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| » » » 10.10.08 |
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Quando chegou ao Japão, para disputar a antepenúltima prova da temporada de 2007, Lewis Hamilton, como hoje, era líder do campeonato. Tinha 97 pontos, seguido muito de perto pelo então companheiro de equipe, Fernando Alonso, com 95. Uma das diferenças em relação ao passado está justamente na pontuação. O campeonato de 2008, que já teve sete vencedores de corrida, dividiu o bolo de forma mais, digamos, democrática. No lugar dos 97 pontos de 2007, Hamilton lidera atualmente com 84 pontos, seguido por Felipe Massa, sete pontos atrás. Ou seja, embora tenha somado menos pontos, tem uma vantagem maior.
Nada que seja definitivo. Sete pontos podem se desmanchar no ar em uma única corrida. Basta que Hamilton não pontue e Massa vença ou chegue em segundo e, voilà, temos um novo líder na disputa. Uma eventual vitória de Massa não seria surpresa, afinal, o brasileiro já venceu mais que qualquer outro piloto neste ano – cinco vitórias: Bahrein, Turquia, França, Valência e Bélgica. Venceu muito, mas deixou de pontuar na mesma proporção – cinco vezes: Austrália, Malásia, Inglaterra, Hungria e Cingapura.
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| Hamilton ficou em 3o nos treinos desta sexta, em Fuji |
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Já Hamilton, que tem uma vitória a menos que Massa (Austrália, Mônaco, Inglaterra e Alemanha), deixou de pontuar em apenas três provas (Bahrein, Canadá e França). Dessas três corridas, duas resultaram em zero ponto exclusivamente por erros do próprio piloto (uma sucessão de manobras equivocadas no Bahrein, a batida em Kimi Raikkonen, na saída dos boxes, no Canadá). A terceira, na França, viu Hamilton fora da zona de pontuação como conseqüência do acidente no Canadá. Punido na corrida seguinte, Hamilton largou em 13º na prova de Magny Cours e não conseguiu nada melhor que um décimo lugar na classificação final da corrida. Em nenhuma das quinze etapas já disputadas neste ano, Hamilton foi vítima de problemas no carro ou de erros estratégicos da equipe.
É certo que Hamilton não vence desde o GP da Alemanha, no já distante dia 6 de julho. No entanto, marcou presença, em todas as corridas de lá para cá, na zona de pontuação. Um segundo lugar (Valência), dois terceiros (Bélgica e Cingapura), um quinto (Hungria) e um sétimo (Itália). No total, 26 pontos. No mesmo período, Massa venceu duas vezes – Valência e Bélgica. Ainda conseguiu um sexto lugar, na Itália, e somou duas provas fora dos pontos. Total, 23 pontos no período.
E o que essa sopa de numerozinhos quer dizer?
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| Massa ficou em 4o nos treinos da sexta, em Fuji |
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Que a equação “vitória de Massa + abandono de Hamilton” não tem sido um padrão neste campeonato. De quinze corridas, Hamilton pontuou em doze. Massa, em dez. Não é novidade para quem segue a Fórmula 1 que o sistema de pontuação atual privilegia a regularidade. Ao reduzir a diferença entre o primeiro e o segundo colocados para apenas dois pontos, a categoria atirou no que viu e errou no que não viu. Na época da mudança, período da supremacia monolítica de Michael Schumacher, diminuir o peso da vitória significava emprestar alguma competitividade ao campeonato. Só que a medida teve um efeito colateral talvez imprevisto por seus criadores. Diminuindo a vantagem do vencedor, a Fórmula 1 aumentou a cautela daqueles que, em determinado momento, podem (ou precisam) administrar seus resultados.
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| Domenicali, o chefão da Ferrari |
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Parece ser o caso de Hamilton, a julgar por seu desempenho nas duas últimas corridas. Depois da manobra intempestiva no GP da Bélgica, e de toda a confusão advinda dela, o inglês parece investido de um comedimento que não lhe é natural. No inusitado GP da Itália, definidas as posições após os pit stops, Hamilton viu-se exatamente atrás de Felipe Massa, respectivamente em sexto e sétimo lugares. Seu ímpeto belicoso certamente o empurraria para pelo menos tentar uma ultrapassagem sobre o rival direto. Pois Hamilton resignou-se por dezesseis voltas atrás do brasileiro e saiu de Monza com apenas um ponto de vantagem na classificação.
Veio Cingapura e o risível desfile da mangueira ferrarista. Com o oponente fora da zona de pontuação, Hamilton contentou-se com o terceiro lugar, atrás do improvável Alonso e de Nico Rosberg. Seis pontos a mais, sete de vantagem sobre Massa. Lucro indiscutível. Porém, vale a pena jogar os holofotes sobre dois episódios dessa corrida. Quando Alonso voltou de seu segundo pit stop, Hamilton teria condições de partir para o ataque, mas segurou-se, àquela altura parecendo mais focado em Kimi Raikkonen, que ainda se apresentava como rival na luta pelo título. Comedido, como na Itália.
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| Kovalainen seguido por Nakajima |
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O outro episódio deu-se durante a entrevista coletiva. Com indisfarçável sorriso amarelo, Hamilton falava sobre a própria performance sem nenhum entusiasmo, como se o terceiro lugar fosse um mal necessário, uma blindagem que protegesse a pontuação no campeonato, uma armadura que aprisionava o guerreiro rompedor que ele gosta de ser na pista.
Algo parece estar segurando o ímpeto de Lewis Hamilton. O freio pode ser simples sinal de amadurecimento. Hamilton não é mais o estreante sensação que poderia tornar-se o primeiro “rookie” campeão da história da Fórmula 1. Em 2007, perdeu um título quase ganho por uma sucessão de erros dele mesmo. Como parece ter acontecido com Massa, neste ano, Hamilton dá sinais de ter amadurecido sua atitude na pista por força de conseqüências duras sofridas. Mas a rédea curta na impetuosidade do atual líder pode estar sendo puxada por outras mãos.
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| Rosberg com os pneus de listras verdes |
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A McLaren, verdade seja dita, tem feito um campeonato exemplar. Depois do turbilhão de 2007, a equipe inglesa está fazendo tudo o que se espera de uma equipe com potencial de campeã. Um carro confiável, estratégias corretas (com exceção, talvez, do treino classificatório para o GP da Itália), foco definido. Sem brigas, sem acusações, a McLaren está dizendo – a Hamilton e ao mundo: “nós estamos fazendo nossa parte”. Cabe a Hamilton fazer a sua que, pela atual configuração do campeonato, refere-se mais a não errar do que a se superar.
O freio a Hamilton talvez seja dado a quente, em cada aproximação de curva na qual o inglês sinta-se apto a ultrapassar quem estiver em seu caminho. Em sua cabeça, uma vozinha deve atiçar-lhe – “vai, você pode, você consegue”. Em seu capacete, mais exatamente nos fones de ouvido, uma voz circunspecta deve fazer o contraponto – “não se arrisque, fique onde está”.
Esse embate algo esquizofrênico, amigos, talvez nunca venha a público. A Fórmula 1 lança mão, em todas as corridas, das transmissões via-rádio entre pilotos e equipes, mas sempre para brindar-nos com frases ultra-significativas como “push hard”, “keep on pushing” ou “ rain is not expected”. Misteriosamente, nunca ouvimos as orientações dadas aos carros da McLaren ou da Ferrari, quando estes lideram as corridas. Entram lá, no final das provas, migalhas de conversas entre seus pilotos, chefes de equipe e engenheiros, geralmente para dizer o indefectível “well done” ao vencedor.
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| Rubinho pode estar próximo da aposentadoria |
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Difícil ter certeza se a McLaren está segurando Hamilton, para garantir o campeonato, ou se ele adotou deliberadamente uma postura de maior cautela. O que parece evidente é que Hamilton, a despeito do discurso de que ainda não está fazendo contas, mas apenas focando em vencer, está, sim, defendendo mais do que atacando. Nas três provas que faltam, a responsabilidade de reverter a tabela de pontos é de Massa e da Ferrari. Resta saber se Hamilton mudou mesmo ou se, no momento da decisão, a vozinha instigante do ímpeto não vá dominar-lhe o espírito.
Um ótimo final de semana a todos!
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