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Nascarização 08.02.06
Robert Doornbos testa para a Red Bull ontem em Silverstone.
Os leitores facilmente mataram a charada com a qual terminei minha última coluna. O modelo que nivela a competitividade das equipes é o americano e Nascar a sua expressão máxima.

Lá a competitividade entre pilotos e equipes é inteiramente condicionada pelas autoridades, sendo colocada acima de qualquer outra consideração esportiva, a ponto de se manipular claramente as bandeiras amarelas de forma a impedir que um piloto abra qualquer vantagem sobre os demais. O fato de tantas corridas de Nascar, IRL etc. se encerrarem com dois ou mais carros cruzando juntos a linha de chegada, mais do que expressão de equilíbrio na disputa, é produto puro e simples do controle pelas autoridades do ritmo do líder.

A tecnologia é fortemente controlada neste modelo. Não se pode perseguir a excelência tecnológica pois os comissários a vetam ou oneram tão logo percebem que ela representa um fator de desequilíbrio na competição. Naturalmente isso funciona como um limitador natural de gastos das equipes.

O modelo americano, comandado pelos organizadores, visa um determinado resultado, normalmente chamado “espetáculo”. O que importa é prender a atenção do público nos minutos finais da corrida. Durante a prova, não importam tanto as seguidas neutralizações. Pelo contrário, elas são bem vistas porque abrem janelas para os comerciais de TV ou o consumo de alimentos e bugigangas nos autódromos. Anos atrás, Bernie Ecclestone gozou este modelo dizendo que ele existe apenas porque os americanos são incapazes de prestar atenção a qualquer coisa por mais de alguns instantes.

Ao modelo “espetáculo” opõe-se o modelo “esportivo”, onde ganha o mais rápido/hábil/corajoso/inventivo, vigente na F1 e nas categorias européias, mesmo que isso resulte em corridas tediosas.





Tiago Monteiro com o carro da MF1, ontem em Jerez.
Há muitos anos se ouvem vozes na F1 defendendo a adoção do modelo americano. Dizem seus arautos (o mais notório: Flavio Briatore) que ele resolve todos os problemas da categoria: controla custos, atende aos interesses das emissoras de TV, maximiza as disputas na pista, prende a atenção do público etc.

A questão, porém, é considerar se este modelo, francamente manipulador, está a altura da tradição esportiva da F1, uma categoria que premia não só o arrojo dos pilotos como também o engenho das equipes, na captação de dinheiro e no uso criativo e eficiente dele (e, sim, há muito espaço para isso na F1. A Renault, em 2005, teve à sua disposição um orçamento menor do que a Ferrari, Toyota e McLaren). Habituado a este modelo de esporte verdadeiro e excelência técnica, o público poderia virar as costas para uma eventual nascarização da categoria da mesma forma que despreza um jornal que falseia notícias. A galinha que põe incontáveis ovos de ouro estaria morta e sepultada.





Rubinho também testou seu Honda ontem em Jerez.
Diante de uma ruptura tão arriscada, a F1 tangenciou a discussão por anos. Agora, o impasse parece rompido. Max Mosley, usando do poder que lhe confere o cargo de presidente da Fia, está disposto a bancar a aposta e levar a F1 à nascarização.

Reunido em 19 de dezembro, o Conselho Mundial da Fia determinou que, a partir de 2008, entre outras novidades, a categoria terá

a) fornecedor único de pneus (a Bridgestone),
b) eletrônica unificada,
c) limitação do desenvolvimento aerodinâmico ao longo da temporada,
d) limitação de giros do motor.


Mais Nascar do que isso só colocando pára-lamas nos carros e os pintando com as cores da Tide, Goodwrench e The Home Depot.





Albers com o MF1.
É assustador pensar o que acontecerá a uma F1 de tal forma desfigurada mas ainda não é cedo para chorar pois a disposição do Conselho Mundial está longe de ser sacramentada. Antes, é preciso resolver a questão dos direitos comerciais da F1, hoje oscilando entre o grupo de Bernie Ecclestone (que já conta com Ferrari e Red Bull) e o das montadoras.

Tudo indica que deverá prevalecer o ponto de vista de Ecclestone mas esta história já deu tantas e tantas voltas que é melhor não fazer qualquer previsão.

Por isso, não quero gastar muita paciência dos leitores especulando o efeito provável da nascarização mas adianto: não vai dar certo.

Não se volta o relógio para trás. A proposta de Mosley parece uma tentativa desesperada de trazer de volta a F1 dos anos 70, quando por força das limitações naturais do orçamento mais a predominância dos motores Cosworth, que equipavam a grande maioria das equipes, testava-se e pesquisava-se pouquíssimo, de forma que o desenvolvimento do carro ao longo do ano era praticamente nulo.

Zonta e seu Toyota em Jerez.
Com a nascarização, a Fia tenta consertar algo totalmente fora das suas mãos: conter o mar de dinheiro que veio dar na praia das equipes, produto de investimentos maciços em publicidade por parte dos patrocinadores, reflexo da mesma avidez por vendas e lucros que está devastando impiedosamente o planeta. No ano passado, por exemplo, a Bridgestone bancou testes pela Ferrari de mais de 500 tipos de pneus. Evidentemente um volume de testes desta ordem (o que explica a intransigência da equipe a qualquer limitação de testes) só pode ser levado a cabo se houver dinheiro para tanto e se se entender que tanto dinheiro produzirá, em algum momento, vendas e lucros maiores, num círculo infernal que, quando se quebra, produz crises.

Aplicada à F1, a nascarização levaria apenas a novos gastos, principalmente em simuladores e novos materiais, da mesma forma que todas as outras regras destinadas a reduzir custos a não ser que todos os patrocinadores do mundo deliberem investir apenas 10% do que investem hoje. No mundo real, esta não é um hipótese factível pois a F1 está sujeita, como tudo mais neste mundo de Deus, às leis de mercado. E contra estas leis, não há alternativa.





Hans Stuck, depois de participar da GP Masters na África do Sul, disse que, nos anos 70, quando ele competia na F1, as corridas eram perigosas e o sexo seguro. Agora, observou, as coisas se inverteram…

De fato, a F1 tornou-se um esporte muito mais seguro, segurança que veio no mesmo pacote de concessões que tornaram a categoria incomparavelmente mais rica.

E, por conta dessas concessões, talvez a época de ouro da F1, a época com a qual tanto sonhamos, tenha ficado irremediavelmente para trás.

Abraços

Eduardo Correa
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