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Um GP de verdade 06.08.06
Pista molhada, pista seca; erros e acertos de mecânicos, pilotos e chefes de equipe; coragem e destemor, medo e insegurança; meninos que viram homens, meninos que continuam meninos, homens que confirmam sua virilidade em situações difíceis, onde uma atitude prudente seria, talvez, mais que recomendável. Mas, que diabo, quem é que está aqui para ser prudente?

Mais: a mão pesada das autoridades vê uma oportunidade para embaralhar as coisas – bem ao estilo dos dirigentes da Nascar – e eles não perdem a oportunidade. E tudo acaba neutralizado na pista, minutos depois da largada, pela pilotagem inspirada de dois fora-de-série que combinam o máximo de perícia ao máximo de instinto, tudo temperado com o máximo de motivação, numa luta titânica e emblemática.

São Paulo, túmulo do samba, Hungria, tumba da Fórmula 1. E quem disse que da paz dos cemitérios não brotam Grandes Prêmios que mereçam este nome?





Dois gigantes de sorte miserável dominaram a corrida de hoje.

Fernando Alonso, tirando proveito do melhor desempenho dos pneus Michelin, empreendeu uma corrida épica, uma aula de pilotagem, superando a desvantagem (justa) que lhe foi imposta na largada e depois o fato de não ter tido o caminho livre para ganhar posições na largada, como aconteceu ao outro gigante, Michael Schumacher.

A ultrapassagem de Alonso sobre o alemão é inesquecível. Por fora, pista encharcada, levando no tanque três vezes mais gasolina do que o Ferrari, Alonso assumiu de vez a condição de melhor piloto da Fórmula 1 atual, consumando o abate do velho Campeão, como se faz desde tempos imemoriais.

Esta análise estaria perfeita se Schumacher fosse para os boxes tomar chá.

Mas ele recusou-se a colaborar. Engoliu a humilhação, perseverou na pista, apesar de ter perdido o bico do carro, e chegou ao 2º lugar restando vinte voltas para o final, dando outra lição de pilotagem.

O problema é que os pneus de seu Ferrari já estavam, literalmente, na lona. E aí Schumacher deu mais uma lição de valentia, permanecendo na disputa enquanto pode, estraçalhando o que restava dos seus Bridgestone, mandando às favas a matemática do campeonato e até mesmo a própria autopreservação, em prol do romance da competição.

Dois Campeões, dois Gigantes. Tomara que continuem correndo por muitos anos ainda.





Jenson Button e a Honda desencantaram na Hungria. Do carro, já havia sinais positivos desde a Alemanha mas que não se perca de vista as condições que beneficiaram o inglês.

Mesmo assim, foi uma uma vitória merecida que contribuirá, caso esta consistência se mantenha nas próxima provas, para uma melhora geral nos ares da equipe.

Rubinho, por sua vez, foi obviamente prejudicado pela escolha dos pneus, fazendo, a seguir, uma boa corrida de recuperação.

Sobre o fato de ele ter sido "preterido" pela segunda vez na honra de dar a primeira vitória a uma equipe (a outra foi no GP da Europa de 99, vencido por Johnny Herbert para a equipe Stewart), prefiro nada dizer.





A McLaren deve anunciar nas próximas horas horário e local da missa de réquiem que fará celebrar pelo passamento precoce da carreira de Kimi Raikonenn.

Ele, que já foi uma das mais propaladas promessas do automobilismo, ao lado de Juan Pablo Montoya, Mark Webber e Jenson Button, viu suas já opacas luzes apagaram-se de vez, hoje, depois de bater miseravelmente contra a traseira de Vitantonio Liuzzi, sob a alegação cândida de que estava olhando no retrovisor.

Claro que há quem renasça das cinzas, vide Button, mas não sei se se pode esperar tanto do pobre finlandês que, uma dia, já foi tido como azarado.





Mas eis que surge uma nova esperança: Robert Kubica!

Apesar de muitos erros – compreensíveis, diga-se – na parte inicial da corrida, o polonês mostrou que tem fibra, algo tão em falta na Fórmula 1 atual, classificando-se à frente do companheiro de equipe para a largada e colhendo um ponto já em sua estréia.

E vejam do que um companheiro de equipe rápido é capaz: terá sido por acaso que Nick Heidfeld correu tanto e tão bem hoje?

Boa sorte ao polonês.





Mesmo considerando o desempenho de Kimi, Felipe Massa disputa o título de pior piloto da prova.

Compreensível, já que a experiência dele sob chuva é bastante limitada. Mas merece análise mais cuidadosa os seus seguidos erros na 3ª bateria dos treinos quando, depois de um carrossel de emoções (na sua volta final, contei três erros), deixou escapar mais uma pole.

E Massa largou tão mal que é de se questionar se não o fez de propósito, para favorecer Michael Schumacher. Sei que é uma idéia estúpida mas pelo menos aliviaria largada tão desastrada.

Ainda sobre os treinos, vocês querem mais emoção? Pois deixem os pilotos em paz para buscar seus melhores tempos. A melhor volta de Schumacher na 2ª bateria foi quase um segundo melhor do que o tempo de Kimi Raikonenn na 3ª.

O problema desses dirigentes inventores de regras esdrúxulas é que eles, no fundo no fundo, não são automobilistas de verdade. São apenas executivos querendo espremer todo o nosso dinheiro. Para eles, a velocidade é um detalhe, quase um problema. "Ninguém vai perceber se os carros forem alguns segundos mais lentos", dizem, esquecendo que a Fórmula 1 é velocidade, glamour e tecnologia não sendo mais do que complementos.





Para quem não viu em 94, Galvão Bueno proporcionou, nos momentos iniciais da 3ª bateria dos treinos de sábado, um replay do que se produziu naquele ano distante: a tentativa de se criar, apenas com a força do pensamento, o fato consumado de que Rubinho era um grande piloto, capaz de ocupar o lugar de Ayrton Senna.

"Massa tem tudo para conseguir a pole", repetia Galvão no sábado, com a concordância entusiástica de seus colegas de bancada, da mesma forma que tantas vezes, ao longo de 94, fez em relação a Rubinho.

Que Galvão diga o que diz é compreensível, ainda que não necessariamente justificável. Mas espero que Felipe Massa não se deixe contaminar por este espírito deletério e até maligno - na medida em que desestimula os esforços sobrehumanos que se exige de um campeão - e que grudou para nunca mais largar de Rubinho, tornando a sua passagem pela Fórmula 1 tão infeliz.

Que Massa entenda, enquanto é tempo, o que Rubinho parece não ter entendido: a TV, não importa quanta audiência tenha, nada cria. Ela apenas, e se tanto, multiplica fatos concretos e opiniões que as pessoas, de per si, já tenham. Seria muito bom, aliás, se a TV tivesse a força que os seus detratores e entusiastas, um de cada lado da mesa, acham que ela tem. Nossos problemas, ao menos na Fórmula 1, estariam resolvidos.





Um amigo, que conhece bem como são as coisas na equipe da IRL de A.J.Foyt, de onde Felipe Giaffone saiu recentemente, me confidenciou que o texano é tão personalista que dispensou os engenheiros da equipe, sob alegação de que "ele sabe o que deve ser feito".

Semanas atrás, internado para uma cirurgia no joelho, Foyt não pode ir à corrida de Kansas. Pois os mecânicos tinham que ligar para ele no hospital para resolver o acerto do carro!

Torcendo pela recuperação de Cristiano da Matta, desejo uma boa semana a todos

Eduardo Correa
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