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| » » » 28.03.05 |
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| A ultrapassagem e o amargo na boca |
28.03.05 |
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| Com Frank Williams, de volta às pistas depois de seus acidente, no começo de 86 |
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Em 1986 já existia telemetria mas não tão refinada a ponto de permitir que os engenheiros, dos boxes, avisassem o piloto de que ele estava usando uma marcha muito alta em determinada curva.
Também não havia qualquer tipo de mecanismo servo-assistido para o volante. O piloto o torcia com a força dos próprios braços e, pode-se bem imaginar, não devia ser nada leve. Não havia qualquer tipo de assistência na passagem das marchas. O câmbio era inteiramente manual e era necessário acionar o pedal da embreagem para passar as marchas. Pilotos como Fernando Alonso e Kimi Raikonenn, por exemplo, nunca tiveram de fazer isso em um carro de Fórmula 1 simplesmente pelo fato de jamais terem pilotado um carro da categoria que tivesse três pedais.
Assim, enquanto você se delicia e delicia de novo com a ultrapassagem 100% brasileira no GP da Hungria de 86, lembre-se de que Piquet, além de controlar a derrapagem naquele carro de 800 cavalos, estava simultaneamente acelerando o motor (de forma a endireita-lo na pista e não perder muitos giros, deixando “esvaziar” o turbo), freando o carro e passando marchas com o pé esquerdo e a mão direita.
Teria Piquet, tão atarefado, tido tempo e mãos para enviar um tchauzinho (ou uma rosca) para Senna? Quase vinte anos passados, o mistério persiste, assim como a sua beleza e audácia.
Mas não pense que estou dando de barato que os pilotos do passado são superiores aos de hoje pelo simples fato daqueles carros serem mais difíceis de serem pilotados.
A média horária de Nelson Piquet no GP da Hungria de 86 foi de 151 km/h. No ano passado, Schumacher venceu a prova a uma média horária de 192 km/h.
Tanto mais facilidades para os pilotos, tanto mais velocidade atingida. Uma troca justa, ainda que se possa argumentar que fazer 151 km/h com um carro como o Williams FW11 de Piquet fosse muito mais difícil do que 192 km/h com o Ferrari de Schumacher.
Um dia discutiremos mais esse assunto.
A despeito da extraordinária manobra, o ano de 86 certamente terminou com um gosto amargo na boca de Piquet.
Não creio que ele tivesse se chateado com os anos ruins na Brabham – 82, quando desenvolveu o motor BMW, 84 e 85, quando não tinha nem os melhores pneus nem o melhor motor – e prefiro não pensar muito nos anos com a Lotus – 88 e 89 -, quando, pelo menos, Piquet estava com os bolsos cheios de dinheiro.
Mas em 86, ele tinha nas mãos um carro muito bom e um motor decididamente melhor do que os demais e como companheiro de equipe um inglês com cara de bobo que havia vencido apenas dois GPs até então.
Ainda que houvesse oposição real por parte de Senna, na Lotus, e Alain Prost, na McLaren, o favoritismo de Nelson Piquet era enorme. E, no entanto, ele terminou o campeonato apenas em 3º.
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| Piquet e seu Williams em 86 |
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O que teria acontecido a ele?
Por incrível que pareça, faltou a Piquet motivação. A sua independência algo anárquica impediu que algum tipo de influência externa dirigisse melhor os seus esforços rumo ao título.
Creio que, acima de tudo, pesou o ambiente de trabalho na Williams. Se na Brabham, Piquet estava entre amigos, na Williams encontrou um meio tão estéril quanto uma sala cirúrgica. Na Brabham, o rock tocava enquanto os mecânicos, Gordon Murray e Piquet trabalhavam sem a pressão de Bernie Ecclestone, dono da equipe, que preferia dirigir a suas atenções para a política da Fórmula 1. Na Williams, Piquet via apenas mecânicos taciturnos cumprindo ordens de Patrick Head. E, decididamente, Piquet não estava habituado a ver as atenções da equipe se dividirem entre ele e seu companheiro de equipe.
O acidente de Frank Williams, que passou quase que toda a temporada 86 entre a vida e a morte, normalmente é usada como explicação para definir a falta de prioridade da equipe para Piquet. Teria havido um acordo verbal entre eles, garantindo a Piquet a condição de primeiro piloto. Mas, com Frank em convalescenças, o “acordo verbal” foi esquecido e Mansell ganhou o mesmo status de Piquet.
Quer saber? Nunca acreditei nesta tese. Primeiro porque a Williams nunca foi de definir primeiro piloto, segundo porque pela proverbial cabeça fresca de Piquet – e bota cabeça fresca nisso - nunca deve ter trafegado a hipótese de que ele não teria braço para bater um inglês bobão.
Não. Piquet nunca foi traído pela Williams em 86, como também não o foi em 87. Ele recebeu exatamente o que seu contrato previa: carro e motor competitivos mas em nada diferentes dos de seus companheiro de equipe. Mas, depois que ele e Mansell estivessem na pista, o problema era só deles. E foi neste exato ponto que faltou a Piquet aquele algo a mais. Ele não foi tão veloz como Mansell ainda que tenha sido mais esperto em muitas oportunidades. Sofreu azares, principalmente no começo da temporada de 86 mas não pode reclamar. Certamente a sorte foi muito menos generosa com Mansell.
Um pouco de estatística para terminar: Piquet e Mansell disputaram 29 GPs pela Williams entre 86 e 87, com onze vitórias de Mansell, sete de Piquet, dez poles do inglês, seis do brasileiro, 145 pontos para este ante 133 do companheiro de equipe. Piquet conseguiu o título de 87 e o 3º lugar em 86 enquanto Mansell foi duas vezes vice-campeão.
Uma boa semana a todos
Eduardo Correa
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