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A Solução 10.07.06
Não vamos perder muito tempo resumindo os problemas que estão levando a Fórmula 1 a se tornar uma versão mundial daquela luta livre motorizada americana chamada Nascar. Vamos nos contentar como o já clássico "dinheiro demais nas mãos de poucas equipes limita ou mata as disputas, tornando tudo previsível e sem emoção".

Dan Gurney com Eagle em Mônaco 67
Sonho das autoridades esportivas: baixar os custos, permitindo a mais equipes disputar e vencer corridas, restabelecendo a "emoção" na Fórmula 1.

Já discutimos aqui, muitas vezes, as inúmeras falácias contidas nestes pontos de vista, como se a Fórmula 1 desde a sua primeira corrida não estivesse sempre sujeita a hegemonias de pilotos, carros e motores, no mais das vezes movidas à maior capacidade de investimento. Mas, como o que vale é sempre a versão e não os fatos, vamos considerar que, se os custos caíssem, as coisas se resolveriam. E se caíssem de forma expontânea, melhor ainda pois a Fia não precisaria apelar para congelamentos no desenvolvimento de motores e chassis ou de partes deles e outros artifícios bestas que terão como efeito provável apenas reforçar a esperteza das equipes maiores.

Melhor, muito melhor, se chegasse menos dinheiro aos cofres das equipes, não? Com menos dinheiro, restaria a elas adequar os gastos às receitas, comprando motores de terceiros, limitando e até acabando com os túneis de vento e as pesquisas degeneradas de desenvolvimento de peças mais leves (e sempre muito mais caras) etc., etc., etc.

Já vimos esta situação antes na Fórmula 1, lembram-se? Pois foi justamente na sua época de ouro, os anos 60 e 70. Pilotos valentes e honestos lutando bravamente, engenheiros inventivos e polivalentes espremendo o cérebro e donos de equipe tirando o máximo de cada centavo. O melhor de tudo é que os patamares atuais de segurança de carros e pistas poupariam a vida dos pilotos, coisa que a tecnologia daquela época não permitia.

Mas como limitar a receita das equipes? A própria Fia já namorou esta idéia, chegando a ventilar a idéia de fixar por meio de auditorias o orçamento máximo de cada equipe, uma proposta asnática como tantas que a Fia tem.

Pois eu tenho uma sugestão singela, tanto que até me surpreende nunca tê-la visto circulando por aí: que se proíba o patrocínio para as equipes, voltando ao que era a Fórmula 1 até o final de 1967!

Jackie Stewart e seu BRM pouco antes da largada para o GP da Inglaterra de 67
Explicando: as equipes têm duas fontes de receita. Uma delas são os patrocínios nos carros, macacões e alguns outros arranjos. A segunda fonte é o dinheiro que as equipes recebem de Bernie Ecclestone. Nas de ponta, este dinheiro responde por algo entre um quarto e um terço do orçamento total.

Como dono dos direitos de organização da Fórmula 1, Bernie vende as corridas para os organizadores e os direitos de transmissão para a TV, além de várias outras mumunhas.

Metade do dinheiro que o bom Bernie fatura é repassado às equipes segundo uma fórmula fixada pelo famoso Pacto da Concórdia. Equipes grandes e antigas recebem mais, equipes pequenas e jovens menos.

É evidente que, por mais que Bernie fature, sobra pouco para as equipes, já que cada uma delas terá de se contentar com uma divisão por dez (a Super Agury, como recém chegada, não deve entrar no rachuncho) de metade do que ele ganha - e isso explica todo o esperneio das equipes grandes nos últimos anos.

O Ferrari de Chris Amon no México 67, última corrida antes que se permitissem patrocínios nos carros
Se a minha modesta sugestão for acolhida, as equipes teriam de se virar exclusivamente com este dinheiro de Bernie. A menos que elas decidam mergulhar no cheque especial, teriam de redimensionar drasticamente os seus gastos.

Times como a McLaren certamente seriam obrigados a demitir a maioria dos seus 136 engenheiros e designers, ficando com, digamos, uns dez deles, que projetariam o carro usando mais o bom senso e menos simuladores e túneis de vento. Testes continuariam existindo: talvez uma meia dúzia ao longo do ano inteiro, quatro antes e dois ao longo da temporada. Salários milionários seriam racionados. Muitos pilotos talvez se vissem obrigados a emprestar o talento a outras categorias para completar o orçamento e enganadores, como o ex projetista da Toyota, Mike Gascoyne, teriam de baixar em outro centro.

Uma vantagem adicional, nada desprezível, é que teríamos de volta às pistas carros com as cores dos seus países de origem. Seria um sinal da recuperação da pureza dos anos de ouro, revalorizando o esporte, a coragem, a galanteria e a inventividade que ainda existem dentro da Fórmula 1, numa volta ao passado sem as mortes frequentes que deixaram um borrão de sangue sobre aqueles anos.





Jim Clark e seu Lotus no México 67
Os mais maliciosos podem achar que a minha sugestão deixa a vida fácil demais para Bernie Ecclestone. Acho que não.

Ele já concordou em rever a divisão das receitas da Fórmula 1 a partir do ano que vem ou 2008 - nem sei mais, tantas idas e vindas tem este assunto - e as equipes, privadas de outra fonte de receita, teriam reforçados seus argumentos de luta contra uma divisão leonina.





Minha proposta, contudo, tem um problema: o que fazer com as grandes montadoras?

Elas, afinal, são uma terceira fonte de receitas para a maioria das grandes equipes e podem, se quiserem, continuar a despejar dinheiro em pesquisa, salários e motorhomes milionários.

Pedro Rodriguez com Cooper em Mônaco 67
Não tenho uma resposta pronta para este problema ainda que as leis de mercado costumem resolver estas situações. De qualquer forma, conto com a ajuda dos amigos leitores do GPTotal.

Um deles, Loreno Menegotto Jr., por coincidência, endereçou carta ao site na semana passada com uma proposta que tem alguns traços de semelhança com a minha. Confiram:

A solução para democratização dos custos da F1!

Seguinte: sabemos que o que alimenta nossas amadas baratinhas é a grana dos patrocinadores. E as equipes das montadoras, além dos patrocinadores, contam com toda a estrutura e o investimento das fábricas.

John Surtess e seu Honda em Mônaco 67
Então, se cortássemos os patrocinadores da equipe de fábrica e os repassássemos para as equipes independentes, será que equilibraria o jogo?

Façamos um exercício de imaginação: a Renault, com seus lindos carrinhos amarelos e pretos, como nos anos 80, perderia metade (?) da sua renda, com a saída do patrocínio da MildSeven e da Telefonica; estas, para não perderem a chance de figurar em um carro de F1, acabaria injetando seus dólares numa equipe como a MF1, que teria um aumento significativo no seu orçamento, o que elevaria sua capacidade técnica e que não a obrigaria a vender lugar no cockpit pra aumentar a renda, colocando bons pilotos pra correr...

Sacaram a matemática?

Sacamos, Loreno. Vamos ver se mais gente saca.

Abraços

Eduardo Correa
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