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Grand Prix 18.09.06
Difícil dizer o que é melhor no filme Grand Prix, relançado recentemente em DVD.

As imagens das corridas? As baratinhas em todo o seu esplendor, beleza e inocência dos anos 60? Um pouco da vida dos pilotos e chefes de equipe? A pureza do ambiente? O romantismo algo ingênuo da história do filme de John Frankenheimer?

Não é gratuita a paixão quase unânime dos automobilistas por Grand Prix. É que o filme, apesar dos chavões holiudianos, é uma bem urdida mistura de histórias verídicas do automobilismo de competição.

Nos parágrafos seguintes, dedico-me a tentar associar algumas destas histórias, partindo da minha habitual distração. Os leitores estão, desde já, convidados a completa-las.





Phil Hill correu com um McLaren equipado com câmara em Spa
Pete Aron, o personagem de James Garner, mistura características dos dois pilotos americanos de maior sucesso na Fórmula 1 até os anos 60: Phill Hill e Dan Gurney.

Do primeiro, o filme aproveitou a trajetória na categoria: o início na Ferrari, pela qual conquistou o título de 61, e o subsequente mergulho no purgatório quando, ao final de 62, trocou a Ferrari, junto com vários técnicos da equipe, pela malfadada aventura da ATS.

Mas Hill era, por natureza, um piloto discreto, talvez o mais discreto e modesto entre todos os campeões, com apenas três GPs vencidos na carreira e nenhum depois de 61. Não creio que tivesse, em particular, aquele espírito indômito, próprio do cowboy americano, exibido por Garner.

Este traço de personalidade me parece mais próprio de Gurney, um piloto sempre festejado pela determinação fria e talento mas com sucesso limitado na Fórmula 1: 4 vitórias e um 3o lugar como melhor classificação no Mundial de Pilotos, justamente em 61, quando pilotava pela Porsche.

A relação entre Phil Hill e Enzo Ferrari pode, muito bem, ter inspirado os argumentistas de Grand Prix para aquele diálogo entre Aron e o sr. Manetta, o personagem de Adolfo Celi e expressão cinematográfica de Enzo Ferrari, com toda a sua arrogância e absoluta falta de polidez no trato dos pilotos.

Recentemente, li que, minutos depois do acidente de Niki Lauda em Nurburgring 76, Ferrari passou uma descompostura por telefone no chefe da equipe por este ter manifestado disposição de acompanhar Lauda ao hospital. Ferrari disse-lhe algo do gênero: "de Lauda cuidam os médicos. Você fica na pista, organiza a equipe e vai conversar com Emerson, para que ele substitua Lauda no próximo GP".





Jean-Pierre Sarti, o personagem de Yves Montand, me parece ser a criação mais livre do filme pois, até Alain Prost, não houve um piloto francês de sucesso na categoria, muito menos na Ferrari.

Um modelo provável talvez seja Jean Behra, admirado pela valentia mas com muito pouco sucesso na Fórmula 1, geralmente competindo pelas equipes erradas na hora errada. Sua melhor classificação no Mundial foi um 4o lugar em 56, quando competia pela Maserati.

Behra morreu em condições semelhantes a de Sarti, voando para fora de uma curva inclinada no circuito alemão de Avus. Não sei dizer se ele foi lançado para fora do carro como Sarti. Quem passou por isso em Monza, mas não no mesmo lugar da cena do filme, foi Juan Manuel Fangio, num acidente que o manteve afastado das pistas por quase toda a temporada de 52. Em 66, não mais se usavam as curvas inclinadas no GP da Itália.



E também aquela situação passada por Sarti antes do GP da Itália, de ficar sem carro para treinar não era propriamente uma novidade nos métodos de persuasão de Ferrari. Sobre a retirada da equipe em Monza, após o anúncio da morte de Sarti, há o precedente descrito no próprio filme e também a decisão da Mercedes após o terrível acidente em Le Mans 55.

Sobre aquele discurso agressivo de Sarti no Museu de Mônaco (e que lhe valeu de minha parte uma antipatia só recentemente superada), ele nada mais faz do expressar a lógica dos pilotos da época. Nos excelentes documentários que acompanham Grand Pirx em DVD, Stirling Moss reforça essa forma de ver as corridas.





Jim Clark protege-se do frio no GP dos EUA de 65
Scott Stoddard, personagem de Brian Bedford, tem a fisionomia de Jim Clark e pilota para uma equipe cujo chefe lembra bastante Colin Chapman. Mas no carro de Scott está gravado Jordan BRM, uma referência óbvia à Owen Organization, proprietária da BRM, mas também ao papel que Louis Stanley, genro de Richard Owen, desempenhava na equipe (que em meados dos anos 70, passou a ser chamada oficialmente de Stanley BRM). Para confundir mais ainda as coisas, quando Scott está se recuperando do acidente em Mônaco, estica-se num lindo Lotus do final dos anos 50...

Já o envolvimento do personagem com as drogas remete à terrível história de Achile Varzi, um dos maiores pilotos dos anos 30, e que será objeto de coluna própria antes do final do ano. Sobre a relação turbulenta de Scott com a esposa e o envolvimento dela com Aron as referências são variadas e perduram até hoje. Michael Schumacher, por exemplo, casou-se com a ex namorada de Heinz-Harald Frentzen.

Sobre o irmão de Scott que morre nas pistas, a única referência que me ocorre é a dos irmãos Rodriguez. Ricardo morreu aos 20 anos, em 1962. Seu irmão Pedro estreou na F1 um ano mais tarde.





Sobre Nino Barlini, personagem de Ernesto Sabato, a principal inspiração é Lorenzo Bandini. Assustador saber que foi ele quem apontou ao diretor do filme o ponto onde um acidente grave poderia acontecer em Mônaco, o mesmo ponto onde, um ano depois da filmagem, Bandini perdeu a vida.





Ascari mergulha nas águas da baia de Mônaco
Por falar no acidente de Mônaco, um dos momentos marcantes do filme, ele foi em parte inspirado no acidente de Alberto Ascari em 55, mergulhando nas águas da baia e ferindo o pescoço. Semanas mais tarde, Ascari voltou a bater, durante testes em Monza, e perdeu a vida.

















A equipe Yamura, não preciso dizer, mostra a chegada da Honda à Fórmula 1, inclusive com menção ao piloto americano que levou-a à estréia. Na vida real, este piloto foi Ron Bucknum.





Outras observações/estranhamentos sobre Grand Prix:

  • - a ausência quase total de menções a Jim Clark e à Lotus, piloto e equipe dominantes na época.

  • - O fato de ter ambientado o GP da França em Clermont Ferrand e não em Reims, onde, de fato, ocorreu a prova em 66. Nas demais corridas, Grand Prix respeitou o calendário da temporada, só invertendo a ordem das provas.

  • O Cooper de Bonnier em Spa 66
    - Aquela cena dantesca do carro meio-pendurado num penhasco em Spa não é ficção. Trata-se do Cooper de Jo Bonnier, que escapou do acidente sem maiores problemas.

  • - Os procedimentos de largada mostrados no filme são verdadeiros. Em poucas palavras: era um zona total e completa. Deus mantinha seus olhos bem abertos naquela época, para evitar atropelamentos e acidentes graves.

  • - O despojamento total e completo das roupas e sapatos usados pelos pilotos também é verdadeiro. Há uma foto famosa de Jim Clark usando uma blusa de lã sobre o macacão em um dia mais frio.

  • - Quem observar bem notará que já existia em 66 a famosa piscina de Mônaco.

  • - Carros de Fórmula 1 andando pelas ruas da cidade em direção à pista eram um fato comum naquela altura, já que a maioria dos autódromos não dispunham de garagens.


  • Abraços
    Eduardo Correa
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