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Um piloto fantasma em Le Mans 65 15.06.07


Uma bela história sobre as 24 Horas de Le Mans, que terá sua edição 2007 disputada neste sábado, a partir das 16h, horário francês.





Começo dos anos 60, Henry Ford decidiu levar a empresa fundada por seu pai a se tornar uma potência também nas pistas européias. Considerava isso importante para fixar a imagem internacional da empresa junto aos consumidores jovens. Ele inveja também toda a publicidade dada à Ferrari, graças às suas vitórias, sem que a empresa italiana investisse uma lira em anúncios. Ford fez as contas e concluiu: era mais barato correr do que anunciar.

Inicialmente, ele apostou em Carol Shelby para produzir Sport-Protótipos capazes de bater a Ferrari na categoria que tinha, à época, tanta relevância internacional quanto a Fórmula 1. Com isso em mente, foi a Sebring mas viu seus carros serem fragarosamente batidos pelos de Enzo Ferrari. Homem prático, Ford sacou o talão de cheques e se propôs a comprar a Ferrari. Enzo topou negociar e um contrato chegou às suas mãos meses depois. Faltava apenas assina-lo. Enzo havia concordado em ceder toda a decisão industrial a Ford mas queria manter total controle sobre a gestão esportiva. O contrato não deixava isso claro e o Comendador rompeu as negociações na hora H.

O Ford de Hill e Amon em Le Mans 65
Ford enraiveceu-se e jurou humilhar Ferrari nas pistas. Para isso, reforçou os investimentos no desenvolvimento de um carro invencível. Foi assim que nasceu o Ford GT 40. Le Mans seria o rinque onde as marcas se defrontariam.





Em 64, mal preparada, a Ford foi facilmente derrotada pela Ferrari, que conseguiu fazer os três primeiros lugares na prova.

Um ano mais tarde, a Ford não havia melhorado consideravelmente a sua situação, apesar de continuar investindo por mês o orçamento anual da Ferrari. Havia – imagine a situação - vários pólos de desenvolvimento do GT40 mas eles não trocavam informações entre si!

Largada em Le Mans 65
Ao todo, Ford e Ferrari, por meio de diferentes equipes, alinharam 14 carros em Le Mans 65, prometendo um choque de Titãs: de um lado, a força dos dólares de Ford, de outro o exercício brancaleônico mas incrivelmente determinado de Enzo. O resultado da corrida não poderia ter sido mais inesperado.

O esquadrão da Ford foi caindo um a um, desde a primeira hora de corrida, vítima de falhas na transmissão e no motor – gigantes de até 7 litros. A meia noite do sábado, o último Ford encostava nos boxes para dali não mais sair.





O Ferrari 330P2 de Surtees e Scarfiotti em Lem Mans 65
A batalha estava decidida em prol da Ferrari que, às 3h da manhã, ocupava os cinco primeiros lugares da corrida com os seus novíssimos protótipos P2. Mas eles também começaram a sucumbir, com problemas nos freios – que simplesmente não conseguiam segurar os carros e seus motos de 4 litros –, embreagem e motor. O único P2 remanescente terminaria a prova se arrastando em 7º lugar.

E foi então que surgiu na liderança, por volta do meio dia do domingo, depois de uma incrível recuperação, o mais improvável vencedor: o Ferrari 250 LM, com um motor de 3,3 litros, uma graciosa berlineta, tão simples a ponto de parecer despretenciosa, que vinha tentando a sorte nas pistas há um ano sem um resultado verdadeiramente notável.

O Ferrari 250LM restaurado - Clique para ampliar
Muitos juram que o 250 LM havia sido concebido como um Gran Turismo e não um protótipo, tanto assim que Enzo Ferrari brigou feio com as autoridades esportivas para poder homologar o carro. Foi por causa do 250 LM que John Surtees tornou-se campeão mundial em 64 pilotando um Ferrari azul e branco.





O carro era dirigido por Masten Gregory, americano, 33 anos, sobrevivente de mil batalhas nas pistas das quais saiu “com mais feridas do que medalhas”, a miopia exigindo um fundo de garrafa em cada olho, e o austríaco Jochen Rindt, 23 anos, futuro campeão mundial da Fórmula 1. Eles vinham fazendo uma corrida épica, recuperando posições em ritmo de GP – dentro dos limites do carro -, após terminar a quarta hora da corrida em 18º lugar, atrasados por problemas de ignição.



Estes elementos já seriam suficientes para tornar Le Mans 65 uma das corridas mais marcantes de todos os tempos mas havia mais, uma história extraordinária e que permaneceu em segredo por 40 anos: além de Gregory e Rindt, o Ferrari vencedor foi pilotado também, durante a madrugada, por um piloto “fantasma”, não inscrito pela equipe e jamais mencionado na história das 24 de Le Mans!





Durante a madrugada um piloto misterioso embarca no Ferrari
Alta madrugada, Gregory sai para seu turno de pilotagem. Mas, com a miopia mais a neblina cerrada que descera sobre a pista, ele começa a ter problemas para enxergar na noite fechada de Le Mans. A pista não era iluminada, de forma que os pilotos tinham de se haver apenas com os faróis do próprio carro.

Inesperadamente, Gregory pára nos boxes e avisa que não pode continuar daquele jeito. Havia, porém, um problema. A equipe simplesmente não conseguia encontrar Rindt, que poderia estar em qualquer lugar, já que não deveria voltar ao volante senão em uma hora ou mais. Em desespero, o chefe da equipe Nart, a quem pertencia o carro, caça o primeiro piloto que vê pela frente e o convence a entrar discretamente no Ferrari e cumprir o turno de Gregory até que Rindt fosse localizado.

Ed Hugus ao volante de um Alfa
O piloto é Ed Hugus, um americano com várias passagens discretas por Le Mans. Ele estava inscrito para pilotar outro Ferrari da Nart mas, por qualquer motivo, não chegou a largar. Momentos antes da corrida, foi indicado como reserva de Gregory e Rindt e, segundo o regulamento, podia assumir o volante do carro – desde que o piloto substituído não retornasse depois. E o fato é que, ao alvorecer, Gregory retomou o Ferrari, incorrendo em infração que desclassificaria a equipe de uma das suas vitórias mais belas.

Por isso, o assunto permaneceu trancado a sete chaves por quem dele sabia. Gregory, Rindt e Luigi Chinetti, dono da Nart, jamais disseram uma palavra. Ed Hugus também – pelos 40 anos seguintes.

O Ferrari de Rindt, Gregory e Hugus recebe a bandeirada
Em maio de 2005, aos 82 anos de idade, ele assina uma carta a um amigo, onde narra os acontecimentos da madrugada de Le Mans, uma carta que tornou-se pública dias depois da morte de Hugus, em junho do ano passado.

O piloto fantasma havia sido, finalmente, revelado.

Abraços

Eduardo Correa

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