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O que estou fazendo aqui 18.01.06
As novas cores da F1: Nico Rosberg com o Williams todo azul marinho.
Sufocados por toneladas de tecnologia, dinheiro e política barata - sinônimo perfeito de mentira -, vamos nós para mais uma temporada de Fórmula 1.

Não. Não estou nem um pouco entusiasmado com ela. No final de novembro, aliás, quase joguei a toalha, tendo considerado seriamente a hipótese de abandonar o GPTotal. Nada a ver com a propalada briga com o Panda que, em verdade, nunca existiu - sequer trabalhamos no mesmo escritório - ainda que haja sim divergências entre nós na maneira de conduzir o site mas nada que impeça
uma convivência civilizada e mutuamente proveitosa.

A McLaren com as cores originais da equipe.
Pesou, isto sim, o cansaço de ser forçado a conviver com um universo intrinsecamente corrompido como o da Fórmula 1 atual. Pesou ver o esporte que amo e que me motiva de tantas e diferentes maneiras mergulhar mais e mais na mentira que domina os tempos atuais. "Queremos mais emoção e competitividade", "mudamos as regras para garantir custos menores e mais ultrapassagens", "eu não sabia de nada" e "rompemos com o FMI para andar com as próprias pernas" (perdão: esta mentira não é daqui) são coisas que tenho engolido com cada vez mais dificuldade e me senti tentado a esconder-me do médico na hora de tomar o remédio amargo.

Refreie, na época, qualquer decisão por saber que cabeça quente é péssima conselheira e corri em direção às férias longamente retardadas. Foram quase 60 dias sem tocar no GPTotal, coisa que nunca me aconteceu desde agosto de 2001.

O carro da MF1
Passados dias e semanas, constatei o óbvio: o GPTotal conquistou uma massa de perto de cem mil leitores aos quais não podemos simplesmente virar as costas. É um patrimônio valioso demais; abandona-lo seria irresponsabilidade pura e simples.

E assim, por culpa de vocês, leitores, volto à pista não propriamente animado mas firme no volante para mais uma temporada.





Antes de entrar nela, porém, queria partilhar uma breve reflexão filosófico-profissional: o que estou fazendo aqui, afinal? Prometo que serei breve.

O BMW Sauber rodando em Jerez ainda todo branco
Vivemos, como disse acima, sob o império da mentira ou, numa hipótese caridosa, de meias-verdades. Poderosos e famosos dizem o que bem entendem, mesmo contra as mais elementares evidências, como se a força da palavra fosse suficiente para transformar mentiras deslavadas em verdades verdadeiras.

Neste momento, o que se espera de um jornalista é que ajude seus leitores na busca da verdade, já que só ela nos salva. Entende-se, desde logo, que a verdade é algo complexo, mutável, discutível. Mas persegui-la é necessário. Meu papel, portanto - um papel modesto, limitado, de certa forma relutante -, é ajudar o leitor a chegar o mais perto possível da verdade neste microsegmento da vida que é o esporte a motor.

e aqui já com as cores oficiais no lançamento
Preciso fazer isso de maneira lógica, honesta, calçada em fatos e histórias mas sem desprezar ou omitir a emoção suscitada pelo esporte, a torcida pelos meus pilotos favoritos e também pelos brasileiros, apostando as fichas da minha credibilidade a cada nova coluna, já que, se não podemos virar as costas aos leitores, eles podem faze-lo a qualquer momento, sem precisar sentir remorso.

Como comentarista, preciso reunir as informações disponíveis, checa-las e inseri-las num quadro maior e, à luz da minha experiência como jornalista (de 29 anos) e observador da Fórmula 1 e do automobilismo (de 38 anos), antecipar cenários, decifrar enigmas, propor soluções e despertar no leitor o gosto pelo que resta de beleza neste esporte terrível e sedutor, sublime e violento, que apela aos nossos sentimentos mais primitivos mas que também é motor de engenho, destemor e superação, onde a natureza humana pode aparecer inteira, no que tem de melhor e pior.

Rubinho estreando o seu Honda
Preciso fazer isso tudo sem ser chato, escrevendo de forma clara e rápida, em cima dos fatos. Agindo desta forma, creio que os leitores me concederão desculpas prévias pelos erros factuais e de previsão e, o mais importante, lerão minha coluna seguinte.

Para o jornalista, este é o melhor elogio que pode existir.





Algumas considerações especiais sobre a questão das minhas frequentes crítica aos pilotos brasileiros em atividade.

Em primeiro lugar, acompanhei as carreiras de Emerson, Piquet e Senna na Fórmula 1 desde a estréia de cada um deles, assim como as de Lauda, Prost, Mansell e Schumacher. Reconheço neles o modelo da vitória, meta maior do esporte, mas reconheço também o espírito indômito, a ousadia extrema, a velocidade criativa e a coragem épica de Peterson e Villeneuve, a quem também acompanhei desde a primeira corrida. Tendo-os como modelo, não posso me contentar com pouco.

Schumacher estréia o novo Ferrari
Em segundo lugar, acredito que o comentarista deve antes criticar e só depois elogiar. Corridas perfeitas são e sempre serão raras. Mesmo nas boas vitórias, é papel do comentarista apontar falhas e limitações. A crítica fundamentada aguça, desperta, provoca; o elogio pacifica, acalenta, entorpece. Nada disso pode fazer bem a um esportista.

Acredito sinceramente que isto, além de ajudar o leitor a chegar mais perto da verdade, faz bem aos pilotos, se é que algum deles se dá ao trabalho de ler as minhas colunas. Afinal, os grandes esportistas temem mais a derrota do que almejam a vitória.

Um bom 2006 a todos

Eduardo Correa
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