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Home » Colunas » Eduardo Correa » 10.06.07
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As asas de Deus 10.06.07
Deus adejou suas asas sobre a Fórmula 1, hoje, em Montreal, na forma de três pássaros brancos que pousaram tranquilamente pouco distantes do corpo desfalecido de Robert Kubica.

Por um momento, justificadamente, temeu-se pelo pior, a economia de imagens do atendimento ao polônes – lição aprendida de Imola 94 – reforçando a medo geral.

Depois, vieram as notícias tranquilizadoras mas fica a lição de que, ao contrário das evidências, não há Fórmula 1 sem risco e que não se pode descansar um segundo na busca de materiais, técnicas construtivas e processos de atendimento que garantam a integridade de pilotos, fiscais e público.





Difícil analisar a dinâmica do acidente – a velocidade muito maior de Kubica em relação a Jarno Trulli – sem ficar com a impressão de que o italiano mudou sua trajetória para defender a posição.

Mas espero que essa tenha sido apenas uma impressão de momento





Todos os acidentes, todos os acontecimentos fortuitos vistos no GP do Canadá de hoje determinaram o resultado de corrida de todos os pilotos menos de Lewis Hamilton, que singrou rumo à vitória como que navegando em águas serenas.

O fenômeno inglês se impõe, corrida após corrida, fazendo o começo de carreira de Michael Schumacher e Ayrton Senna parecer uma piada. Eu, que assisti às primeiras vitórias na Fórmula 1 de gente como Emerson Fittipaldi, Niki Lauda, Nelson Piquet, Alain Prost, Senna, Nigel Mansell, Schumacher e Fernando Alonso, me pergunto: onde chegará este garoto incrivelmente sereno e preciso? Será ele capaz de repetir a impressionante fieira de recordes que Schumacher acaba de estabelecer? Poderá ele ir ainda mais longe?

A mecanização extraordinária do esporte contemporâneo, que faz com que os carros quebrem cada vez menos, os pilotos atinjam um nível de resistência fisica e mental sem comparação com o passado e que as equipes desenvolvam técnicas e estratégias à prova de erros, permite tais sonhos ainda que leve a categoria cada vez mais próxima da infalibilidade - a antítese do esporte -, fazendo com que mais e mais pessoas associem a Fórmula 1 à chatice.

Para o bem do esporte, seria bom menos certezas e dinheiro e mais dúvidas e paixão. Mas isso é apenas um sonho, um adejar de asas sobre a máquina do mundo que tudo tritura e transforma em vendas, lucros e gás carbônico.





Nick Heidfeld também pouco foi beneficiado pelos acontecimento do GP e conquistou um valioso 2º lugar, posição que dificilmente teria perdido mesmo se McLaren e Ferrari não tivessem os problema que tiveram. Impressionou sobremaneira o tempo conquistado por ele nos treinos, mesmo tendo largado um pouco mais leve do que seus adversários diretos





Fernando Alonso e Kimi Raikonenn mergulham na crise que eles próprios criaram. Somando um tico de inadaptabilidade aos pneus à incapacidade de mudar os respectivos estilos de pilotagem, eles estão sucumbindo no confronto com seus jovens companheiros de equipe e tornando risíveis os milhões de dólares investidos nas respectivas contratações.

De Alonso, se aguarda uma explicação plausível para tantos erros numa única prova. Não vale reclamar dos freios do seu McLaren, idênticos ao que se sabe aos de Hamilton e que não foram capazes de lhe negar voltas extremamente rápidas. E será possível que Alonso já tivesse largado com problemas de freio, a ponto de ter rifado sozinho a sua corrida logo na primeira curva, Hamilton mergulhando tão mansamente em direção a ela que até parecia ter combinado com o espanhol ceder-lhe a liderança?

Na maré em que anda o espanhol – até a sua vitória em Mônaco sendo posta em dúvida –, o fato de ter levado uma ultrapassagem por fora de Takuma Sato é apenas um detalhe.

Quanto a Kimi, toda frieza do mundo não lhe basta para tirar proveito do mesmo Ferrari que tem permitido a Felipe Massa corridas excelentes. Dizem que o finlandês tem dificuldades para entender a parafernália de recursos técnicos à sua disposição, que tem a mão pesada, que não consegue se comunicar bem com a equipe.

De minha parte, eu que venho criticando Kimi já há algum tempo, fica a certeza cada vez mais forte de que ele não é frio; é burro.

E por falar em burrice, registre-se a batida de Vitantonio Luizzi, que corria para o pódio quando bateu sozinho o seu Toro Rosso, e também a de Trulli, ao sair dos boxes com o seu Toyota.





Felipe Massa largou muito bem, hoje no Canadá, tomando a posição de Kimi sem qualquer risco, e corria com boas chances de chegar à vice-liderança quando viu sua corrida ruir inteira por força da entrada do safety-car na pista na volta 22.

Mesmo assim, podia sonhar com o pódio quando tropeçou no exotismo do regulamento, francamente incompreensível, de entrada e saída dos boxes mediante safety car. Me pergunto qual a alternativa para quem ficar sem gasolina se não entrar imediatamente nos boxes…

Mais uma regra esdrúxula, misturando mão pesada e burrice dos dirigentes.

O fato, contudo, é que Massa volta a ter a obrigação de vencer, e não só em Indy, para reduzir a diferença que o separa de Hamilton, torcendo para que banho que a Ferrari tomou da McLaren em Montreal seja apenas decorrência da conformação da pista pois, se tal superioridade se repetir nas longas retas de Indy, pouca restará ao brasileiro fazer.





O 3º lugar de Alexander Wurz, mesmo com seu aerofólio traseiro quebrado, é um justo prêmio a um humilde trabalhador da Fórmula 1 e também à equipe Williams, que vem conseguindo o que a Toyota, cinco ou seis vezes mais rica, não consegue, numa lição para aqueles que acreditam que o dinheiro pode tudo. Não pode, nem na Fórmula 1, nem na vida.





Na torcida para que as notícias tranquilizadoras sobre Robert Kubica se confirme, desejo uma boa semana a todos

Eduardo Correa

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