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Nigel Massa 04.09.06
Felipe Massa é o novo Nigel Mansell?

Massa comemora sua vitória no GP da Turquia
Coincidências não faltam: ambos venceram pela primeira vez na Fórmula 1 quando disputavam suas 5a temporadas, Massa em sua 66a participação, Mansell em sua 71a. Os dois começaram em times (Sauber e Lotus) médios e conquistaram suas vagas em boas equipes em condições sui generis, para dizer o mínimo: Mansell por imposição de patrocinadores da Williams, que exigiam um inglês na equipe, e Massa, sejamos franco, por motivos que ninguém entendeu.

Mas prefiro associa-los pelo estilo de pilotagem - ou a falta de um.





Já disse aqui que considero definir e julgar estilos de pilotagem a mais difícil missão do jornalista de automobilismo. Conhecer um estilo de pilotagem significa, antes de tudo, uma enorme proximidade com o piloto - não no botequim, mas na pista. Não basta vê-lo fazendo algumas curvas (local onde se define uns 70% do que se pode chamar estilo) mas sim milhares de curvas diferentes. Significa também entender os processos mentais do piloto em variadas situações e o que isso significará para o seu desempenho, conservação do carro etc.

Olhando pela TV e apenas em corridas, torna-se quase impossível um acompanhamento que permita eliminar os desvios e erros inevitáveis, as imperfeições do carro e fatores extrapista e traçar um, digamos, estilo médio de pilotagem e, a partir de então, produzir uma crítica.

Tentei, com todas as forças do meu ser, estudar um pouco do estilo dos pilotos que disputaram o GP do Brasil 05.

Sabia que um elemento importante de definição do estilo é a combinação de freada e mudança de direção. Há pilotos que freiam mais cedo, mais leve, procurando retardar ao máximo o momento de torcer o volante, "enquadrando" ao máximo a curva, buscando uma tangência mais limpa e uma arrancada mais forte. Creio ser este o estilo de Michael Schumacher, que se opõe àquele dos que preferem submeter-se a uma freada violenta no último momento (a "patada", como diz Rubinho), simultaneamente à torção do volante na busca da tangência, o carro no limite extremo de aderência.

Com a teoria na cabeça, me pus a olhar os carros se aproximando, velozes, da Curva do Lago. Logo percebi o óbvio: a diferença entre um estilo e outro é mínima, quase imperceptível. Estamos falando, talvez, de meio metro, pouco mais, pouco menos. Além disso, nem o mais preciso entre os pilotos traçado e frenagem, sem considerar que você pode estar tentando escrutinar seu estilo num momento em que ele não está pisando pra valer.

Conformado, voltei minha atenção para outras coisas anotando que preciso da ajuda de um fotógrafo caso queira ir adiante em minhas pesquisas estilísticas.





Mas dei esta volta inteira para dizer que há pilotos que simplesmente não têm estilo nem perseguem um. Este me parece ser o caso de Massa e era, sem dúvida, o de Mansell.

Eles constituem um tipo de piloto sem o refinamento técnico, conhecimento de mecânica, estratégia, visão de prova e relacionamento de, por exemplo, Nelson Piquet, Alain Prost, Ayrton Senna e Michael Schumacher. Não por acaso, Mansell era considerado um mão pesada, alguém que brutalizava o carro, enquadrava ou arredondava as curvas sem qualquer padrão, desenvolvendo com a máquina uma relação meio mediúnica.

Patrick Head lembra-se que Nigel Mansell resolvia com alguns trancos no volante um defeito congênito do Williams de 91 - uma perda momentânea de aderência da traseira em curvas de alta -, enquanto que seu companheiro Riccardo Patrese era obrigado a aliviar um pouco o acelerador.

Pilotos "sem estilo" estão mais sujeitos a erros e oscilações de desempenho, além de sofrerem mais com eventuais problemas técnicos do carro mas, como Mansell cansou de provar e Massa o fez na Turquia, pilotos assim podem ser mais velozes do que os "com estilo", mesmo com sua maneira "suja" de pilotar - lembro-me em especial da corrida de Massa em Imola 05, quando parecia enganchar a roda dianteira nas zebras para ajudar a segurar o carro.





Confusão na largada
Decupar a vitória de Massa na Turquia é um exercício interessante, começando pela falha de Schumacher em conquistar a pole e passa por uma largada extraordinariamente complexa.











Schumacher persegue Alonso
Pressionado violentamente por Alonso - que chegou a ser 2o e depois foi devolvido ao 3o lugar por uma curiosa e selvagem manobra conjunta da dupla da Ferrari -, Schumacher não pode atacar Massa, impossibilitando à equipe italiana ordenar uma inversão de posições, o que certamente condenaria Massa ao 3o lugar e minaria parte importante do esforço de roubar pontos de Alonso.

E aí Liuzzi fica naquela posição incômoda. Safety car na pista. Fazer Massa ceder a primazia do reabastecimento a Schumacher seria joga-lo ao final do pelotão.

Ok. Entram os dois então, Massa à frente, posto que era proibido ultrapassar, e Schumacher desconta o prejuízo no segundo pit stop. Com mais combustível, o Ferrari não rende tão bem e, ainda por cima, Schumacher dá aquela escapa fatal, franqueando a Massa, justamente depois de uma das suas piores corridas na Fórmula 1, chegar à primeira e merecida vitória. Quem diz isso é alguém que, em 23 de março, assinou uma coluna intitulada Massa está chegando lá (mas é verdade também que esta certeza andou voando por ai nos meses seguintes...)







Para registro, os contextos de cada primeira vitória do Brasil na Fórmula 1:

- Emerson, Estados Unidos 70: conservação do carro + situações adversas de vários adversários (o que alguns chamam de "sorte").
- Moco, Brasil 75: idem, sendo que o adversário em situação adversa foi apenas um, Jean-Pierre Jarier.
- Nelson Piquet: Estados Unidos 80: superioridade total: pole, vitória de ponta a ponta e volta mais rápida.
- Ayrton Senna, Portugal 85: idem com forte fator adverso - chuva forte durante todo o GP.
- Rubens Barrichello, Alemanha 00: oportunismo + fatores externos (invasão de pista) e adversos (chuva em parte da corrida e parte do autódromo).
- Felipe Massa, Turquia 06: superioridade, com influência leve de fatores externos (safety car num momento decisivo).





O GP da Turquia acena com uma nova reviravolta do campeonato: a Michelin rompendo o imobilismo diante da Bridgestone.

Mantendo-se esta tendência em Monza, Alonso retoma a sua condição plena de favorito ao título.

Aliás, a Turquia confirmou: no momento, Alonso é mais piloto do que Schumacher.

Abraços

Eduardo Correa
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