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O bom e o marvado 07.09.08
O GP da Bélgica de 2008 poderia ser lembrado como uma corrida épica, um daqueles eventos marcados pelo acaso, se é que chuva em Spa possa ser considerada obra do acaso. Lewis Hamilton, já líder do campeonato, sustentava tranqüilo a segunda posição quando as gotas se precipitaram. Poderia ter se resignado com os oito pontos, diminuído o ritmo e levado o carro, com insípida cautela, até a bandeirada.

Mas Hamilton, este legítimo gestor de crises, parece ter assistido vezes sem conta à cena do filme “Grand Prix” na qual o personagem Jean-Pierre Sarti define sua própria conduta ao volante. “Quando acontece um acidente, eu piso mais fundo, porque sei que os outros aliviam.” Como sempre lembra nosso Eduardo Correa, aqui no site, se a corrida é complicada, chame Hamilton e ele resolve.

Kimi e Hamilton
Ousadia, em Hamilton, não é novidade. No ano passado, estreante, quase foi campeão. Não o foi por conta de seus próprios erros, talvez por exagerar na audácia. A natureza de Hamilton é a do destemor. Foi essa ousadia inata que o impulsionou para cima de Kimi Raikkonen, quando começou a chover. Sua McLaren parecia muito mais estável que a Ferrari do finlandês, que nitidamente não se dá bem com pneus duros. Mais que isso: Hamilton parecia muito melhor que Raikkonen. Às favas com os pontos do campeonato, deve ter pensado Hamilton. E foi para cima.

Na refrega – Hamilton força por um lado, Raikkonen espreme por outro – o inglês espalhou pela chicane da Bus Stop. Cortou caminho, não pode. Atento, devolveu a posição para o oponente, para acossá-lo na curva seguinte. Irresistível, irrefreável Hamilton. Foi embora com aquele mesmo pneu duro que faria Raikkonen rodar, estampar o muro e praticamente dar adeus ao bicampeonato.

Raikkonen
Ousadia demais, demais da conta. A Ferrari agarrou-se à manobra e protestou. Sustentou que Hamilton cortou caminho e, assim, a equipe italiana conseguiu impor 25 segundos ao tempo do inglês. O épico virou tapetão. Audácia custa caro. Transforma uma vitória, dez pontos, em um terceiro lugar. Polêmica a análise dos comissários de pista. Hamilton não cortou caminho pela chicane deliberadamente. Em uma disputa, roda a roda, a chicane foi o que lhe sobrou para não bater no rival, diriam os defensores do inglês.

No entanto, não houvesse a chicane, Hamilton e Raikkonen provavelmente teriam batido. Estivessem os dois fora da prova, a vitória sobraria para Felipe Massa. A decisão dos comissários, por este ângulo, apenas refaz a justiça de uma manobra afoita.

Mas, de fato, havia uma chicane. Hamilton a cortou, evitou a colisão e, imediatamente, devolveu a posição. É neste fato que a McLaren se agarrou para apelar da decisão pós-corrida. Colocou seus dados à disposição da FIA, para provar que, na curva seguinte, Hamilton estava, de fato, mais lento que Raikkonen, dando prova de seu fair play.

Estranho esse mundo de hoje, da Fórmula 1. A equipe precisa pedir clemência por ter um piloto arrojado. O discurso é o da busca pela competitividade, com regras novas que possam permitir, favorecer ou pelo menos estimular ultrapassagens e mais emoção. Difícil saber o limite da ousadia – até onde se pode ser audaz, na Fórmula 1, sem tomar uma punição?

Antes da decisão dos comissários, em segundo lugar no pódio, o vencedor por direito da corrida, Felipe Massa, tinha a expressão de derrotado. “Eu parecia um bundão guiando”, disse o brasileiro ao microfone do nosso Luis Fernando Ramos, o Ico, depois da corrida. A prova de Spa não lhe tinha sido necessariamente ruim, pelo contrário. Herdou o segundo lugar nos estertores da corrida, graças à batida de Raikkonen. Via, dessa forma, a vantagem de Hamilton crescer no campeonato mas, em compensação, solidificava sua posição perante o companheiro de equipe que, naquele momento, tinha quinze pontos a menos que ele.

O resultado, naquela altura, poderia não ser ruim, mas Felipe cada vez mais dá mostras de ser um competidor extremamente honesto. Quando erra, não procura culpados. Na corrida deste domingo, ao tirar o capacete, ele sabia que o show tinha sido, primeiro, de Raikkonen, que pareceu acordar de um extemporâneo período de hibernação em pleno verão europeu, ultrapassando-o já no início da prova, sem negociar, após a impiedosa Eau Rouge. Depois, para fechar o espetáculo, um desempenho inesquecível de Hamilton. Diante de tanta audácia, resignado em levar o carro até o final, Massa só poderia mesmo sentir o traseiro grande a lhe pesar na reputação.

O tempo, o único para sempre irrefreável, às vezes suaviza dores. Findo o GP da Hungria, há pouco mais de um mês, Massa amargou uma derrota que não merecia. Terminado o GP da Bélgica, o brasileiro mal comemorou uma vitória que não era sua. Hamilton, feito o galo de briga que destroça os adversários, acabou vítima da própria marvadeza. Cauteloso, até certo ponto acuado, como o galinho que mais apanha do que bate, o bom Felipe saiu da Bélgica de braços dados com a sorte. Piloto honesto que é, Massa deve ter consciência de que precisa desempenhar como campeão para de fato sê-lo nas cinco provas restantes. Galo marvado por natureza, Hamilton chega à Itália mais mordido que nunca. Vai ficar bom de se ver.





Barrichello
Se Hamilton disse ter pedido aos céus que viesse a chuva, é caso de solicitar-lhe para reforçar as oferendas da próxima vez. Ou que, pelo menos, peça para a água cair antes. Esta, certamente, seria a pedida de Rubens Barrichello, desacorçoado com a paquidérmica Honda, uma verdadeira casa da sogra nas longas retas de Spa. Chegava quem queria, sem cerimônia. A chuva, diz Barrichello, faz as retas parecerem mais curtas para a Honda, diminuindo a diferença dos motores potentes para os carros da equipe japonesa. Pena, para ele, que a chuva veio apenas quando ele já tinha sucumbido. E ainda querem Alonso em 2009.





Alonso
Uma eventual transferência de Fernando Alonso para a Honda só pode ser vista à luz do vil metal. Acho pouco provável. O espanhol é ávido demais por títulos e não vai se contentar com bolso cheio. Coisa que, aliás, ele já tem. Alonso parece satisfeito por estar ajudando a Renault a evoluir. Vai devagar, essa evolução, mas o quarto lugar em Spa comprova a melhora. E, nesse panorama, a instabilidade de Nelsinho Piquet não contribui em nada. Nem para a equipe, muito menos para ele.

Uma ótima semana a todos!
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