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Azar australiano I 16.08.06
Querem falar de azar? Azar de verdade, não aquele que camufla a mão pesada, incapacidade de concentração e superação do piloto - ou apenas a sua falta de jeito para a coisa?

Brabham em Monza 67 A roda no canto esquerdo da foto é do Lotus de Clark, preparando-se para recuperar a volta perdida
Pois então vamos falar de Jack Brabham, o cara que, pelo que me consta, mais perdeu GPs na última volta. Se não me enganei na conta, o australiano, campeão mundial em 59, 60 e 66, viu três vitórias suas em GPs virarem fumaça na última volta - na verdade na última curva! - dos GPs da Itália de 67 e em Mônaco e Inglaterra 70.





O GP da Itália 67 é considerado um dos mais espetaculares de todos os tempos. Responsável maior: Jim Clark.

Clark e seu Lotus 49
Eram as primeiras corridas do Lotus 49, equipado com o recém-lançado motor Ford Cosworth e já considerado pelo universo conhecido como o melhor carro de corridas construído até então.

O carro estreara apenas na 3a corrida da temporada, Holanda, com vitória (neste videozinho, você vê algumas imagens da corrida: http://www.youtube.com/watch?v=oSpAdvQo8Bs&NR). Nas corridas seguintes, nova vitória na Inglaterra mas uma série de quebras de juventude afastaram Clark da disputa do título. Em Monza, ele marca a pole, quase três segundos abaixo da do ano anterior. Brabham sairia em 2º.


Clark atrapalhou-se nos procedimentos de largada (havia um grid falso, que se deslocava segundos antes da bandeirada para a posição definitiva) e caiu para o 4o lugar, fato raro para alguém que, como ele, costumava disparar na frente, com um ritmo de corrida estonteante.

Mas ele se reapruma e, na 3ª volta, já lidera. Doze voltas mais tarde, porém, encosta nos boxes com um pneu furado. Como o furo se dera longe dos boxes, Clark perde uma volta para os líderes da corrida, Jack Brabham, Dennis Hulme e Graham Hill, companheiro de Clark na Lotus.

De volta à pista, o escocês parece possuído por demônios e acelera de tal forma que baixa o tempo da melhor volta em Monza em quatro segundos e consegue recuperar a liderança na volta 60, de um total de 68, descontando a volta de desvantagem, um feito raríssimo em GPs - aliás, não sou capaz de citar outro igual. (Mas Clark só atinge a liderança depois da quebra do Lotus de Hill que também voava na pista)

Chegada em Monza 67 Surtees vence por um carro
Sem Ferrari disputando a ponta, os italianos deliram com o show do escocês, que é perseguido por Brabham e por John Surtees, que pilotava um Honda RA300.

Clark abre a última volta na frente mas o imponderável acontece: ele fica sem gasolina na altura da Curva Grande e, com o repentino corte do motor, quase é atingido pelos seus dois perseguidores.

O escocês só consegue cruzar a linha de chegada em 3o. Li em algum lugar que Colin Chapman, dono da Lotus, pediu que os mecânicos tirassem um pouco de gasolina do tanque do carro quando da troca de pneus, talvez imaginando que não chegariam ao fim da corrida. A história sempre me soou inverossímil, mas a repasso como comprei. Outra versão dá conta que não foi falta de gasolina mas sim falha da bomba, tendo restado 11 litros de combustível no tanque do carro.

O fato é que os senhores Brabham e Surtees disputam agora não mais o 2o lugar do GP da Itália mas sim a vitória na corrida. Na Reta Oposta, Surtees aparece na frente. Brabham, porém, toma a Parabólica na frente, numa manobra clássica de ultrapassagem. Fez mau negócio, o que é surpreendente para um piloto com a experiência dele.

Naqueles tempos, desfrutava-se plenamente do vácuo - lembra-se dele? Permitam-me, então, lembrar os nascidos nos tempos do aerofólio e túneis de vento.

O ar é um muro que fica mais duro quanto maior a velocidade do veículo - carro, avião, bicicleta, não importa.

Se um carro, por exemplo, abre caminho neste muro, aqueles que vierem atrás, bem colado ao líder, se beneficiarão do fato do líder estar encarando o muro enquanto. Além disso, o líder criar uma zona de baixa pressão - ou vácuo - nos metros imediatamente posteriores ao seu carro, puxando para si quem ali se posicionar.

Assim, Brabham teria feito melhor se se mantivesse atrás de Surtees na Parabólica e executasse a manobra de ultrapassagem na reta de chegada. O fato é que o australiano ganha a liderança na freada da curva e a toma já desequilibrado (notem como seu carro balança em plena freada) apenas para encontrar pela frente uma tenebrosa mancha de óleo, provocada pela quebra do Lotus de Hill, coberta por cimento que os fiscais espalharam pela pista.

Em seu livro The Jack Brabham Story, escrito junto com Doug Nye, o australiano alega que não teve escolha senão tentar passar Surtees na entrada da Parabólica, mesmo sabendo que ali encontraria o óleo e o cimento. "Eu teria sorte se encontrasse alguma aderência", escreveu Brabham. Não encontrou nenhuma.

Resultado, Brabham acaba colocando duas ou quatro rodas na grama e Surtees retoma a posição na saída da curva. Impressionante o controle do carro por Brabham, que gruda na traseira do Honda e, ajudado pelo vácuo, certamente retomaria a ponta se a linha de chegada fosse uns vinte metros mais distante. Mas ele acabou a corrida dois décimos de segundo atrás de Surtees, que deu à Honda a sua segunda e, até domingo retrasado, última vitória na Fórmula 1.

Agora que contei a história toda, curtam o espetacular vídeo descolado pelo leitor Luiz Roberto, do Rio de Janeiro: http://www.youtube.com/watch?v=u8xTaiN7k5Q.


Sobre os outros dois GPs perdidos por Brabham, falo na semana que vem.

Abraços
Eduardo Correa
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