificuldades, não importava que estivessem em uma estrada ou rua movimentada.

Mas foi exatamente desta amizade tão franca e juvenil que nasceu aquela que foi, provavelmente, a mais acirrada, violenta e incontrolável inimizade da história da Fórmula 1. Durou poucas semanas e teve um final trágico.

Volto ao tema em nossos próximos encontros.

Abraços

Eduardo Correa

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