<% strBraco = "Colunas" strSub = "Eduardo" strDoc = "20060607" strData = "07.06.06" strNome = "Eduardo Correa" %> ..:: GP TOTAL ::..
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O pior dos erros II <%=strData%>


Tudo aconteceu num piscar de olhos.

<% camimg = "Img/20060607/02.jpg" titimg = "O Austin-Healy de Macklin" %> A frente do Mercedes de Levegh, correndo a quase 300 km/h, colheu a traseira do carro de Macklin, que corria a não mais do que 180 km/h. Não foi um choque pleno mas lateral contra lateral, o que contribuiu para fazer com que o Mercedes decolasse, voando uns 50 metros e depois quicando repetidas vezes sobre os montes de terra reforçados por madeira colocados à beira da pista por mais uns 50 metros, até atingir uma estrutura de concreto que dava acesso a um túnel sob a pista.

<% camimg = "Img/20060607/03.jpg" titimg = "O Mercedes de Levegh decola Vai começar a tragédia" %> A cena é dantesca. O carro de Levegh projeta pedaços em meio ao público a cada nova quicada, até se desintegrar, o motor, a suspensão dianteira e partes do chassi espalhando-se entre o público amontoado à beira da pista e fazendo, aí, a maior parte das vítimas, várias delas degoladas. Há uma explosão de chamas, logo controlada. Atingida pelos destroços, uma mulher é arremessada para dentro da pista, onde jaz morta, o corpo horrivelmente queimado pelas chamas do Mercedes. Atordoados, alguns policiais não veêm coisa melhor a fazer do que envolver o corpo da mulher numa faixa de publicidade e arrasta-lo para os boxes.

<% camimg = "Img/20060607/07.jpg" titimg = "Policiais retiram o corpo de uma das vítimas, que foi lançada dentro da pista" %> Naturalmente, houve pânico entre o público, que corria em direção aos portões de saída, não sendo poucos os casos de pessoas que morreram pisoteadas.

Encerrada a corrida, anunciou-se o trágico balanço, de longe o pior da história do automobilismo: 78 pessoas haviam morrido, entre elas Pierre Levegh, cujo corpo foi lançado a mais de 70 metros. 94 ficaram feridas. Macklin escapara sem ferimentos a despeito de seu carro ter atropelado duas pessoas antes de parar. Fangio, <% camimg = "Img/20060607/06.jpg" titimg = "Pedaços do Mercedes voam sobre o público" %> prevenido por um desesperado sinal de braço de Levegh, pode reduzir um pouco a velocidade e achar uma brecha entre os carros, seguindo na corrida.

Numa decisão discutida até hoje, Charles Faroux, diretor da corrida, decidiu pela sua continuação. A sua alegação era de que interromper a prova apenas atrapalharia o trabalho de socorro às vítimas, já que as estradas ficariam congestionadas, atrapalhando o trânsito das ambulâncias. <% camimg = "Img/20060607/05.jpg" titimg = "Partes do Mercedes explodem em meio ao público" %> De minha parte, diria que é uma boa justificativa para a alegação suprema de quem promove alguma coisa: o show deve continuar.

Os Ferrari não resistiriam por muito tempo ao ritmo da corrida e, quando a noite caiu, estão fora. O Mercedes de Fangio e Moss liderava com grande vantagem, sendo seguido por três carros da Jaguar. Nas precárias ligações telefônicas da época, o diretor da equipe Mercedes, Norbert Neubauer debate com seus chefes, na Alemanha, <% camimg = "Img/20060607/04.jpg" titimg = "Os restos do Mercedes se incendeiam" %> se a equipe deve ou não continuar na corrida. Uma decisão é finalmente tomada por volta da meia noite: a equipe se retiraria em sinal de luto pelos mortos.

Cavalheirescamente, os diretores da Mercedes caminham até os boxes da Jaguar e comunicam sua decisão, imaginando que os ingleses talvez quisessem fazer o mesmo. Ouvem como resposta que a equipe não considera Hawthorn responsável pelo acidente e que não tem a menor intenção de abandonar a prova.

Ainda na liderança, Moss pára nos boxes à 1h45 do domingo, deixando escapar uma vitória certa, tendo colocado três voltas de vantagem sobre o 2o colocado. Apesar de serem dois dos maiores pilotos de todos os tempos, Fangio e Moss nunca venceram em Le Mans. 55 foi certamente a maior oportunidade perdida por ambos.

<% camimg = "Img/20060607/01.jpg" titimg = "Hawthorn (à esquerda) e Bueb comemoram a vitória" %> Sem oposição, Hawthorn e seu companheiro de equipe, o novato Ivor Bueb, seguem tranqüilos até a bandeirada.

Num encontro horas depois da corrida, Fangio diz a Macklin que, pelo bem do automobilismo, seria melhor que eles não apontassem um culpado pelo acidente. Macklin concorda. Este era um ponto de vista comum à época, quando a morte na pista era uma constante (basta dizer que, naquele mesmo ano, o automobilismo já havia perdido um dos seus maiores pilotos, o italiano Alberto Ascari). A cada nova morte, ressurgiam as pressões contra as corridas. Melhor, portanto, não dar mais espaço para elas.

Dois dias mais tarde, Macklin diz à polícia que Hawthorn certamente "cometeu um erro" mas não o considerava responsável pelo acidente. Responsabilidade, se havia, era da alta velocidade dos carros.

A imprensa inglesa e a Jaguar, numa reação que vi repetida na morte de Ayrton Senna, inicialmente tangenciaram o assunto e depois negaram qualquer responsabilidade de Hawthorn, preferindo insinuar a culpa de Levegh, uma insinuação bastante conveniente, seja porque estava morto, seja porque pilotava um carro alemão.

Mais tarde, soubesse que, nos momentos seguintes ao acidentes, Hawthorn teve o que alguns descreveram como uma crise histérica, dizendo que tudo havia sido culpa sua e que ele nunca mais pilotaria. Uma das pessoas que ouviu isso foi Rob Walker, a quem Hawthorn explicou que manobrara daquele jeito porque queria parar nos boxes antes de ser ultrapassado por Fangio. Cercado por amigos e protegido da imprensa, Hawthorn se acalmou e voltou à pista. No pódio, ele comemora a vitória tomando champagne, o que foi considerado um ato indigno pelos franceses.

Uma semana depois, Hawthorn e Fangio disputavam o GP da Holanda, pela Ferrari e Mercedes, respectivamente. Fangio venceu e Hawthorn, com problemas de câmbio, terminou em 7º.

Mas a tragédia de Le Mans teria desdobramentos mais sérios. Quatro GPs de Fórmula 1 foram cancelados, assim como várias outras provas, e a Suíça decidiu proibir corridas em seu território, decisão que vale até hoje.

Eduardo Correa


>>>Veja o início desta história
>>>Veja o filme o filme do acidente em Le Mans 55
>>>Mais sobre Le Mans em nosso especial.

As fotos deste artigo foram retiradas do site www.crasherama.dk/lemans55-1.html

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