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| » » » 17.06.07 |
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Há momentos em que relaxar e gozar é preciso.
Vista num contexto, digamos, relaxado, a frase da ínclita ministra Marta Suplicy até que faz sentido, já que resta inútil, totalmente inútil, esperar dela ou da absoluta maioria das autoridades públicas qualquer providência relevante, honesta e eficiente. Das autoridades, é só impostos, desfaçatez e corrupção. Assim, é melhor mesmo relaxar e gozar.
Peço desculpas pela digressão mas é o que me ocorre recomendar a Felipe Massa, num momento do campeonato em que lhe é inútil sonhar com algo mais do que o 3º lugar, o que fez com o brilho possível em Mônaco, no Canadá e hoje, no GP dos Estados Unidos.
A superioridade técnica da McLaren – seria produto de um aerofólio traseiro que já vem sendo chamado de mágico? – e dos seus pilotos talvez não dure muito e, se a Ferrari reequilibrar o jogo, Massa estará em condições bem melhores do que Kimi Raikonenn para lutar pelo campeonato.
Portanto, no momento, é tudo o que Massa pode fazer.
Pálido como uma carmelita enclausurada, Fernando Alonso passa pelo pior momento da sua carreira desde que se tornou um protagonista. Toda a sua velocidade natural não é suficiente para superar um novato, toda a pressão que é capaz de produzir, como vimos hoje durante a segunda fase da corrida, sendo insuficiente para abalar um ímpavido Lewis Hamilton, que ainda tem personalidade para defender-se com precisão cirúrgica do ataque do espanhol e matar na nascente qualquer pretensão de ultrapassagem.
De forma que resta a recomendação a Alonso: relaxe e goze… e tome, urgente, um banho de sol.
Já não é o caso de Kimi Raikonenn, o grande traseiro branco impiedosamente exposto na janela por Felipe Massa que recebe, com sorte, um quinto do que o finlandês recebe. É bom que ele mostre mais combatividade e resultados nas próximas provas sob risco de ser condenado a gozar a fortuna acumulada até hoje mais cedo do que se imaginava.
Restando nove voltas para o final da corrida, Kimi cola – verdadeiramente cola - em Massa no miolo do circuito. Apesar do esforço sobrehumano, o seu Ferrari perde completamente a aderência nas rodas dianteiras por força da turbulência gerada pelo carro de Massa. Conformado, Kimi recolhe suas pretensões e ruma em direção ao 4º lugar.
A maior fragilidade da Fórmula 1 atual estava toda ali, didática e cristalina.
Quem entende de informática sabe que talvez a mais importante fronteira da disciplina seja o desenvolvimento de simuladores.
Apoiados na cada vez maior capacidade de processamento dos computadores, os engenheiros recriam no mundo virtual aquilo que, antes, só podia ser medido em testes reais.
Foi o desenvolvimento de simuladores o que tornou possível o banimento das detonações nucleares e termonucleares no planeta. Mais do que desejos pacíficos, a grande verdade é que os engenheiros, com auxílio de grandes computadores, já conseguem saber exatamente o que acontece com um engenho nuclear sem que seja preciso manda-lo pelos ares.
Os simuladores também são uma importante – talvez a mais importante – fronteira da Fórmula 1. A redução drástica dos testes de pista aceita pelas equipes este ano só pode ser entendida como uma demonstração de que elas já têm em suas oficinas computadores com capacidade de processamento suficiente para, a partir de sinais captados nos túneis de vento e pela telemetria, simular as condições de corrida em cada pista do mundo sem que seja necessário rodar um único quilometro.
Os simuladores tornam-se assim, uma nova e especialmente importante faceta do que tenho chamado de mecanização do esporte, uma forte tendência não só no automobilismo.
Nas mãos de engenheiros inteligentes e cheios de dinheiro, pode-se simular cada necessidade muscular e mecânica, fazendo com que o atleta seja desenvolvido, fortalecido, treinado até o limite do possível. Hamilton nunca havia corrido no Canadá? Sem problemas. Façamos com que ele mergulhe por dez dias seguidos e alegadas mil voltas no simulador da McLaren e ele poderá apreender cada centímetro da pista de Montreal, de forma que possa percorre-la de olhos fechados.
Tanta ênfase nos simuladores ajuda a explicar o sucesso de Hamilton e também o de Sebastian Vettel, inacreditáveis 19 anos e velocidade em treino capaz de fazer esquecer Robert Kubica.
Vettel foi aquele que, no ano passado, creio que em seu primeiro teste pela BMW, foi capaz de assinalar o tempo mais rápido do dia. Chris Amon, veterano piloto dos anos 60, gargalhou com o feito. Para ele, a única interpretação possível era que um Fórmula 1 atual é facílimo de ser pilotado, a ponto de permitir a um estreante passar por cima dos veteranos.
Acho, porém, que Amon expressou apenas uma opinião fora de moda. Que os Fórmula 1 são mais fáceis de serem pilotados do que no passado, não se discute. Basta pensar que o piloto, hoje, pode acelerar sem cuidado na saída de uma curva, o controle de tração cuidando para que não voe para fora da pista. No entanto, anda-se mais rápido do que no passado.
A questão não considerada por Amon é que, hoje, os pilotos podem aprender fora das pistas, aprimorando o talento natural, seja em simuladores, seja em jogos urdidos por psicólogos, preparadores físicos, nutricionistas etc. da mesma forma que é possível aos engenheiros prepararem os carros sob medida para jovens promessas.
Por isso, não se deve necessariamente lamentar o advento dos engenheiros, dos túneis de vento e dos simuladores. Não se pode é deixar que ele se tornem importantes demais. O talento, a coragem, a inventividade ainda fazem a diferença pois, quando as luzes vermelhas se apagam, será um homem, uma máquina e uma pista como nos velhos tempos, o frio na barriga da aceleração/desaceleração, os erros cometidos ou acontecidos, a disposição de resistir ou ousar um pouco além do que o bom senso recomenda.
Mesmo porque, por mais que se treine em simuladores, correr "a quente" é sempre diferente. Não se sabe quantas voltas Vettel deu no simulador da BMW antes da largada mas bastou ele chegar à primeira curva para perder o ponto de frenagem e sair para o acostamento. E que simulador seria capaz de preparar um piloto para enfrentar a queda de uma bandeira em plena pista?
Ponderado tudo isso, fica o registro de podemos ter assistido hoje, com Vettel, a estréia na categoria de um fora de série.
Boa semana a todos
Eduardo Correa
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