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O inferno são os outros 19.10.08
Sem adversários por perto, Hamilton não é dominado por seus instintos mais primitivos
Pole position, vitória, volta mais rápida, maior número de voltas na liderança, isso para não mencionar a superioridade em praticamente todos os treinos livres desde sexta-feira. Lewis Hamilton e sua McLaren foram tão superiores em Xangai que conseguiram transformar a penúltima prova do ano, que poderia ser de puro frisson, em uma corrida modorrenta. Ninguém parecia ter dúvida de que o GP da China estava no bolso do inglês. Ninguém, nem Felipe Massa e toda a Ferrari. Daí aquele conformismo resignado do brasileiro, beirando o desânimo, no pódio e na entrevista coletiva. Massa parecia ter a certeza de que poderia ficar até o fim do dia correndo que não alcançaria Hamilton.

Sorriso amarelo: pela superioridade de Hamilton, explica-se o desânimo de Massa
O efeito sonífero da corrida chinesa foi determinado na largada. Hamilton manteve a primeira posição com segurança, sem ser incomodado por Kimi Raikkonen, que vinha em segundo, nem por Massa, o terceiro no grid. Como alunos comportados em fila, alcançaram a primeira curva nas mesmas posições em que largaram. O que se descortinou para Hamilton, então, foi um horizonte de asfalto, sem nada à sua frente. Sem ninguém para atiçar-lhe os instintos mais primitivos, o inglês foi abrindo vantagem logo nas primeiras passagens, a ponto de assinalar a melhor volta da corrida na de número 13.

Hamilton x Senna, Hamilton e Senna, Hamilton é Senna. Nas últimas semanas, uma seqüência de declarações atribuídas ao inglês – depois desmentidas por ele – acendeu o debate. Arrojado como Senna, obstinado pela vitória como Senna, seria Hamilton o sucessor do mito? Ainda distante das 41 vitórias e dos três títulos mundiais conquistados pelo brasileiro, Hamilton aproxima-se de Senna em muitos aspectos, mas distancia-se em um ponto fundamental.

Ayrton era movido a pressão. Suas provas mais inesquecíveis foram aquelas nas quais ele teve de superar os maiores desafios – largar atrás e conquistar posições, defender a liderança, disputar corridas contra carros superiores ao seu. Quanto mais encrencado o problema, melhor seu desempenho. Mas, fosse dada a ele uma pista livre, uma liderança tranqüila, clic! Alguma coisa parecia desligar no cérebro de Senna e ele perdia a concentração. Fazia o mais difícil, atrapalhava-se com o fácil. O exemplo mais clássico: Mônaco, 1988. Uma corrida ganha, McLaren sobrando, e ele estampa o muro. Mas não foi só. Engalfinhou-se com retardatários e comprometeu vitórias, como em Monza, 1988 ou Interlagos, 1990 (e ainda que seja discutível a culpa de cada um nos incidentes, uma certeza paira inconteste – era só esperar um pouco mais).

Hamilton comporta-se como o oposto desse padrão. Dê-lhe pista livre, nenhum enrosco, e ele coleciona voltas perfeitas com a precisão de um relógio suíço. É certo que, no embate direto com seus oponentes, Hamilton tem talento para fazer manobras brilhantes, como foi brilhante a ultrapassagem sobre Raikkonen, na Bélgica, depois punida. Não se discute, aqui, se ele afinal locupletou-se da saída de pista, apenas louva-se a beleza da ultrapassagem.

Com o quarto lugar em Xangai, Fernando Alonso passou Kovalainen na classificação do campeonato
Às vezes, dá certo. Às vezes, o prejuízo é enorme, como na corrida passada, em Fuji, quando o inglês lançou-se feito kamikaze contra um inofensivo Fernando Alonso, que havia saltado para a segunda posição na largada. Inofensivo na disputa pelo título, naturalmente. Deixasse Alonso seguir, sem incomodá-lo, Hamilton se manteria em terceiro na prova japonesa, com chance de estar ainda mais tranqüilo na disputa pelo título. Talvez, até, com a fatura liquidada.

Hoje, Hamilton não teve chance de mostrar se essa natural habilidade para superar desafios já começa a ganhar contornos de maturidade. Não houve adversário para ele. Sem ninguém para criar-lhe dificuldades, o diabinho da audácia dormiu tranqüilo durante as 56 voltas do GP da China. Longe dos outros, Hamilton vive no paraíso. Hamilton talvez esteja percebendo que só ele mesmo pode tirar-se esse título. Com a cabeça fria, sem enxergar inimigos a serem batidos em toda curva, conservando posições e, como disse o engenheiro da McLaren ao fim da corrida, pilotando com disciplina, Hamilton leva o título com um mísero quinto lugar. Dá para entender o desânimo de Massa.





Daí o leitor pode questionar: mas a Ferrari não é favorita em Interlagos? Cabe breve análise sobre o Mundial de 2008, um intrincado jogo de xadrez no qual nem as próprias equipes parecem ter certeza sobre as possibilidades de cada um, a cada nova prova. Favoritismos, neste ano, foram derrubados em várias ocasiões: quem poderia imaginar que Massa fizesse a pole em Mônaco? Quem poderia dizer que o brasileiro teria um desempenho tão dominante no travado circuito de Valência, apontado inicialmente como traçado ideal para a McLaren? Na mesma linha de raciocínio, quem poderia supor que Massa impusesse tamanha superioridade na Hungria, até quebrar o motor? A McLaren, por sua vez, não parecia favorita para vencer nos velozes circuitos de Silverstone e Hockenheim, e Hamilton venceu. Uma temporada marcada por situações inusitadas, como o incidente entre Hamilton e Raikkonen no Canadá, os safety cars em Hockhenheim e Cingapura, o erro da Ferrari em Cingapura... Tudo jogando favoritismos pela janela... Antes da corrida chinesa, havia quem garantisse que a McLaren voadora dos treinos não manteria o mesmo ritmo na corrida. Quem quer apostar, agora, todas as suas economias no favoritismo da Ferrari em Interlagos?





Poupo o trabalho dos leitores e apresento já outro argumento forte pró-Massa. Hamilton também não tinha sete pontos de vantagem para Raikkonen, no ano passado, e o finlandês não reverteu o quadro? Nesse ponto, reside a grande esperança do brasileiro. A Ferrari joga como equipe, sabe fazê-lo e sempre o fez. Não só na era Schumacher, mas ainda na gestão de Enzo Ferrari. E foi assim que venceu o Mundial de Pilotos em 2007. A McLaren, por sua vez, jogou o campeonato do ano passado fora ao permitir que seus dois pilotos brigassem feito cães até a última corrida. Em 2008, mudou radicalmente a fórmula.

Para que serve Heikki Kovalainen?
É Hamilton na cabeça e Kovalainen em sétimo lugar no campeonato. O finlandês da McLaren, que abandonou em Xangai aparentemente por um problema de suspensão, foi superado por Fernando Alonso na pista, ao levar uma das poucas ultrapassagens da corrida, e no Mundial de Pilotos. Ou seja, daria na mesma, para Hamilton, ter Kovalainen no carro de número 23 ou um boneco inflável. Além de não ter servido, em nenhuma das 17 corridas disputadas até agora, para ajudar Hamilton e trabalhar pelo time, Kovalainen sequer tirou pontos dos demais competidores, sendo até superado por Alonso nesta reta final. O que não quer dizer que não caiba ao finlandês algum papel de destaque na prova restante, o que seria inédito na atual temporada. O que também não quer dizer que Kovalainen seja um mau piloto. Ele nitidamente é o segundo piloto. 8 ou 80. Na McLaren, ou os dois pilotos se matam pelo título, ou um deles briga sozinho. Também neste aspecto, Hamilton beneficia-se da solidão.





Piquet evolui. A Fórmula 1 terá paciência com ele?
Por fim, uma nota sobre Nelson Piquet, mais uma vez na zona de pontos (a quinta, neste ano). Depois de um início de campeonato muito ruim, o brasileiro vai se acertando na Fórmula 1. Ele teve um desempenho semelhante quando chegou à GP2: claudicante na primeira temporada, consistente na segunda. Tomara, para ele, que a Fórmula 1 tenha paciência.





A decisão fica, pelo quarto ano consecutivo, para o GP do Brasil. Bola dentro essa inversão do calendário, tirando a corrida das águas de março para o final do ano.

Uma ótima semana a todos!
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