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| » » » 28.09.08 |
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| A queda do império |
28.09.08 |
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A imagem de Felipe Massa saindo do box de Cingapura tendo a mangueira de reabastecimento presa à sua Ferrari simboliza a decadência de uma equipe. Não foi o primeiro erro da Ferrari no atual campeonato, o que apenas reforça a idéia de declínio do time de Maranello. Os danos causados por erros de estratégia, de procedimento e quebras de motores, ao longo do ano, superaram em muito todo o esforço de seus pilotos – ou, com mais justiça, do piloto do carro número 2 – em busca de um novo duplo título, de Pilotos e Equipes.
Caiu tudo por terra: a boa expectativa de Massa ao chegar a Cingapura, informando que, afinal, a Ferrari tinha conseguido se acertar com a temperatura dos pneus, o bom desempenho dos carros vermelhos sob o calor e a umidade do sudeste asiático mostrando que, pelo jeito, a falta de confiabilidade dos motores tinha ficado no passado. Principalmente, deu em nada a performance arrasadora de Massa em sua volta voadora, conquistando a primeira pole position para uma corrida noturna na história da Fórmula 1.
Corrida jogada fora em mais um erro da equipe, que insistiu na utilização do chamado “pirulito eletrônico”, a mesma engenhoca que já havia falhado em um reabastecimento de Kimi Raikkonen, em Valência. Um erro humano, reputado a um mecânico que pensou estar encerrado o reabastecimento e apertou o famigerado botão que aciona a luz verde. Dado o sinal, Massa arrancou, levando junto a mangueira, derrubando dois mecânicos e entrando pelo cano.
A seqüência de imagens foi digna de um filme pastelão. Primeiro, Massa quase bateu em Adrian Sutil, em evento nada relacionado ao caso da mangueira. Depois, o brasileiro percebeu – ou foi avisado – que arrastava a mangueira, diminuiu a velocidade e encostou no final do pit, esperando socorro. Mecânicos deram um sensacional sprint de alguns metros e se aglomeraram em torno do carro, em tentativas desesperadas de desprender o dispositivo de reabastecimento. Quando o bicho finalmente desacoplou-se da Ferrari, restava pouco a fazer.
Não é que o carro da Ferrari seja ruim – uma pole conquistada com as sobras de sábado provam que a máquina é competitiva. Uma equipe que conquistou dez vitórias em dezessete corridas não pode ser considerada fraca. Não são fracos, tampouco, os pilotos. Um é o atual campeão mundial que, verdade seja dita, parece meio aéreo, meio perdido, ou ambos. Mas, diabos, é o atual campeão mundial. O outro é o piloto que conquistou mais vitórias na atual temporada, um piloto que se ergueu das próprias deficiências para uma seqüência impecável de corridas na base do zero-erro. É a dupla que garantiu o Mundial de Construtores para a Ferrari no ano passado, porca miséria! O primeiro ano sem o alemão heptacampeão na equipe.
O que desandou na Ferrari foi sua porção estratégica, a competência que a fazia ter sempre as melhores maneiras de lidar com as variáveis de uma corrida – quantos pit stops fazer, quando fazê-los, quais compostos utilizar antes ou depois, como jogar com os dois pilotos a ponto de favorecer a equipe. Não é a mangueira, toscamente presa ao carro de Felipe Massa, que determina a decadência da Ferrari. Ela apenas simboliza um processo que vem se degringolando nos últimos meses. Jean Todt faz mais falta à Ferrari que Michael Schumacher.
Mas seria injusto definir o GP de Cingapura, o primeiro grande prêmio noturno da história de Fórmula 1, a corrida de número 800, como “a prova em que Massa saiu do box com a mangueira”. Cingapura 2008 foi a vitória da obstinação, da estratégia perfeita, da condução segura, da maestria de Fernando Alonso. Vê-lo sair do carro quebrado, no Q2, foi desalentador. A Renault vinha muito bem nos treinos livres, o que pode não significar muita coisa na maioria das vezes. Mas Alonso garantia – nunca estivemos tão bem em nenhuma outra pista, neste ano. Porém, o carro parou.
O asturiano chegou a declarar que a corrida estava perdida. Acreditava, mesmo, na possibilidade de uma pole position, e se agarrava a isso como promessa de vitória. Pista de rua, estreita, estreitíssima, por onde ultrapassar? Para ganhar, só saindo na frente. Mas a madrugada deve ter sido longa no box da Renault. Alonso não é de jogar a toalha assim, facilmente. Deve ter se reunido com Briatore e com a trupe de engenheiros e ficaram lá, antevendo situações e escolhendo estratégias. Alonso, entusiasta das mesas de pôquer no box da Force India, deve ter desfalcado o carteado na madrugada de sábado para domingo.
Apostaram que alguém, cedo ou tarde, estamparia o muro, fazendo entrar o safety car. A honra coube a Nelson Piquet, companheiro do próprio Alonso, mas levo apenas como brincadeira a idéia de que o brasileiro possa ter feito isso como jogo de equipe. Alonso beneficiou-se amplamente, pois tinha acabado de fazer seu pit stop, arrancando do carro os pneus extra-macios que não rendiam tão bem, trocando-os pelos compostos macios e reabastecendo o combustível.
Lembrou, vagamente, a estratégia de Nelson Piquet, o pai, em Kyalami 1983. Na ocasião, Piquet sumiu na frente, com pouco combustível no carro, parou antes de todo mundo e garantiu ali seu segundo título mundial. Alonso não largou com tão pouco combustível, mas traçou uma estratégia igualmente inteligente ao fazer uma primeira perna da corrida bem curta, livrando-se logo dos pneus “ruins” e, naturalmente, aproveitando-se da sorte de ter parado no momento certo, exato, pouco antes da entrada do safety car.
Robert Kubica e Nico Rosberg devem ter pensado parecido, calculando um primeiro pit stop precoce, mas não tiveram a sorte de fazê-lo imediatamente antes da entrada do safety car. Ficaram na mão, sob risco de pane seca, e entraram no box quando ainda não podia. Pagaram seus pênaltis com dois stop & go, coisa que não se tem usado com freqüência na Fórmula 1 atual.
Sorte, sim, muita sorte. Estrela: a sorte costuma acompanhar os grandes campeões. Grandes campeões costumam ousar mais, passando mais perto do muro do que os outros. Os outros até passam, mas a diferença, em geral, está no fato de que os outros habitualmente batem.
Dezessete corridas, sete pilotos vencedores: Hamilton, Raikkonen, Massa, Kubica, Kovalainen, Vettel e Alonso. Como Vettel, na corrida anterior, Alonso repetiu muito a palavra “inacreditável”. Era de se esperar uma primeira vitória da BMW em 2008. Da Renault, mais difícil. Da Toro Rosso? Inacreditável.
Ora, Hamilton lidera o campeonato, agora com mais folga do que antes – abriu sete pontos de vantagem para Felipe Massa. O que significa que o inglês pode chegar em segundo nas três provas que faltam (Japão, China e Brasil), com Masa à frente, e ainda assim será campeão. Na corrida de Cingapura, Hamilton parece ter domado seu ímpeto pela vitória a qualquer preço. Quando Alonso fez seu segundo pit stop e voltou exatamente à frente de Rosberg e de Hamilton, cheguei a pensar que o inglês iria para o tudo ou nada. Pois ele se resignou com o terceiro lugar e foi assim até o final. Se Hamilton está consciente de ter atingido sua cota de erros, se o julgamento na FIA serviu para lhe fazer refletir, se correr as três provas pensando no campeonato, e não em dar espetáculo, Deus salve a Rainha!
Uma ótima semana a todos!
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