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| » » » 24.04.05 |
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| Um épico - ou quase |
24.04.05 |
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Acabamos de assistir a um GP épico - ou quase pois faltou a ultrapassagem de Michael Schumacher sobre Fernando Alonso, depois de descontar uma diferença de trinta segundos.
Tivesse acontecido a ultrapassagem e teríamos testemunhado, com todos os requintes da TV (que transmitiu muito bem a corrida, aliás), a uma reedição de Nurburgring 57, GP que muitos reputam com o mais belo de todos os tempos. Nele, Juan Manuel Fangio pilotando um Maserati descontou vantagem semelhante para a dupla de pilotos da Ferrari - Collins e Hawthorn - e venceu a prova. Depois, disse que, naquele dia, fez coisas das quais preferia não lembrar. Sua melhor volta na prova foi oito segundos mais rápida do que o tempo da pole.
Schumacher hoje fez quase igual, superando os problemas de um treinos desastrado e compensando na garra, talento e velocidade as deficiências do seu Ferrari e dos Bridgestone, certamente ainda inferiores ao Renault e aos Michelin.
Impulsionou o alemão um desejo quase temerário de superação, uma resistência extremada a se render aos imperativos da vida, que prescrevem que os velhos campeões sempre acabam batidos pelos jovens desafiantes, repetindo o mito do Ramo de Ouro, sobre o qual falo em meu livro. Schumacher será batido no futuro - é a vida e nem ele pode se rebelar contra isso - mas este dia ainda não chegou.
Na manhã de hoje, da maneira mais brilhante, o alemão mostrou do que é feito, porque ganhou tantas corridas e campeonatos e porque merece a fama e a glória das quais está coberto.
E Rubens Barrichello?
Não creio que ele possa ser considerado, no momento, um exemplo de motivação.
Se você é otimista como eu, está sonhando com um final de campeonato de sonhos, chegando-se às últimas corridas com uma disputa apertadíssima entre Schumacher e Alonso. Se é pessimista, pode perfeitamente argumentar que a fatura está liquidada em favor do espanhol e da Renault, que se mostraram à altura do desafio de correr e vencer sobre pressão.
O tira-teima entre otimistas e pessimistas no momento é saber se a Bridgestone conseguiu melhorar os seus pneus também em pistas quentes. Daqui a 15 dias, sob o Sol de Barcelona, o campeonato de 2005 terá uma nova mini-decisão.
O GP de San Marino tinha tudo para ser uma corrida chatérrima, como foi a do ano passado. A triste verdade é que Imola está se tornando anacrônica para a Fórmula 1, estreita e travada demais.
Resisto ao que posso mas começo a concordar com o Claudio Habara (veja seu belíssimo comentário no Friends): os autódromos têm de ser projetados como os da Malásia, China e Bahrein: largos, planos, banais.
San Marino sugere que acabou o gás de Fisichella, da Red Bull, da Williams e, talvez, da Toyota, sendo os bons resultados alcançados por eles nas primeiras corridas devidos principalmente às deficiências das demais equipes.
A boa notícia da prova foi a volta aos pontos da Bar, com os seus dois carros (e o pé quente de Gil de Ferran), a competitividade da McLaren e a bela corrida de Villeneuve.
Massa, por sua vez, mostrou a agressividade estabanada de sempre e não sei se é o caso de elogia-lo. A mim, sua primeira tentativa de ultrapassagem sobre Coulthard foi imprudente: ele estava muito atrás para tenta-la.
Não são só os pneus Bridgestone a causa do péssimo início de temporada da Ferrari. Também uma decisão de natureza aerodinâmica, que levou a uma miniaturização ainda maior do câmbio e da traseira do carro em geral, tem causado aquecimento em demasia. Foi isso que teria provocado a pane hidráulica que tirou Schumacher da corrida no Bahrein.
E Ross Brawn avisou que é precisa melhorar também o controle de tração como forma de maximizar o rendimento dos pneus. A excelência do controle de tração dos Renault é apontado, por sinal, como uma das causas do bom desempenho de Alonso.
Saudada no passado como uma grande sacada, a quase exclusividade entre Ferrari e Bridgestone virou arma de dois gumes. Até o GP do Bahrein, os carros da Michelin já haviam testado pneus por mais de 150 mil km enquanto os Bridgestone (que equipam também Jordan e Minardi) não haviam atingido 40 mil km.
É por isso que a Ferrari resiste a discustir qualquer limites aos testes.
Sabe por que a TV italiana insistia tanto no super slow motion dos carros pulando por cima das zebras, caprichando nos close nos pneus?
Porque as suspensões dos carros de Fórmula 1, cada vez mais rígidas, dependem muito da flexão dos ombros dos pneus e este parece ser o maior problema dos Bridgestones: eles não flexionam convenientemente, fazendo com que os carros fiquem mais difíceis de serem dirigidos e tracionando pior nas saídas de curva.
Sintomática a informação de que Fernando Alonso renovou apenas até o final de 2006 com a Renault. É que, a partir daí, o lugar de Schumacher poderá estar vago. E não digo nada se as negociações com o espanhol já não estiverem abertas.
Nesse sentido, as manifestação da preferência de Jean Todt por Kimi Raikonenn e a de Schumacher, de que pode estender o seu contrato, podem ser manobras que tentem diminuir a oferta para Alonso mesmo porque este precisa considerar a hipótese de a Renault abandonar as pistas em 2007.
Da série "Como é que a Fórmula 1 consegue gastar tanto dinheiro".
Os discos freios de um Fórmula 1 têm buraquinhos ovais em seu perfil, de forma a refrigerá-los "por dentro".
Pois bem. No GP do Bahrein, os Ferrari foram equipados com discos com buraquinhos de um formato totalmente diferentes - pareciam trevos de quatro folhas -, de forma a garantir "uma melhor fluidodinâmica interna".
Imaginem quanto não custou a pesquisa.
A belíssima volta de Alexander Wurz às pistas é uma gentileza de John Barnard - aquele mesmo dos carros vencedores da McLaren dos anos 80.
Barnard tem hoje uma empresa de consultoria chamada B3 Technologies, trabalhando para diversos clientes, inclusive equipes do MotoGP. Foi à B3 que a McLaren recorreu com o prosáico problema de encaixar os mais de 1,80 m de Wurz no minúsculo cockpit.
Barnard reviu tudo, construiu um extintor de incêndio (que normalmente fica sob as pernas do piloto) considerado "uma jóia de engenharia" e proporcionou ao austríaco as condições para cruzar em 4º, de certa forma também um resultado épico.
Boa semana a todos
Eduardo Correa
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